Daniel Teixeira/Estadão
Daniel Teixeira/Estadão

Com distribuição comprometida, preço de alimentos sobe

Batata estava até 400% mais cara no atacado; sem animais para abate, frigoríficos fecharam unidades nesta quarta-feira

Dayanne Sousa, Márcia de Chiara e Renata Batista, O Estado de S.Paulo

23 Maio 2018 | 14h09
Atualizado 23 Maio 2018 | 23h07

O efeito dominó da greve dos caminhoneiros já havia chegado ao abastecimento, nesta quarta-feira, 23, especialmente de produtos hortifrutigranjeiros, no atacado e nos supermercados, provocando alta nos preços desses itens. 

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Na Companhia de Entrepostos e Armazéns Gerais de São Paulo (Ceagesp), houve redução, em média, de 15% a 20% na oferta de hortifrutigranjeiros por causa da greve, segundo o economista da empresa Flávio Godas. O caso mais crítico era o da batata, que vem do Paraná e do sul de Minas.

Em uma semana, o preço do saco de batata subiu mais de 150% no atacado da Ceagesp. Só entre segunda e quarta-feira, a alta foi 35,5%. Luis de Souza, da Catarinense, revenda de batata e cebola, disse que as entradas desses produtos no entreposto caíram 95% nos últimos dias. Com isso, ele só tinha batata para vender até o meio dia de desta quinta. “Sou permissionário há 30 anos e nunca vi nada parecido.”

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Na Central de Abastecimento do Rio de Janeiro (Ceasa), principal polo de distribuição de alimentos do Estado, couve e batata, entre outros produtos, começaram a faltar e os preços dispararam. O saco de 50 quilos de batata, que custava R$ 60, passou a ser negociado a R$ 300, alta de 400%.

A distribuidora Estrela Real, uma das que funcionam na Ceasa do Rio, estava desde segunda sem receber batata, alho, ovos e cebola. Segundo o gerente Antonio Carlos Vieira, é a pior paralisação desde 1994, quando começou a trabalhar lá. 

Além da batata, Godas, da Ceagesp, explicou que os gargalos na entrada de hortifrutigranjeiros já estavam ocorrendo com outros produtos vindos de fora de São Paulo, como mamão e manga da Bahia, melão do Rio Grande do Norte e abacaxi do Tocantins, por exemplo.

Supermercados admitem dificuldade de abastecimento por causa da greve. “Mesmo com o esforço do setor de supermercados para garantir o perfeito abastecimento da população brasileira, identificamos que alguns Estados já começaram a sofrer com o desabastecimento de alimentos e que isso poderá se estender para todo o Brasil nos próximos dias, se algo não for feito”, afirmou em nota a Associação Brasileira de Supermercados.

Indústria. Nesta quarta-feira, aumentou a lista de frigoríficos que paralisaram a produção por falta de insumos, de animais para abate e de caminhões para escoar produtos acabados. De manhã, a BRF parou a produção de quatro unidades de abate de frangos e suínos – a empresa informou que outras nove unidades teriam atividades parcial ou totalmente paralisadas até o fim do dia. 

A Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes e a Associação Brasileira de Proteína Animal informaram que 129 unidades produtivas de associados de bovinos, suínos e aves estavam paradas nesta quarta. Com isso, 25 mil toneladas de carnes deixarão de ser exportadas e o prejuízo é de US$ 60 milhões.

Dificuldades. O pequeno empresário Marcos Nascimento da Silva, dono da distribuidora de ovos Irashai, na zona leste de São Paulo está preocupado com seus clientes, que são padarias, quitandas, mercadinhos e sacolões. “Só tenho 22 caixas de ovos e essa quantidade dá para amanhã (hoje) até meio-dia. Se não receber uma nova carga, na sexta-feira estarei zerado”, disse.

Como faz três vezes por semana, ele ligou nesta quarta para a granja que lhe fornece ovos para encomendar uma carga de 50 caixas, cada uma com 30 dúzias do produto. E foi informado que a mercadoria não será entregue. A granja fica no município de Bastos, no interior do Estado de São Paulo, a 500 quilômetros da capital.

Segundo Silva, a granja informou que, por causa da greve, os caminhões não conseguem chegar à empresa para retirar a mercadoria.

Para contornar o problema de desabastecimento, Silva pretende repor seus estoques, comprando os ovos na Ceasa mais próxima, que fica em Santo André, no ABC paulista.

Entre restaurantes, padarias, mercadinhos e sacolões, a distribuidora de ovos tem cerca de 100 clientes e, segundo o empresário, por enquanto, ele não está pegando novos pedidos, diante das incertezas no abastecimento. Silva também está avisando os clientes do risco de o produto faltar. 

Como a clientela é fiel, isso aumenta ainda a mais a sua responsabilidade de manter o abastecimento em dia, observou. A sorte é que muitos deles trabalham com estoque de segurança.

Preço. A falta de ovos ocorre num momento em que os preços do produto estão em níveis muito baixos. Por causa do embargo da União Europeia às exportações de frango brasileiro por problemas sanitários, caiu a quantidade de ovos destinada à produção de frangos e aumentou a oferta para a venda do produto nas granjas. “Hoje, o preço do ovo está 30% mais baixo do que um ano atrás”, disse Silva.

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