Wilton Junior/Estadão
Vigília. Lourival de Andrade engrossou protesto no Rio Wilton Junior/Estadão

Grevistas pressionam Petrobrás por fábrica no PR

Movimento que entra na segunda semana inclui ocupação de sala e acampamento na porta da estatal no Rio

Fernanda Nunes, O Estado de S.Paulo

10 de fevereiro de 2020 | 04h00

RIO - Em greve desde o início do mês, petroleiros se impõem provas de resistência física na tentativa de sensibilizar a diretoria da Petrobrás às suas reivindicações. Um grupo se mantém acorrentado aos portões da Auracária Nitrogenados (Ansa), no Paraná. Outro está acampado em vigília na frente da sede da empresa, no centro do Rio. E cinco sindicalistas ocupam uma sala do prédio, no mesmo andar do setor de recursos humanos, à espera de nova rodada de negociação.

No centro das mobilizações está o fechamento da Ansa, anunciado pela Petrobrás há quase um mês. Com o encerramento da fábrica de fertilizantes nitrogenados, quase mil pessoas, entre contratados diretos e indiretos, vão ficar desempregadas, segundo cálculo dos sindicatos e do Ministério Público do Trabalho do Paraná (MPT-PR). A direção da empresa se refere em comunicados a 396 empregados diretos atingidos pela decisão de dar fim à Ansa.

“Muda tudo. Você fica sem chão, sem perspectiva nenhuma. São mil famílias que estão sem perspectiva nenhuma. De uma hora para outra, perdemos tudo”, afirmou Lourival de Andrade, de 45 anos de idade e 14 anos de Ansa.

A diretoria da estatal argumenta ser impossível manter a subsidiária funcionando após sucessivos prejuízos financeiros e diz também não ser viável, do ponto de vista jurídico, incorporar os funcionários ao seu quadro, porque a subsidiária tem autonomia estatutária. Os sindicatos reclamam por não terem sido avisados previamente da demissão em massa e pedem uma solução alternativa ao desligamento dos trabalhadores.

Acampamento

“Não tem emprego no mesmo ramo”, afirmou Edilson dos Santos, de 46 anos, uma década como operador na fábrica paranaense. Ele faz parte do grupo de 19 demitidos da Ansa que viajou por 12 horas do Paraná ao Rio para se instalar na calçada em frente à sede da Petrobrás.

Assim como seus colegas de acampamento, Santos tem passado dias e noites, desde o início do protesto, debaixo de uma barraca de lona, sentado numa cadeira de praia. Veio acompanhado da mulher, Cândida Pereira, que dorme num hotel. Já ele, da mesma forma que os demais demitidos do seu grupo de manifestantes, deixa o acampamento unicamente para comer e tomar banho. “É uma experiência nada agradável. É como se fosse uma humilhação”, descreveu Cândida.

Em função da greve, a Petrobrás informou na sexta-feira que iniciou a contratação imediata de pessoas e serviços, de forma emergencial, para garantir a continuidade operacional em suas unidades durante a paralisação dos petroleiros. Segundo balanço da Federação Única dos Petroleiros (FUP), 18 mil petroleiros, de 13 Estados, já teriam aderido à greve.

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Estratégia começou a ser definida antes de protesto

Diretores da FUP dão orientação sobre rumos de paralisação de dentro de sala ocupada na sede da Petrobrás

Fernanda Nunes, O Estado de S.Paulo

10 de fevereiro de 2020 | 04h00

A estratégia da greve foi definida dias antes da paralisação, em reuniões no centro do Rio, entre lideranças da Federação Única dos Petroleiros (FUP). A ocupação de uma sala do edifício-sede foi a primeira decisão. Cinco diretores entraram com o objetivo declarado de participar de uma reunião com a equipe de recursos humanos da empresa. Eles já tinham em mente que, de lá, não sairiam.

Quando a greve estourou, no último dia 1º, os cinco diretores já estavam no prédio, de onde comandam o movimento via redes sociais. Os dias são consumidos em discussões virtuais com representantes dos sindicatos nos Estados e em entrevistas a sites e canais do Youtube.

O primeiro fim de semana foi sem ar-condicionado e energia elétrica e com alimentação limitada. “É uma ação característica nossa, a vigília e a ocupação”, afirmou Deyvid Bacelar, um dos diretores da Federação Única dos Petroleiros que se mantêm na sede da companhia.

Um outro grupo se acorrentou aos portões da fábrica que será fechada em Araucária, no Paraná. “No último dia 14, recebemos a notícia de que todos seriam demitidos. O sindicato, então, traçou várias estratégias, com alguns atos. Uma delas foi a gente ficar acorrentado na frente da empresa (em Araucária). No meio disso, veio o convite para vir para o Rio fazer mais esse ato”, contou Patric Fernando de Melo, de 40 anos, 15 deles na Petrobrás.

Em despacho, o ministro Ives Gandra Martins Filho, do Tribunal Superior do Trabalho (TST), considerou que a greve tem “conotações políticas” e determinou o bloqueio das contas dos sindicatos envolvidos nas paralisações e a suspensão das mensalidades dos empregados da estatal. Ele também estabeleceu a manutenção de efetivo mínimo de 90% dos funcionários da Petrobrás nas unidades – o que, segundo a empresa, não estaria acontecendo.

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