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Grécia tem defensores muito longe da extrema-esquerda

O acordo de extensão do plano de ajuda à Grécia anunciado ontem veio após um longo impasse nas negociações. Como pano de fundo das tensas conversas, o temor de que a Grécia abandone a zona do euro, não sem antes dar um grande calote nos seus credores.

Fernando Dantas, O Estado de S.Paulo

21 Fevereiro 2015 | 02h04

É um roteiro que lembra o da Argentina em 2001 e 2002, só que pior: a saída da moeda única é uma ruptura econômica, financeira e institucional ainda maior que o fim da conversibilidade. E o estrago econômico já provocado pela combinação da rigidez cambial com a austeridade forçada é maior no caso grego do que no da Argentina (onde também foi dramático).

Há alguns aspectos tristemente irônicos na queda de braço entre os governantes da Grécia - os jovens nomes em destaque são os do primeiro-ministro, Alex Tsipras, e do ministro das Finanças, Yanis Varoufakis - e da Alemanha, com o severo ministro das Finanças, Wolfgang Schäuble, e a chanceler Angela Merkel.

Tsipras e Varoufakis chegaram ao poder com a vitória em janeiro, nas eleições parlamentares gregas, do Syriza, a coalizão de extrema-esquerda com uma plataforma de se opor frontalmente às medidas de austeridade e a muitas das reformas estruturais impostas de fora para dentro pela chamada troica - a Comissão Europeia, o Banco Central Europeu (BCE) e o Fundo Monetário Internacional (FMI).

A Grécia é sabidamente uma nação que historicamente padeceu de problemas como um setor público inchado e ineficiente, burocracia disfuncional, evasão de impostos, Previdência deficitária - voltando à comparação inicial, nada muito diferente das mazelas típicas semeadas pelo populismo latino-americano em parte expressiva dos países da região.

Nesses pontos, o discurso político doméstico do Syriza também não se diferencia muito do populismo latino-americano clássico, manifestando-se em uma rejeição ao receituário liberal para lidar com os problemas crônicos de ineficiência e instabilidade econômica causados por aquelas características estruturais.

Parte da briga com parceiros da zona do euro como Alemanha, Áustria e Finlândia deve-se justamente à insistência desses países de que a Grécia deve manter o caminho de reformar sua economia com a receita clássica de liberalização, privatizações, mudanças na Previdência, etc.

O problema, porém, é que a outra parte do conflito coloca a Grécia lado a lado com economistas e analistas em geral que provavelmente rechaçam tanto o populismo ao estilo latino-americano quanto o mais austero tecnocrata do Bundesbank, o Banco Central alemão.

Para personalidades como Lawrence Summers, ex-secretário do Tesouro dos Estados Unidos, ou Martin Wolf, o prestigiado colunista econômico do jornal "Financial Times", a Alemanha e seus parceiros na disputa contra a Grécia estão completamente equivocados ao exigir que o país mediterrâneo continue seu massacrante programa de austeridade numa economia que se contraiu em mais de 20% desde 2009.

Eles apontam para as teorias keynesianas que indicam que, em determinadas condições, a austeridade pode ser contraprodutiva, aprofundando o declínio econômico e minando as contas públicas pelo lado da receita. Há uma clara diferença de opiniões em relação a esse tema entre boa parte da comunidade financeira e dos analistas anglo-saxões, de um lado, e o establishment tecnocrático alemão, que parece surdo aos argumentos keynesianos que enfatizam o papel da demanda.

O Syriza, portanto, ao se opor à austeridade, inclusive ao nível mais geral da zona do euro, encontra improváveis aliados em parcela da elite financeira e acadêmica do Reino Unido e dos Estados Unidos que se situa a anos-luz do populismo de extrema-esquerda que também está nos genes do atual governo grego. É mais uma etapa da disputa entre essa estranha aliança e o ultraconservadorismo germânico que foi colocada na mesa de negociações.

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