Valter Campanato/Agência Brasil
Havan desistiu de IPO em 2020, mas deve retornar no ano que vem Valter Campanato/Agência Brasil

Grupo Big, Havan, Kalunga... Veja empresas que estão na fila do IPO no próximo ano

'Estadão' mostra perfil de dez companhias que se preparam para estrear no mercado de ações no ano que vem

Fernanda Guimarães, O Estado de S.Paulo

28 de dezembro de 2020 | 05h00

A Bolsa brasileira tem sido espaço para captações de empresas de diversos tamanhos e setores, uma das novidades de um mercado de capitais aquecido, com o apetite dos investidores em buscar ações para compor suas carteiras, em um ambiente de juros baixos. Na fila para abertura de capital há quase 50 companhias já com documentação entregue à Comissão de Valores Mobiliários (CVM), o regulador de capitais do País.

O corresponsável pelo banco de investimento do Bank of America, Hans Lin, aponta que, assim como neste ano, a carteira de ofertas para 2021 nos bancos é bastante diversificada, com destaque para os setores de commodities, consumo, varejo, tecnologia e infraestrutura. Na próxima ‘leva’ de empresas que caminha rumo à abertura de capital há gigantes, caso da CSN Mineração, e empresas menores focadas em e-commerce e tecnologia, como a Westwing. A leitura é que a bolsa está mais democrática, algo possível com o juro baixo.

As candidatas para abertura de capital planejam usar os recursos que serão captados para investir no negócio e expandir suas operações. Grande parte delas também quer acelerar os investimentos em tecnologia, ponto que virou mandatório com a pandemia. Outro uso previsto para o dinheiro é redução de dívidas. Abaixo, alguns exemplos das candidatas a IPO em 2021.

Veja, a seguir, perfis de dez empresas que pretendem estrear na B3 em 2021:

CSN Mineração

A abertura de capital da CSN Mineração promete movimentar mais de R$ 8 bilhões, sendo que R$ 7 bilhões devem ir para o caixa da CSN, pela venda de uma fatia minoritária na unidade – dinheiro prometido para ajudar a reduzir o endividamento da siderúrgica.

Essa é uma velha cobrança do mercado, diante da dívida líquida da companhia, que está na casa dos R$ 30 bilhões. A empresa, que teve de janeiro a setembro deste ano um faturamento R$ 8,9 bilhões, terá como presidente Enéas Diniz, que comandava a área dentro da CSN.

BV (antigo Banco Votorantim)

Os sócios Banco do Brasil e família Ermírio de Moraes já bateram o martelo. Havendo condições de mercado, eles levarão o BV, ex-Votorantim, para a Bolsa em 2021, uma oferta que deve movimentar R$ 5 bilhões. 

A operação servirá para trazer caixa à instituição financeira e para a venda de ações do BB e dos Ermírio de Moraes.  O BV está repaginado e tem se debruçado para se posicionar na nova onda digital que tem impulsionado e aumentado a concorrência no setor bancário.

São Salvador Alimentos

Gigante do frango de Goiás, o grupo industrial São Salvador Alimentos (SSA), dono da marca SuperFrango, quer fazer uma oferta de R$ 1,5 bilhão. A empresa abate 350 mil aves por dia e abastece mercados de oito estados brasileiros e Distrito Federal, além de exportar para cerca de 70 países. A receita líquida no ano passado ficou em R$ 1,6 bilhão. 

A empresa quer captar dinheiro para seguir com sua rápida trajetória de expansão. Nesse movimento, tem sido feitas aquisições no sentido de diversificar o portfólio.

Grupo Big

Ex-Walmart do Brasil, o nome mudou após a operação passar para as mãos do fundo Advent, no processo de reestruturação da empresa. O faturamento do Grupo Big, que também é dono da marca Sams Club, é alto: a receita líquida no acumulado do ano até setembro deste ano chegou a R$ 15,7 bilhões. Os recursos também irrigarão o caixa da empresa. 

Na estratégia da companhia, estão a abertura de novas lojas de atacado e postos de combustível e a conversão de lojas de varejo em de atacado.

