Wilton Junior/Estadão
Wilton Junior/Estadão

Com greve dos caminhoneiros, São Paulo teve corte de 15% nos ônibus

Rodízio estará novamente suspenso, nesta sexta-feira, já que antes do anúncio do acordo, a Prefeitura previa que 50% da frota poderia ser afetada

Isabela Palhares e Marco Antônio Carvalho, O Estado de S.Paulo

24 Maio 2018 | 18h56

SÃO PAULO - O quarto dia da greve dos caminhoneiros afetou diretamente o transporte público na cidade de São Paulo. Ônibus de linhas municipais e intermunicipais circularam nesta quinta-feira, 24, mais cheias e com maior intervalo. No horário de pico, cerca de 15% da frota prevista não estava circulando, por conta da falta de combustível. Antes do anúncio da suspensão da greve, a Prefeitura previa que 50% da frota poderia ser afetada nesta sexta-feira. 

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Pegar ônibus foi tarefa difícil no início da noite desta quinta-feira, 24. Quem trabalha na região central da capital viu pontos cheios e veículos igualmente lotados, impossibilitando o embarque. Aldeni Oliveira de Sousa, de 39 anos, estava havia mais de 30 minutos esperando por um ônibus na Avenida Rio Branco para ir a Pirituba. “Já passaram quatro ônibus, mas a gente não consegue entrar de tão cheio que estão”, disse. O marceneiro Celso Vidica, de 44 anos, também aguardava por mais de 20 minutos para a seguir até o Terminal Nova Cachoeirinha. “Não sei quanto tempo vou demorar para chegar em casa, os ônibus chegam lotados”, disse.

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Em alguns locais, as pessoas estavam indo a pé até as estações de metrô. A costureira Adriana Mota, de 44 anos, disse ter esperado por 30 minutos por um ônibus no Bom Retiro. “Como não passava nenhum, eu e minhas colegas decidimos vir a pé até a Barra Funda. Andamos por 25 minutos”, contou. A costureira Iraci de Jures, de 41 anos, também fez o trajeto a pé. Segundo ela, o chefe da empresa propôs aos funcionários saírem mais cedo nesta quinta ou chegar mais tarde nesta sexta. “Ele sabe que vai ser difícil chegar. Então, já liberou pra gente não ter de pegar o horário de pico, mas vamos ter de compensar depois.”

No terminal Barra Funda muitas linhas de ônibus estavam com frota reduzida no início da noite e era grande a quantidade de passageiros. A linha 9191-10 do Jardim Elisa Maria-Bom Retiro operava com apenas 50% da frota, que é de 40 carros nesse horário. A linha 9784-Jardim dos Francos só estava operando com 12 dos 20 carros. 

A Prefeitura disse que, pela manhã, as empresas circularam com até 97% da frota programada. À tarde, o número caiu para 85%. A administração municipal disse ter entrado em contato com a Companhia Paulista de Trens Metropolitanos (CPTM) e o Metrô para que, nesses serviços, sejam mantidos 100% das frotas mesmo fora do horário de pico, para compensar a ausência de parte dos ônibus. 

Nesta sexta-feira, o rodízio de veículos está novamente suspenso. “A Secretaria Municipal de Mobilidade e Transportes determinou que a SPTrans e a CET reforcem as equipes de rua para orientar os passageiros e motoristas sobre as mudanças”, informou a Prefeitura.

Aeroportos. O protesto dos caminhoneiros teve reflexos também nos aeroportos. Muitos tiveram de acionar planos de contingência para garantir o abastecimento dos aviões. Mesmo assim, voos tiveram de ser cancelados. A Azul, por exemplo, suspendeu 13 voos que ocorreriam na tarde desta quinta-feira, 24, tendo como partida ou destino os aeroportos de Recife, Fernando de Noronha, Belo Horizonte, Vitória, Natal, Juazeiro do Norte, Campina Grande, Belém, Campinas e Goiânia.

A Gol enviou comunicado aos clientes recomendando que os passageiros verificassem a situação dos voos antes de se deslocarem aos aeroportos. A empresa disse que está aplicando medidas de contingência em toda operação, “mantendo as ações necessárias para minimizar os impactos aos seus clientes”.

A Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) informa em seu site que está acompanhando em tempo real o abastecimento dos aeroportos e os possíveis impactos às operações da paralisação dos caminhoneiros iniciada na segunda-feira, e que causava “contratempos na malha aérea decorrentes da falta de abastecimento de querosene de aviação”.

Filas. As longas filas de carros que se formaram nos postos, nesta quinta-feira, 24, interrompendo o tráfego de grandes avenidas, revelaram o desespero dos paulistanos para encher o tanque do carro antes que o combustível acabasse. “Não imaginava que teria essa fila. Eu me assustei”, disse a advogada Andréia Takamatsu, de 44 anos. De repente, ela percebeu que outro motorista queria passar na sua frente e reagiu. 

A disputa dos consumidores para abastecer primeiro ocorreu porque os estoques de combustíveis já estavam no fim. “O combustível nos postos de gasolina do Estado de São Paulo deve acabar ainda hoje (ontem)”, disse o presidente do Sindicato do Comércio Varejista de Derivados de Petróleo do Estado de São Paulo, José Alberto Paiva Gouveia. Ele explicou que normalmente os postos têm estoque para dois ou três dias e estão sem receber combustível desde terça-feira. 

No posto que Andréia abastecia, perto do meio-dia a gasolina comum tinha acabado. De 8 bombas, 3 estavam fechadas. “O povo está desesperado”, disse o gerente do posto, Antonio Nogueira, em meio a um buzinaço de clientes impacientes.

Já nas feiras livres, o clima era mais tranquilo. “Não estou vendo muito efeito nos preços ainda”, disse o aposentado Luiz Pizzi, de 67 anos. Semanalmente ele gasta R$ 100 na feira. Nesta quinta, foi preparado para desembolsar R$ 150, mas gastou R$ 110 e levou para casa a mesma quantidade de produtos.

O feirante Gonzaga Caetano da Silva, da barraca de frutas, por exemplo, disse que precisaria aumentar os preços, mas optou por repassar só uma parte da alta, com medo de não vender e perder as frutas. “Na semana passada, eu vendi abacaxi a R$ 5. Precisaria hoje cobrar R$8, mas coloquei R$5,99.” Ele acredita que o abastecimento deve piorar nos próximos dias, o que já ocorre nos supermercados, onde faltam verduras, frutas e legumes.  /COM MÁRCIA DE CHIARA E LUCIANA DYNIEWICZ

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