Thanassis Stavrakis/AP
Thanassis Stavrakis/AP

Grécia pagou preço alto por resistir ao ajuste

Com a explosão da crise financeira do país no final dos anos 2000, houve cortes até nos benefícios dos aposentados

José Fucs, O Estado de S.Paulo

23 de dezembro de 2018 | 05h00

Entre todos os países, talvez nenhum mostre de forma tão clara as consequências dramáticas que o adiamento constante de reformas no sistema público de Previdência pode causar quanto a Grécia. 

Por resistir à realização do ajuste, para manter o pagamento de generosos benefícios a aposentados e pensionistas, o país contraiu uma dívida externa impagável e acabou tendo de fazer a reforma na marra, para garantir a concessão de novos empréstimos e a rolagem dos antigos. Foi a maior operação-hospital de que se tem notícia na história.

Ironicamente, quem teve de negociar os “papagaios” de US$ 240 bilhões e administrar a crise, que quase tirou a Grécia da zona do euro, foi o governo do partido de esquerda Syriza, capitaneado pelo atual primeiro-ministro Alexis Tsipras, um dos que mais combatiam a política de austeridade fiscal e se opunham às reformas na Previdência, em gestões anteriores.

Crise global. “A Grécia é um exemplo do que acontece se você força demais a situação e garante promessas irrealistas na Previdência”, afirmou o economista grego Platon Tinios, ex-assessor do primeiro ministro do país entre 1996 e 2004, pouco antes de vir ao Brasil para participar de um seminário, em 2017. “A Grécia é um caso emblemático do que a gente não quer”, diz o economista Pedro Nery, consultor legislativo do Senado e autor de inúmeros estudos na área.

Depois que o problema explodiu, no final dos anos 2000, no rastro da crise financeira global, a Grécia teve de cumprir um programa de ajuste centrado na reforma das pensões. Até agora, o país já realizou pelo menos quatro grandes mudanças na Previdência, com elevação das idades mínimas de aposentadoria – primeiro para 65 anos para homens e mulheres e depois para 67 anos – e sucessivos cortes de benefícios, que variaram de 14% a 40%, de quem já estava aposentado. Segundo Tinios, houve casos em que as aposentadorias foram cortadas até 12 vezes. Também foram abolidos o 13.º e o 14.º benefícios, que eram recebidos pelos aposentados todos os anos. 

“O setor público tratou as aposentadorias como um cheque em branco”, afirma. “Tinha gente que recebia pensão por velhice aos 27 anos. Até a década de 1990, havia mulheres que podiam se aposentar depois de 15 anos de trabalho, independentemente da idade.”

Com uma dívida equivalente a 188,7% do Produto Interno Bruto (PIB), que caiu 25% desde o início da crise, uma taxa de desemprego que chegou a quase 30% da população ativa e gastos com Previdência que ainda representam 17,4% do PIB e consomem 31,5% do total de despesas do governo, a Grécia pagou uma fatura amarga pela negligência em lidar com o “rombo” bilionário de seu sistema de Previdência. Só agora, depois que uma longa recessão, que durou oito anos, o País está voltando a crescer. 

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