Grécia pede socorro à UE e ao FMI

País é o primeiro da história da zona euro a recorrer a socorro internacional para sobreviver à crise fiscal e evitar a moratória

Andrei Netto, O Estado de S.Paulo

24 de abril de 2010 | 00h00

O inevitável aconteceu ontem em Atenas. O primeiro-ministro da Grécia, Georges Papandreou, confirmou, em pronunciamento em rede de TV, ter pedido à União Europeia e ao Fundo Monetário Internacional (FMI) a ativação do mecanismo de ajuda conjunta de Bruxelas e de Washington.

Segundo o premiê, um total de ? 45 bilhões devem irrigar os cofres do país a partir de maio, num último recurso para evitar a renegociação da dívida ou a moratória.

Ontem mesmo, uma equipe de técnicos, liderada pelo ministro de Finanças, Georges Papaconstantinou, viajou a Washington para se encontrar com o diretor-gerente do FMI, Dominique Strauss-Kahn. A Grécia deve receber, além dos ? 30 bilhões da UE, outros ? 10 bilhões a ? 15 bilhões do Fundo em 2010, a juros de 5%.

O montante é próximo de todas as dívidas que o país teria de honrar no ano, um total de ? 50 bilhões, dos quais mais da metade já foi refinanciada com a venda de títulos no mercado privado. Além disso, a perspectiva é de que em três anos o programa de socorro chegue a ? 80 bilhões.

Última alternativa. A solução acabou sendo a última alternativa depois que o Escritório Estatístico das Comunidades Europeias (Eurostat) anunciou, na quinta-feira, em Bruxelas, ter revisado para pior os dados relativos ao déficit público grego em 2009, de 12,9 % para 13,6%. Além disso, a agência Moody"s rebaixou a nota dos títulos do país, acentuando a desconfiança dos mercados. O resultado prático foi o salto no custo do financiamento, que para o período de dois anos chegaria a 10%.

"A ativação do mecanismo é uma necessidade nacional e, por essa razão, ordenei ao ministro de Finanças, Georges Papaconstantinou, que faça todas as ações necessárias", anunciou Papandreou em seu pronunciamento.

O premiê disse ainda crer que os parceiros de bloco "farão o necessário" para oferecer um porto seguro ao país e "enviar uma mensagem aos mercados de que a União Europeia não está brincando e que ela protege o euro". "Nós e nossos parceiros pensávamos que a decisão de criar o mecanismo seria suficiente para acalmar os mercados, fazer baixar as taxas e trazer de volta a serenidade necessária. Os mercados não responderam dessa forma, seja porque não acreditavam na vontade da UE, seja porque alguns decidiram continuar a especular."

Até a quinta-feira, líderes políticos se esforçavam para convencer os investidores de que a Grécia não precisaria recorrer aos empréstimos bilaterais e ao FMI. Na Alemanha, o ministro das Finanças, Wolfgang Schäuble, chegou a reconhecer que as negociações para o empréstimo haviam começado em Atenas na quarta-feira, mas dizia duvidar de sua necessidade.

Ação rápida. Apesar da desconfiança dos investidores, a UE mostra-se pronta a socorrer a Grécia. Segundo Schäuble, o Parlamento da Alemanha "já provou que quando necessário é capaz de agir rapidamente". Em Paris, a ministra da Economia, Christine Lagarde, informou que o Palácio do Eliseu enviará um projeto de lei sobre o empréstimo à Assembleia Nacional e ao Senado a partir de 3 ou 4 de maio. "Há um processo engajado, de um lado com medidas sólidas de redução dos déficits de parte da Grécia, e de outro uma unanimidade da parte da zona do euro para participar do financiamento", disse ontem a executiva, em entrevista ao jornal Les Echos.

O governo grego espera contar com o primeiro depósito a partir de 19 de maio. A pressa em socorrer a Grécia também foi demonstrada pela Comissão Europeia. Segundo Amadeu Altafaj, porta-voz da Comissão de Assuntos Econômicos, não haverá burocracia para liberação da verba.

A Grécia precisa honrar ? 8,5 bilhões em títulos até o fim de maio, mesmo depois de já ter tomado emprestado ? 25,5 bilhões em 2010. "Tudo vai acontecer de forma rápida e eficaz", afirmou Altafaj. "Nós não prevemos nenhum obstáculo."

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