Kalunga

Rede de lojas de papelaria com um faturamento anual de cerca de R$ 2 bilhões, a Kalunga é a líder em vendas com 13,1% de participação do mercado nacional no segmento de suprimentos para escritório e material escolar. 

Em 2020, a Kalunga fechou a compra da Spiral, indústria gráfica focada na produção e importação de cadernos e de toda a linha de papelaria para abastecimento exclusivo das lojas Kalunga. Dos recursos que irão para a empresa com o IPO, boa parte deve ir para a abertura de novas lojas. Hoje são 222.

Grupo Cortel

Fundado no Rio Grande do Sul em 1963, o Grupo Cortel trabalha com cremação (incluindo a de animais de estimação), funerais e serviços auxiliares e faturou quase R$ 84 milhões no ano passado.

A empresa será a primeira desse setor a estrear na B3. O IPO deverá girar R$ 400 milhões, segundo uma fonte. A companhia possui dez cemitérios, todos próximos a centros urbanos, cinco crematórios, um crematório de animais, uma casa funerária, mais de 40 salas de velórios, oito capelas cerimoniais e duas capelas históricas. 

Westwing

De olho no interesse do investidor nas empresas com pegada digital, o e-commerce de produtos de decoração e artigos para casa Westwing quer fazer um IPO de cerca de R$ 500 milhões, comenta uma fonte. Com mais pessoas em casa em função da quarentena, que foi mandatória para conter a disseminação da covid-19, a receita líquida foi de quase R$ 170 milhões, com crescimento da ordem de 80% nos nove primeiros meses do ano. 

Na empresa, o engajamento da clientela é palavra de ordem. São oito milhões de usuários cadastrados. Em setembro de 2020 eram mais de 1 milhão de seguidores no perfil do Instagram. A Westwing Brasil foi fundada em 2011, como subsidiária de uma multinacional alemã de mesmo nome.

Tok & Stok

A rede de lojas de móveis e decoração Tok & Stok nasceu de uma pequena loja na Avenida São Gabriel em São Paulo, e possui atualmente 59 lojas em quatro formatos diferentes. O fundo norte-americano Carlyle, que controla hoje a empresa, fez seu investimento em 2012. Ou seja: esse é um ativo bastante antigo na carteira da gestora, que tem atuação forte no Brasil. 

Com um faturamento de R$ 1,2 bilhão no ano passado, atualmente a empresa já tem cerca de 24% de seu faturamento vindo dos canais digitais, número que pode crescer. Um dos objetivos com o dinheiro que entrará no caixa do IPO será investir na sua transformação digital e em tecnologia.

Havan

Varejista de Santa Catarina, a Havan é do polêmico empresário Luciano Hang, que ficou conhecido nacionalmente pelo seu apoio irrestrito ao presidente Jair Bolsonaro, desde a época da campanha. 

A empresa suspendeu a operação que estava planejada para ocorrer em 2020, depois de investidores avaliarem a companhia abaixo de R$ 70 bilhões, valor colocado como “mínimo” por Hang para seguir com a operação. A varejista possui 147 lojas físicas, muitas com a “marca” de ter na fachada uma réplica da Estátua da Liberdade. Em interação com investidores, Hang sempre estava trajado com seu uniforme verde e amarelo. Por trás da oferta está um plano agressivo de expansão. 

Mobly

Loja online de móveis fundada em 2011, a companhia Mobly possui cerca de 925 mil usuários ativos. E vem crescendo na pandemia. No mundo físico possui duas megastores. Contando com elas, possui, no total, 11 lojas físicas. Nos nove primeiros meses do ano, a receita líquida da empresa cresceu 50% e atingiu R$ 420,8 milhões. As pessoas em casa, muitas de home office, buscaram pequenas mudanças em suas casas. A empresa tenta evidenciar seu perfil “tech”. 

Em sua operação, a Mobly utiliza, por exemplo, inteligência artificial que considera o comportamento do cliente, para mostrar os produtos mais relevantes com base em comportamentos semelhantes de outras pessoas que fizeram compras.

