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Greve de caminhoneiros afeta abastecimento no Sul, Sudeste e Centro-Oeste do País

Colheita de soja no Mato Grosso parou por falta de combustível; em Presidente Prudente, São Paulo, estoques caíram 30% e verduras acabaram; supermercados no Paraná só têm estoque para mais cinco dias, diz associação

José Maria Tomazela, O Estado de S. Paulo

26 Fevereiro 2015 | 12h01

Atualizado às 17h30

A colheita de soja no Estado de Mato Grosso, maior produtor brasileiro do grão, está parando por falta de combustível em razão da greve dos caminhoneiros, segundo a Associação dos Produtores de Soja e Milho (Aprosoja). Levantamento divulgado nesta quinta-feira, 26, pela entidade mostra que 20% dos produtores não têm mais diesel para utilizar máquinas nas lavouras e os outros 80% têm combustível para apenas cinco dias em média.

Há risco de perda da produção do principal grão exportado pelo Brasil. O Instituto Mato-grossense de Economia Agropecuária (Imea) ouviu 540 produtores rurais para ter a amostragem. O endurecimento dos bloqueios está levando a produção e os municípios ao caos, segundo a Aprosoja. Ao meio-dia, nove trechos rodoviários estavam bloqueados no Estado, segundo a Polícia Rodoviária Federal.

Levantamento realizado pelo Instituto Mato-grossense de Economia Agropecuária (Imea) feito com 540 produtores rurais revelou que 20% deles não têm mais diesel para utilizar nos maquinários das lavouras e 80% têm o combustível para apenas mais cinco dias, em média. 

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Goiás. A Central de Abastecimento (Ceasa), em Goiânia registrou  a falta de alguns alimentos vindos de outros estados ou do interior, que acabaram barrados nas estradas. Mas o que chama mais a atenção na Ceasa é a alta nos preços. 

A caixa de tomate de 22 quilos, por exemplo, saltou de menos de R$ 30,00, no início da semana, para R$ 90,00, podendo ser encontrada até por R$ 120,00 nesta quinta-feira, 26.

Sem transporte, a estocagem de grãos também já está ameaçada, segundo a Federação da Agricultura e Pecuária (Faeg). A chegada de ração para alimentar aves e suínos igualmente foi comprometida. O Sindiposto, que representa os postos de combustíveis, alerta para o risco de desabastecimento nas cidades goianas. Para agravar, a Federação da Indústria de Goiás (Fieg) informa que já há falta de matéria-prima para indústrias de fármacos, de automóveis e para as mineradoras.

O faturamento das empresas de transporte já sofre queda sensível, como aponta o empresário Rivas Rezende da Costa, da Quick Logística, grande transportadora, em entrevista publicada nesta quinta-feira, 26, no jornal O Popular. Apenas por esta empresa, 4 mil toneladas de produtos, variando de alimentos a têxteis, não chegaram  aos destinos na quarta.

Ele disse que o prejuízo registrado ontem era de 21% sobre o faturamento diário. Caminhões da empresa amargaram até cinco dias presos pelas barreiras em Fortaleza (CE). 

Minas Gerais. Caminhoneiros voltaram a interditar uma rodovia, apesar de uma decisão judicial determinar a liberação das piarA que cortam o Estado, um grupo montou um bloqueio no quilômetro 62 da BR-050, entre Uberlândia e Araguari, no Triângulo Mineiro.

O ato foi organizado no início da manhã desta quinta-feira, pouco antes do meio-dia, os caminhoneiros chegaram a interditar completamente a rodovia, que só voltou a ser liberada para veículos de passeio e ônibus após negociação com a Polícia Rodoviária Federal. Os agentes também notificaram os motoristas sobre a liminar da Justiça Federal e, no meio da tarde, a pista foi totalmente liberada.

São Paulo. A greve dos caminhoneiros afetou o abastecimento de frutas, verduras e legumes em Presidente Prudente, no oeste do Estado de São Paulo. Os estoques tiveram uma queda acentuada e verduras, como a acelga, acabaram. "O volume de entrada de mercadorias teve uma redução de 30% no geral em relação aos dias normais", explicou Anderson Martins Peres, de 38 anos, gerente da Companhia de Entrepostos e Armazéns Gerais de São Paulo (Ceagesp).

A situação pode piorar se não houver reposição nos próximos dias. "Se não repormos os estoques até o fim da semana, produtos podem faltar", avisou o gerente, acrescentando que "a produção regional não supre o entreposto". Cerca de 80% das mercadorias vêm do Sul do País (onde estão a maioria dos bloqueios montados por caminhoneiros), principalmente do Norte do Paraná.

Além de verduras e legumes, há risco de desabastecimento de frutas, como maçã, melancia e pera. Na madrugada desta quinta-feira, 26, chegaram sete caminhões do Sul do País. "Isso é suficiente para repor o estoque por apenas dois dias. Amanhã (sexta-feira) já acaba, pois além de Prudente, a Ceagesp também atende outros municípios da região", completou Peres.

