Fabrizio Bensch/Reuters
Fabrizio Bensch/Reuters

Grudado na tela em tempos de coronavírus

Audiência aumentou nas últimas semanas, mas ganho pode ter curta duração com a recessão e desemprego

Edmund Lee e John Koblin, The New York Times

23 de março de 2020 | 05h00

Ocorreu no mundo todo e agora também nos Estados Unidos: quanto mais as pessoas ficam em casa para evitar a epidemia de coronavírus, mais ficam grudadas nas suas telas. Na Coreia do Sul, com o número de casos disparando, a audiência de TV aumentou 17%, de acordo com a Nielsen. Na Itália, no mês passado, a audiência televisiva cresceu 6,5% e na Lombardia, região mais afetada pelo vírus, o aumento foi de 12%.

A mesma tendência é observada nos Estados Unidos. Na área de Seattle, o uso total da TV aumentou 22% em 11 de março, em comparação com a semana anterior. Em Nova York, no mesmo dia, com mais pessoas começando a trabalhar a partir de casa, o uso total da tela subiu 8% (o uso total, segundo a Nielsen, inclui TV, programas por encomenda, streaming e jogos).

Mas para o setor de mídia, o benefício propiciado por essa audiência maior pode ser de curta duração à medida que a epidemia ameaça abalar sua própria estrutura. Com as empresas reduzindo o número de funcionários e analistas alertando para uma recessão global, um número importante de telespectadores poderá decidir nos próximos meses a abandonar as assinaturas de TV a cabo ou de plataformas de streaming.

O tamanho do ganho em termos de audiência “será substituído rapidamente pela necessidade de reduzir as faturas mensais, quando as pessoas se defrontarem com os impactos financeiros de uma recessão”, disse Craig Moffett, cofundador da empresa de pesquisa MoffettNathanson.

A Walt Disney Co., a ViacomCBS e outras gigantes da mídia enfrentam um momento crucial, uma vez que o delicado ecossistema que protege suas atividades – conteúdo ao vivo ligado a assinaturas caras – corrói ainda mais rápido. E isto começou com o repentino desaparecimento, na semana passada, de um ativo seguro: os programas esportivos.

A cobertura ao vivo de eventos esportivos gera bilhões de dólares de publicidade e alimenta as assinaturas de TV – combinação que dá grandes lucros. Agora o setor vem enfrentando adiamentos e cancelamentos de todos os eventos de esporte, incluindo o torneio de Masters de golfe, transmitido pela CBS, como também a temporada e pós-temporada da NBA, que atraem um público consistente para os canais AT&T e ESPN da Disney e as redes ABC.

A cobertura esportiva se torna crucial num momento em que o apetite do público por dramas e novelas diminuiu. As anunciantes gastam mais de US$ 12 bilhões nos jogos e torneios transmitidos ao vivo durante esta parte do ano, segundo a Kantar Media. E com LeBron James no banco por tempo indefinido, a ESPN deve perder US$ 481 milhões em receitas de propaganda; no caso dos canais da Turner o prejuízo será de US$ 210 milhões, segundo a MoffettNathanson.

Em comunicado, ESPN e a WarnerMedia, da AT&T, disseram estar confiantes de que vencerão o desafio. No momento, a ESPN tem preenchido os buracos na programação com o SportsCenter quase que ininterruptamente.

Os executivos da NBCUniversal estão preocupados com as Olimpíadas de Tóquio. Mais de US$ 1,25 bilhão em contratos de publicidade estão em risco para a rede e a Comcast, sua controladora. Num período em que milhões de pessoas isoladas provavelmente estarão ligadas na TV, o complexo industrial de mídia está prestes a parar e não se sabe quando começará a funcionar de novo.

A Warner Bros. já suspendeu a produção de mais de 70 séries de TV. A Netflix também suspendeu a produção de todos as séries e filmes nos Estados Unidos e Canadá por pelo menos duas semanas.

Parte dos talk-shows noturnos, que são fonte de lucro para as emissoras, não irá ao ar pelo menos até 30 de março. Saturday Night Live anunciou que a produção ficará suspensa por tempo indeterminado, com seis episódios a serem apresentados na atual temporada.

Outros programas gravados ao vivo com público não serão afetados. Os atuais episódios da temporada de Ellen’s Game of Games, da NBC, e The Masked Singer, da Fox, já estão prontos, como também as próximas seis semanas de The Voice, da NBC. Mas há uma interrogação quanto aos episódios finais de The Voice que normalmente eram ao vivo com público no estúdio.

Netflix, Hulu, Amazon, Prime Video e Disney Plus provavelmente observarão “forte aumento” da audiência, agora que a TV tradicional perdeu parte do conteúdo “mais valioso”, disse Matthew Ball, executivo de mídia e ex-diretor de estratégia na Amazon Studios. Mas as companhias de streaming podem se ver numa guerra de preços. /TRADUÇÃO TEREZINHA MARTINO

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