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Após recorde neste ano, ofertas de ações podem registrar novo marco em 2021

Impulsionadas pelos juros na mínima histórica, aberturas de capital e emissões podem chegar a R$ 140 bilhões no próximo ano

Fernanda Guimarães, O Estado de S.Paulo

28 de dezembro de 2020 | 05h00

O ano que termina entrou para a história do mercado de capitais brasileiro. Apesar da pandemia, as ofertas de ações – que reúnem as empresas que estrearam na Bolsa e novas emissões (follow-on) – bateram recorde: somaram R$117 bilhões, com 28 aberturas de capital (IPO, na sigla em inglês). Mas, para 2021, os bancos de investimento esperam uma safra ainda maior, com as ofertas de R$ 140 bilhões e, ao menos, 40 IPOs.

As operações têm sido impulsionadas pelos juros na mínima histórica, que têm levado os investidores a buscar mais risco, atrás de rentabilidade. Com isso, muitos trocaram a renda fixa pela variável (como ações), em um movimento reforçado pelo maior acesso às plataformas digitais.

Diante desse cenário, na outra ponta, mais empresas se viram impelidas a abrir o capital para ter acesso a essa forma de financiamento. E as que já estão listadas aproveitaram a liquidez do mercado para reforçar o caixa com novas ofertas.

Na fila de IPOs, o perfil das candidatas é diverso. Vai de grandes companhias, dispostas a levantar as chamadas ofertas “jumbo”, até empresas menores, algumas delas vindas de setores que ainda não estão na Bolsa.

Dentre mais aguardadas, está a abertura de capital da subsidiária de mineração da CSN, programada para movimentar R$ 8 bilhões.O Grupo Big e o banco BV também fazem parte da lista. Nas operações de menor porte há marcas como Westwing (e-commerce de decoração), Mobly (de móveis) e o Grupo Cortel, do setor funerário.

O chefe global do banco de investimento do Itaú BBA, Roderick Greenless, comenta que a forte carteira de ofertas para o início do ano reflete o cenário de mercado de 2020. “As empresas ganharam confiança para fazer o protocolo e ficou uma demanda reprimida”, diz o executivo. A estimativa do Itaú BBA é de 50 a 70 ofertas em 2021, que podem movimentar, juntas, de R$ 110 bilhões a R$ 140 bilhões.

O diretor executivo do Bradesco BBI, Felipe Thut, reforça a percepção de um ano forte de operações. “Temos uma carteira hoje do tamanho do que foi todo o mercado neste ano.”

Para Fábio Nazari, chefe do mercado de capitais de renda variável do BTG Pactual, apesar de muito movimentado, 2021 deve ser marcado por um “menor senso de urgência de captação por parte das companhias”. Neste ano, com receio dos efeitos da pandemia, muitas empresas listadas lançaram ofertas para fortalecer o caixa.

“Em 2021, talvez as ofertas subsequentes não tenham a mesma relevância”, diz. Por outro lado, o número de IPOs tende a crescer.

Neste ano, a B3 bateu recorde no volume de emissões: R$ 117 bilhões, ante R$ 90 bilhões em 2019. O total de estreantes, 28, não é visto desde 2007, último boom de ofertas de ações. 

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‘Pessoa física na Bolsa foi surpresa na crise’, diz presidente da B3

Número de investidores dobrou em 2020: já são 3,2 milhões de brasileiros que compram ações em busca de maior retorno

Entrevista com

Gilson Finkelsztain, presidente da B3

Fernanda Guimarães, O Estado de S.Paulo

28 de dezembro de 2020 | 05h00

O juro baixo trouxe uma revolução para o mercado de capitais brasileiro em 2020, a despeito do baque econômico que veio com a pandemia. Um dos efeitos mais evidentes foi o crescimento do número de investidores pessoa física, que dobrou. Hoje são 3,2 milhões, que possuem R$ 424 bilhões investidos em ações. A tendência segue de crescimento.

Para o presidente da B3, Gilson Finkelsztain, essa foi a grande surpresa positiva em meio à pandemia. “As pessoas físicas viram na queda da Bolsa (no início da pandemia) uma oportunidade de entrada, e não de retirada de seus investimentos”, afirma.