Paraná. A paralisação de caminhoneiros no Paraná, responsável pelo bloqueio de 40 pontos no interior segundo dados das polícias rodoviárias do Estado e Federal, tem provocado não apenas um desabastecimento, mas também a perda de mercadorias.

Segundo dados de entidades ligadas à agricultura, a cadeia produtiva do leite e granjeiros já registra um prejuízo de R$ 10 milhões por dia. Na região de Toledo, 900 mil pintinhos precisaram ser descartados, além de outros 750 mil na região Sudoeste, por causa das paralisações no transporte das aves e de rações. Se a greve continuar as chocadeiras precisarão ser desligadas.

A entrega do leite também foi afetada. O produto tem sido descartado em diversos pontos de bloqueios para famílias carentes. Dados do governo estadual apontam que nas centrais de abastecimento de Foz do Iguaçu e Cascavel a comercialização caiu nesta semana e houve falta de alguns produtos. "Temos recebido cargas isoladas de alguns itens, principalmente os produzidos no Estado, mas não recebemos, por exemplo, cargas de tomate e batata", disse Valdinei Loesi dos Santos, gerente da Ceasa de Foz do Iguaçu. 

O mesmo ocorre na Ceasa de Cascavel, que não recebeu os mesmos produtos. "Os pequenos comércios varejistas acabam sendo os mais afetados com essa diminuição da oferta no atacado", explica Neide Cordeiro, gerente da unidade em Cascavel. 

Segundo a Associação Paranaense de Supermercados (Apras) há estoque nos mercados para mais cinco dias e o risco de desabastecimento é iminente, sendo que em Maringá e em Pato Branco ele tem sido maior.

Quanto ao combustível, o tráfego na Repar, em Araucária, tem mantido o abastecimento de gasolina e álcool na região da capital e metropolitana.

Santa Catarina. O Estado já começa a sofrer com o desabastecimento de alimentos, causado pela greve dos caminhoneiros que entra nesta quinta-feira (26) no seu nono dia de paralisações em rodovias federais e estaduais. A principal região afetada é a Oeste, onde o movimente se concentra no Estado, que já sente falta de produtos hortifrutigranejeiros, carnes suína e de frango e laticínios. Gradualmente o problema começa a migrar para o Litoral, com supermercados começando a restringir a venda destes produtos.

Segundo levantamento feito pela Fecomércio-SC, num cenário de paralisação total os prejuízos à economia do Estado poderiam chegar a R$ 630 milhões por dia. Com os atuais bloqueios, que são pontuais e sem restrições à cargas perecíveis, o impacto negativo seria entre 30% a 40% deste valor.

Um levantamento feito pela Acats (Associação Catarinense de Supermercados) avalia que a maioria dos estabelecimentos têm estoque garantido até o final de semana. Com os atrasos e interrupções na entrega de produtos da agroindústria, alguns mercados da Grande Florianópolis e do Litoral Norte já começam a limitar a quantidade de produtos por pessoa.

Rio Grande do Sul. A manifestação dos caminhoneiros no Rio Grande do Sul está aumentando. Já são 75 pontos de bloqueios, 43 em rodovias federais e 32 em estaduais.

Nesta tarde, a Justiça acionou a Força Nacional de Segurança Pública para liberar o tráfego. Desde cedo, a Polícia Rodoviária Federal tenta um acordo com os motoristas, mas sem sucesso. Nessa manhã, um oficial de Justiça foi até o local notificar os manifestantes. Houve confusão e um motorista foi preso.

A paralisação dos caminhoneiros já afeta o abastecimento da indústria no Rio Grande do Sul. As cadeias produtivas do leite e das carnes foram as primeiras a sentir os efeitos do protesto. Nesta quinta-feira,já há regiões com escassez de combustível, como é o caso de cidades do norte gaúcho.

Criadores de aves e suínos também têm se queixado do risco de falta de alimento para os animais. Já no maior centro de abastecimento do Estado, a Ceasa, em Porto Alegre, o movimento diminuiu bastante, tanto para o abastecimento, quanto para a compra. Porém, ainda não faltam produtos.

Prejuízos. A avicultura e a suinocultura contabilizam fortes prejuízos com a greve. Mais de 60 plantas frigoríficas apresentam redução da produção ou paralisação total. Pequenas e grandes empresas foram prejudicadas. Contratos de exportação começam a ser postergados.

Segundo o presidente-executivo da Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA), Francisco Turra, mesmo quando os bloqueios terminarem, ainda levará semanas até que tudo seja restabelecido. "O ciclo de produção de aves, que é o mais rápido, demora 45 dias. Não há dúvidas que faltará alimentos nas prateleiras", considerou, em comunicado.

(Colaboraram Júlio César Lima, Lucas Azevedo, Marcelo Portela, Marília Assunção, Sandro Vilar e Tomás Petersen, especial para o Estado)

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