Efe/presidência da Argentina
Efe/presidência da Argentina

Greve geral coincide com alta da nota de crédito da Argentina

S&P e FMI elogiam mudanças, mas governo enfrenta fortes pressões contra nova política

Rolf Kuntz, enviado especial, O Estado de S.Paulo

06 de abril de 2017 | 05h00

BUENOS AIRES - A primeira greve geral do governo Macri deve coincidir com a reunião do Fórum Econômico Mundial marcada para Buenos Aires. Voltado para os desafios e perspectivas da América Latina, o encontro foi aberto oficialmente nesta quarta-feira, 5, com uma recepção, mas os debates devem começar nesta quinta-feira, 6, no Hotel Hilton de Puerto Madero.

Falta saber se os participantes alojados em outros locais conseguirão chegar sem muita dificuldade. Apesar das pressões de sindicalistas, da oposição e de uma parte do empresariado, o presidente Maurício Macri pôde festejar algumas boas notícias nesta semana, começando pela melhora da nota de crédito anunciada pela Standard & Poor’s.

A nota de crédito soberano passou de B- para B, com perspectiva positiva para o longo prazo. Só dois latino-americanos, El Salvador e Venezuela, têm avaliação pior que essa. Mesmo com a elevação, a Argentina ainda está seis níveis abaixo do Brasil, também condenado ao grau especulativo. Mas a notícia é especialmente importante para um país afastado quase como um pária, por muito tempo, do mercado financeiro internacional.

A situação começou a mudar quando o presidente Maurício Macri, pouco depois de eleito, procurou um acordo com os chamados holdouts, até então mantidos fora do entendimento entre o governo argentino e os credores. Abutres era o nome atribuído aos holdouts pelo governo anterior.

Além de buscar a reconciliação com o mercado financeiro, o presidente Macri e sua equipe se empenharam na remoção da herança deixada pelos presidentes Néstor e Cristina Kirchner na política econômica. As tarifas da eletricidade foram recompostas, mesmo com o custo de uma inflação corretiva, muito mal vista, como sempre, pelos consumidores.

O Executivo deixou de recorrer ao Banco Central (BC) para financiar suas despesas. Além disso, o BC pôde implantar uma política de metas de inflação. Os números oficiais ficaram mais confiáveis para o mercado e para as instituições internacionais, com o fim da intervenção nos números produzidos pelo Indec, o instituto nacional de estatísticas, equivalente ao IBGE.

Crescimento. Todas essas mudanças foram citadas no relatório da S&P como sinais de melhora da política econômica e das perspectivas da Argentina. As ações do governo, segundo o documento, “estão ajudando a restaurar lentamente a estabilidade macroeconômica”. Pelas projeções da agência, a economia crescerá 3% em média, anualmente, durante três anos. A inflação deve passar de 20% em 2017 para 15% em 2018 e continuará em queda nos dois anos seguintes.

A mudança da política econômica, incluída a restauração de estatísticas livres de manipulação política, facilitou a normalização de relações com o Fundo Monetário Internacional (FMI). A alteração de rumo foi elogiada pelo diretor do Fundo para o Hemisfério Ocidental, o economista mexicano Alejandro Werner, em entrevista ao jornal Cronista Comercial, de Buenos Aires. Werner chamou a atenção, no entanto, para a demora na retomada dos investimentos, quando se inicia um programa de ajuste. A instituição, segundo ele, projeta para a Argentina um crescimento econômico de 2,2% neste ano.

O governo argentino vinha mantendo uma previsão de crescimento de 3,5% em 2017. O BC anunciou recentemente uma projeção de inflação de no máximo 17%. A mediana das últimas projeções do mercado ficou em 21,2%, muito próxima do númer estimado pela S&P. Mas o governo voltou, pelo menos, a falar uma linguagem compatível com aquela usada pelo mercado e pelas instituições internacionais.

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