Leia, a seguir, os principais trechos da entrevista:

Apesar da pandemia, de um ano de volatilidade e economia fragilizada, a bolsa brasileira bateu recorde de ofertas. O que explica?

Todo mundo esperava um ano positivo no início do ano, mas ninguém esperava essa trajetória. Eu credito esse movimento, sem dúvida, ao juro baixo. O atual patamar da Selic, definitivamente, faz as pessoas repensarem seus investimentos. Os brasileiros estavam muito acostumados ao juro de 1% ao mês, algo que era totalmente fora do normal e alijado da realidade do mundo. Esse foi o grande catalisador. Essa agora é uma tendência sem volta.

Algum outro fator?

Fora isso, tivemos o tema tecnologia, que está facilitando o investimento. Finalmente o segmento de distribuição está tomando uma certa forma. Está ficando claro que vai haver os vitoriosos desse cenário de consolidação do sistema de distribuição independente, algo capitaneado pela XP, principalmente, mas com o BTG também ganhando corpo. Esse movimento fez com que os grandes bancos também revisassem a sua forma de trabalhar. E ainda tem uma nova geração que está estudando mais investimento. Mas o que tirou o mercado da inércia foram os juros e o resto ajudou. Essa agora é uma tendência sem volta.

O número de pessoas físicas na Bolsa cresceu em todos os meses, apesar da crise. Esse comportamento era esperado?

Acho que talvez essa tenha sido a maior surpresa positiva nesse período. Estamos no início do processo de diversificação e de educação financeira, e acho que isso também ajudou no comportamento das pessoas físicas, que viram na queda da Bolsa uma oportunidade de entrada, e não de retirada de seus investimentos (após a forte queda do preço das ações no início da pandemia). As pessoas físicas colocaram mais de R$ 80 bilhões diretamente em ações. O volume e a velocidade dos investimentos foram a maior surpresa no meio da crise.

A Bolsa está se tornando mais democrática para empresas menores conseguirem fazer suas captações?

Definitivamente sim. Durante muito tempo se questionou sobre o porquê de as empresas médias não abrirem capital. Mas a verdade é uma só: sempre houve bons casos e boas empresas. Oferta sempre teve, mas não se tinha demanda. Não tinha demanda porque os fundos de ações não recebiam recursos e as pessoas físicas não compravam ações. O problema para as empresas médias abrirem capital no Brasil era a falta de demanda por conta de juro alto. O que vimos nesse ano foi empresas fazendo IPO de R$ 200 milhões a R$ 12 bilhões. Isso veio para quebrar paradigmas. Fora isso, também tivemos maior diversidade regional das empresas que abriram capital.

E qual é o principal risco para interromper esse crescimento do mercado?

A normalização dos juros deve ser ao redor de inflação mais 1 ponto, de 4% a 5%. Se for esse o patamar, com retomada de crescimento, continua sendo muito positivo e não vejo motivo para isso frear o desenvolvimento do mercado de capitais no ano que vem. O mercado se preocupa não é nem se teremos uma pauta arrasadora de reformas, mas se será preservada a responsabilidade fiscal, teto de gastos e equilíbrio fiscal. Na minha visão, se tiver uma combinação de equilíbrio fiscal com uma pequena agenda de reformas, que preserve teto de gastos e, principalmente, focada em concessões e privatizações, já será o suficiente para termos um ano muito bom. O maior risco é uma agenda que não garanta a preservação de inflação e juros baixos.

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Capital externo deve retornar para mercados emergentes em 2021

Busca por opções de investimento mais arriscadas deve elevar fluxos para o País de US$ 11 bilhões, neste ano, para US$ 53 bi, aponta IIF

Altamiro Silva Júnior, O Estado de S.Paulo

28 de dezembro de 2020 | 05h00

Os mercados emergentes, incluindo o Brasil, voltaram com força ao radar dos investidores internacionais desde novembro. A opinião é de estrategistas de investimentos de bancos como JP Morgan, Bank of America e Morgan Stanley, e gestoras, como a BlackRock. O Brasil já tem se beneficiado do ambiente de apetite por ativos de risco, com fluxos recorde para a Bolsa e também para renda fixa.

