Greves perdem força entre franceses

Protestos contra a reforma da previdência atraíram menos pessoas do que o esperado

Andrei Netto CORRESPONDENTE / PARIS, O Estado de S.Paulo

29 de outubro de 2010 | 00h00

As centrais sindicais da França ainda nutriam esperanças de mobilizar multidões e reverter nas ruas a aprovação da reforma da previdência pelo Parlamento. Mas a adesão de trabalhadores e estudantes à sétima jornada de greves, realizada ontem em 270 cidades, indicou que a resistência à lei que elevará a idade mínima de aposentadoria está caindo.

Entre 560 mil, de acordo com o Ministério do Interior, e 2 milhões de franceses, conforme projeção das centrais, protestaram em todo o país. A quantidade de manifestantes é pouco mais da metade do registrado pelas passeatas organizadas pelos sindicalistas há uma semana. A jornada realizada ontem foi convocada na última quinta-feira, antes da votação do projeto de lei no Parlamento.

Mesmo com a aprovação definitiva do texto, na quarta-feira, o grupo intersindical que organizou as seis manifestações anteriores decidiu manter a pressão sobre Nicolas Sarkozy, na esperança de encher as ruas e o obrigar o governo a recuar. O resultado, entretanto, não foi o esperado. Há oito dias, trabalhadores e estudantes somaram entre 1,1 milhão, segundo o Ministério do Interior, e 3 milhões, de acordo com os sindicalistas.

Em Paris e no interior, as greves setoriais também foram menos intensas do que as anteriores. A situação mais precária foi registrada mais uma vez na distribuição de combustíveis, ainda sob efeito das três semanas de fortes greves na indústria petroquímica.

De acordo com o presidente da União Francesa de Indústrias Petroleiras (Ufip), Jean-Louis Schilansky, 20% dos postos de combustíveis ainda enfrentam racionamento ou falta de gasolina ou diesel, porque seis das 12 refinarias do país seguem paralisadas.

Por outro lado, na gestão pública, somente 4% dos funcionários fizeram greve, ante 19% há 15 dias. Na SNCF, a estatal de transportes férreos, 80% dos trens nacionais circularam. Na France Telecom e nos correios, a mobilização não superou 8%.

Das 83 universidades públicas do país, só cinco foram afetadas por bloqueios. Protestando em Paris, Eric Le Grand, estudante da Universidade Paris 1, Sorbonne, reconheceu a perda de força do movimento, mas ainda se mostrou disposto a lutar. "Ainda podemos evitar a promulgação do projeto. Se não evitarmos, a resposta virá em 2012", afirmou, em referência às próximas eleições presidenciais.

A queda da adesão, entretanto, foi um golpe nas pretensões das principais centrais sindicais da França. "Nós sabemos que há um pouco de cansaço, que se soma às férias escolares. Não esperávamos bater recordes hoje", desdenhou Jean-Claude Mailly, secretário-geral da Força Operária (FO). "Mas o movimento mostra que mantivemos a pressão."

O fracasso parcial da jornada deixou claro que as centrais sindicais buscam, agora, uma saída honrosa dos protestos. Ontem, somente a Confederação Geral do Trabalho (CGT) apelou à "continuidade das manifestações". Já a Confederação Francesa Democrática do Trabalho (CFDT) cogita abrir negociações com o governo por políticas de emprego para jovens e pessoas mais velhas, como uma maneira de compensar a aprovação da reforma.

Ainda que os sindicatos acreditem na reversão da lei, o governo já comemora a redução de ? 4 bilhões por ano no déficit da previdência que será possível com a elevação da idade mínima de aposentadoria de 60 para 62 anos. "É algo bom para a nossa economia e para o equilíbrio de nossas finanças, assim como para a perenidade e longevidade da previdência", afirmou a ministra da Economia, Christine Lagarde.

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