Greve geral força governo a negociar, mas não inviabiliza reformas, dizem analistas

Greve geral força governo a negociar, mas não inviabiliza reformas, dizem analistas

Para especialistas, categorias que aderiram à paralisação podem discutir compensações nas reformas

Eduardo Laguna e Altamiro Silva Jr., O Estado de S.Paulo

28 de abril de 2017 | 19h23

SÃO PAULO - A greve geral desta sexta-feira, 28, não deve ter força para retirar a viabilidade dos grandes projetos encaminhados pelo presidente Michel Temer ao Congresso, mas cientistas políticos acreditam que a mobilização pressiona ainda mais o governo a negociar termos da reforma da Previdência e do projeto de flexibilização das leis trabalhistas. No mínimo, avaliam que o governo terá que discutir compensações fora dessas matérias a algumas das categorias que paralisaram as atividades.

Apesar da tentativa do discurso governista de minimizar o movimento, a adesão à greve, conforme comentam analistas, não pode ser desprezada e torna mais evidente a necessidade de o governo fazer concessões, principalmente por ainda não ter garantia de que conta com votos suficientes para aprovar a reforma da Previdência, na qual precisará do apoio de três quintos do Congresso.

Há entre especialistas uma leitura de que tanto a reforma trabalhista, encaminhada ao Senado, quanto a Proposta de Emenda Constitucional que muda as regras de aposentadoria - tida como fundamental ao reequilíbrio das contas públicas - saíram "vivas" do dia de greves e protestos. Nas contas da consultoria de análise política Control Risks, a probabilidade de a reforma da Previdência ser aprovada é de 60% a 65%. Mais otimista, a Arko Advice vê em 75% a chance de a matéria passar pela Câmara e depois pelo Senado.

Segundo Cristiano Noronha, sócio e vice-presidente da Arko, a situação seria bem diferente se o País, a exemplo do que aconteceu nas jornadas de junho de 2013, voltasse a viver, "dia após dia", uma onda de manifestações - o que poderia contaminar o apoio a medidas estruturais no Congresso e, como consequência, inviabilizar as reformas.

Apesar disso, o analista acredita que adesão à greve foi forte, podendo pressionar o governo a entregar algumas concessões aos grevistas. Essas concessões podem ser feitas, segundo ele, dentro ou fora das reformas da Previdência ou trabalhista, de forma a garantir um clima melhor à negociação, em especial, das novas regras de aposentadoria.

Para o diretor e analista político da consultoria inglesa Control Risks, Thomaz Favaro, a greve, os protestos e a maior pressão da sociedade vão exigir um trabalho redobrado do governo, em especial na base aliada, onde ainda não há consenso total sobre a Previdência. Um dos riscos, alerta, é que haja adiamentos no cronograma de votação das medidas.

Na avaliação de Favaro, o governo subestimou o poder de mobilização dos sindicatos. Esperava-se maior oposição da CUT e dos sindicatos mais ligados à esquerda, mas não de centrais sindicais mais próximas de partidos da base do governo, como a União Geral dos Trabalhadores (UGT), ligada ao PSD do ministro Gilberto Kassab.

Setores

O cientista político e professor da Fundação Getulio Vargas (FGV) Cláudio Couto avalia que houve uma "confusão cognitiva" nas análises feitas por autoridades. Segundo ele, diferentemente de uma manifestação, não se pode medir a força de uma greve pelo número de pessoas nas ruas, já que seu objetivo é justamente fazer com que as pessoas não saiam de casa.

Para o professor da FGV, a adesão à greve convocada por centrais sindicais foi grande, com potencial de influenciar a votação das reformas, embora seja difícil fazer um prognóstico sobre qual será esse impacto. "A paralisação foi grande, principalmente no transporte público, que causa um efeito em cadeia, e na área de educação, que tem efeito na percepção das famílias", avalia o especialista.

Na mesma linha de análise, o analista político da CAC Consultoria Política, André Pereira César, ressalta que os organizadores do movimento foram bem-sucedidos ao parar alguns setores importantes, como o transporte público em algumas cidades. Além disso, conseguiram provocar imagens fortes na televisão ao fechar terminais e barrar rodovias em São Paulo e Rio. Mesmo assim, ele minimiza os impactos da greve. "Não afeta em nada. A agenda política segue seu rumo", disse ele, destacando que a greve foi restrita a alguns setores, algumas cidades e alguns grupos.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.