Especialistas ouvidos pelo Estadão/Broadcast destacam, porém, que, em um segundo momento, vai aumentar a diferenciação de cada mercado e dois pontos vão ditar a intensidade dos aportes no País: o ajuste fiscal e o andamento das reformas estruturais, como a tributária e as privatizações.

O Instituto Internacional de Finanças (IIF), formado pelos 500 maiores bancos do mundo, com sede em Washington, projeta fluxos líquidos totais de não residentes ao Brasil de US$ 53 bilhões em 2021, uma recuperação em relação aos US$ 11,3 bilhões esperados para 2020 – considerados os investimentos externos diretos e em portfólio (bolsa e renda fixa).

Os aportes para o mercado financeiro ainda devem seguir negativos, em US$ 1,5 bilhão no próximo ano, mas ainda assim é um avanço considerado o resultado estimado para este ano, quando houve saída de US$ 23,8 bilhões.

O economista do IIF Jonathan Fortun prevê que os “fluxos robustos” vão seguir fortes em direção aos emergentes, principalmente à Ásia, região que se recupera mais rápido dos efeitos da pandemia do covid-19. Em meio a uma queda na percepção de risco global, os aportes nos mercados de renda fixa e ações atingiram no quarto trimestre o maior nível desde 2013. Só em novembro, somaram US$ 76 bilhões, nível mensal recorde.

Onda favorável para os emergentes

Para o presidente da corretora BGC Liquidez, Erminio Lucci, em um primeiro momento, todos os emergentes se beneficiam da onda de busca por risco. Como a América Latina estava muito descontada em relação a outras regiões – ou seja, com preços atrativos –, acabou recebendo grandes aportes.

No entanto, com os emergentes se recuperando da pandemia em 2021, a expectativa é que o interesse dos investidores continue alto, mas em um segundo momento, passada a euforia inicial, eles devem começar a diferenciar mais os mercados, ressalta Lucci. 

A forma como o Brasil vai encarar o desafio fiscal e o andamento de reformas, como a tributária, e as privatizações vai determinar a intensidade dos fluxos, destaca ele, que ainda vê preços atrativos na região para os estrangeiros.

Mesmo com o rali observado na reta final de 2020, os ativos da América Latina ainda oferecem prêmios interessantes comparados ao mercado internacional, avalia o chefe de soberanos e mercados emergentes da BlackRock, Amer Bisat. Desde novembro, os investidores vêm fazendo uma certa vista grossa para problemas específicos de cada país, animados pela euforia em torno dos resultados positivos das vacinas, da definição da eleição americana e da liquidez alta no mundo.

No entanto, a tendência é que passem a cobrar em seguida pelos desafios de curto prazo de cada mercado. “No curto prazo, as coisas estão bem, as rentabilidades são atrativas, mas há desafios que vão voltar”, disse.

“O fluxo está muito dependente da solução fiscal que vai ser costurada para o Brasil”, afirma o economista-chefe no País do Citi, Leonardo Porto. O ponto de inflexão, disse ele, é a questão fiscal, se o teto de gasto será ou não respeitado em 2021, em qual magnitude, e se isso vai se estender para os próximos anos, além de como a despesa maior será financiada. 

Na avaliação de Porto, o afrouxamento do teto só ocorre em 2021. Ele espera recuperação do investimento externo direto, que pode somar US$ 56 bilhões no ano que vem, ante US$ 39 bilhões previstos para este ano.

Posição do Brasil é vulnerável

O Brasil aparece entre os três emergentes mais vulneráveis em 2021, junto com Turquia e África do Sul, segundo ranking elaborado pelo Bank of America, que avalia indicadores macroeconômicos e financeiros. A posição ruim do Brasil é culpa do elevado endividamento, segundo relatório do banco americano.

Chamando atenção para a vulnerabilidade brasileira, o canadense TD Bank afirma estar otimista com os emergentes no geral, mas vê oportunidade para diferenciação em 2021 e destaca que o Brasil é especialmente problemático, por conta da situação fiscal muito deteriorada.

“Para vir um fluxo específico para o Brasil é preciso resolver a questão fiscal”, destaca o estrategista em moedas e crédito globais da Ohmresearch Independent Insights, Daniel Miraglia, ressaltando que desde novembro o País está recebendo dinheiro de curto prazo que está indo para todos os emergentes, sem diferenciar mercados.

“A gente vem de um processo de pandemia em que o mercado entendeu a necessidade de aumento de gastos, mas agora chegou o momento que o mercado quer ver se governo tem mesmo a responsabilidade fiscal desejada”, afirma o especialista. 

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Para analistas, cotação do dólar em 2021 dependerá de medidas fiscais

Nas últimas semanas, real ganhou força ante a moeda americana, mas analistas seguem atentos a fatores políticos

Altamiro Silva Júnior e Silvana Rocha, O Estado de S.Paulo

28 de dezembro de 2020 | 05h00

O real teve forte recuperação nas últimas semanas, saindo da casa dos R$ 5,60 e chegando perto de R$ 5. Bancos, consultorias internacionais e corretoras locais até veem a moeda americana furando os R$ 5 pontualmente em 2021. Mas, para permanecer neste nível de forma sustentada, será preciso que o governo de Jair Bolsonaro avance com o ajuste fiscal – o que analistas veem como uma dificuldade para o ano que vem.

Bancos como JPMorgan, Citibank, Commerzbank, Morgan Stanley e Bank of America, além de consultorias como a Capital Economics e corretoras, como a Commcor e NGO, veem o dólar acima de R$ 5 nos próximos meses. Mas, com chance do fluxo para emergentes seguir forte, em meio à liquidez sem precedentes no mercado financeiro internacional, o real pode ter apreciação pontual no início de 2021. Cálculos de bancos como o Citibank e da gestora Verde Asset Management indicam que o dólar possa estar 20% acima do preço justo no Brasil.

“Nossa visão é de patamar de câmbio mais depreciado do que o atual”, avalia o economista-chefe no Brasil do banco americano Citi, Leonardo Porto. Para ele, o ruído político deve seguir alto, na medida em que crescem os casos de coronavírus no País. Ele projeta o dólar a R$ 5,43 no fim de 2021, ano em que o governo deve superar o teto de gastos em ao menos em R$ 75 bilhões, prevê o banco.

Se o início da vacinação no Brasil ocorrer no primeiro trimestre de 2021, será fator de comemoração nos mercados. Se ficar para depois, poderá prejudicar a recuperação da arrecadação e da economia do País, avalia o gerente de derivativos financeiros da corretora Commcor, Cleber Alessie Machado Neto.

Para ele, o começo do próximo ano tende a ser favorável a ativos de risco por causa da vacinação contra a Covid-19 em andamento em vários países, estímulos fiscais abundantes e juros baixos no mundo. Mas, para o Brasil “surfar” na onda externa positiva, será preciso que o governo consiga aprovar as reformas administrativa e tributária no primeiro semestre e cumprir o teto de gastos.

Cotação justa?

O sócio e gestor da Verde, Luis Stuhlberger, calcula que o dólar mais justo seria na casa dos R$ 4,20, mas, com a situação fiscal, a moeda opera bem acima desse patamar. Se o governo furar o teto em 2021, o nível do dólar pode subir ainda mais “10% a 15%”, disse ele, em evento recente pela internet. Para Stuhlberger, dada a situação fiscal muito frágil do Brasil, furar o teto seria muito ruim, mesmo que isso seja feito de forma provisória.

O economista e sócio-diretor da corretora NGO, Sidnei Nehme, acredita que a taxa de câmbio poderia já ter furado os R$ 5 pela pressão vinda do dólar frágil no exterior e por causa dos juros muito baixos no mundo. Mas ele antevê dificuldades políticas até o começo de fevereiro para implementar reformas e medidas de ajuste fiscal, por causa da eleição às presidências da Câmara e do Senado.

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