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Grupo irlandês compra ativos das cimenteiras Holcim e Lafarge no País

Para levar adiante fusão anunciada em 2014, cimenteiras venderam fábricas em vários países, incluindo o Brasil, por US$ 7,3 bi

MÔNICA SCARAMUZZO, O Estado de S.Paulo

03 Fevereiro 2015 | 02h05

O grupo irlandês de material de construção CRH anunciou, ontem, um acordo bilionário para comprar os ativos colocados à venda pelas cimenteiras Holcim e Lafarge, que fecharam uma fusão no ano passado, criando a maior companhia do setor no mundo. O negócio, no valor de US$ 7,34 bilhões, inclui operações na Europa, Canadá, Brasil e Filipinas.

A transação faz com que a CRH estreie no mercado brasileiro já como a terceira maior cimenteira do País, atrás da Votorantim e da InterCement (da Camargo Corrêa), segundo fontes de mercado ouvidas pelo Estado.

O pacote das operações no Brasil inclui três fábricas de cimento (Matozinhos e Arcos Jazida, da Lafarge, e Cantagalo, da Holcim), duas estações de moagem (Arcos Cidade e Santa Luzia, da Lafarge) e uma indústria de mistura pronta de cimento (Pouso Alegre, da Holcim). O Estado apurou que essas operações foram avaliadas em cerca de US$ 350 milhões.

Até a semana passada, esses ativos estavam sendo disputados por outros grupos estrangeiros, interessados apenas nas fábricas do Brasil. "Mas a venda do pacote completo é mais interessante para as duas companhias, que tinham pressa para concluir a fusão", disse uma fonte a par do assunto.

A venda dos ativos da suíça Holcim e da francesa Lafarge era condição necessária para que a fusão entre as duas companhias - criando uma empresa de US$ 44 bilhões em faturamento - fosse aprovada pelos órgãos antitrustes onde as companhias atuam.

As operações adquiridas pelo grupo irlandês CRH na Europa, Canadá, Brasil e Filipinas geraram vendas estimadas de 5,2 bilhões em 2014 e lucro operacional de 744 milhões.

Brasil. A produção brasileira de cimento gira em torno de 70 milhões de toneladas por ano. Dados do Sindicato Nacional da Indústria de Cimento (SNIC) mostram que as vendas acumuladas de cimento entre junho de 2013 e maio de 2014 atingiram 70,7 milhões de toneladas, um aumento de 3,1% sobre igual período anterior.

Desde junho do ano passado, o sindicato não pode divulgar dados mensais do setor por imposição do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade). O SNIC recorreu da decisão.

A expectativa é de que o mercado de cimento neste ano sofra uma desaceleração, de acordo com fontes ouvidas pelo Estado. Além da crise energética e hídrica, as denúncias envolvendo as principais construtoras do País na Operação Lava Jato, que investiga denúncias contra a Petrobrás, deverão desacelerar as obras em andamento. "O reflexo para a indústria de cimento é direto", disse uma fonte.

Asfalto. O grupo irlandês, que é o principal produtor de asfalto para estradas nos Estados Unidos, informou que o acordo expandirá seu alcance global, fazendo da companhia a maior fornecedora de construção na Europa Central e Oriental e a terceira maior do mundo.

A empresa vai financiar a compra, que irá duplicar sua exposição aos mercados emergentes, com 2 bilhões em dinheiro, nova dívida e uma colocação de ações de 9,99%, segundo comunicado. "Estamos adquirindo uma carteira de ativos de qualidade que complementa as nossas posições existentes a um valor atrativo e no ponto certo do ciclo (econômico)", disse o presidente executivo do CRH, Albert Manifold.

Lafarge e Holcim anunciaram planos de fusão em abril do ano passado, na esperança de reduzir custos e combater o excesso de capacidade e fraca demanda. A nova empresa será a maior fabricante de cimento do mundo, com US$ 44 bilhões em vendas anuais.

As cimenteiras suíça e francesa disseram que a venda para o CRH assegurava que sua fusão estava no caminho certo para ser concluída no primeiro semestre deste ano, com a grande maioria dos ativos que precisavam vender sendo agora detidos por compradores.

De acordo com o grupo CRH, com a compra de ativos principalmente na Europa, Canadá, Brasil e Filipinas, o negócio impulsionaria, se concluído em meados de 2015, seu lucro recorrente em cerca de 25% no primeiro ano completo da aquisição. Cerca de 90 milhões em sinergias -líquidas de custos de implantação - também deverão ser alcançados nos três primeiros anos pós-aquisição, acrescentou a empresa.

Disputa. Em agosto passado, executivos da Holcim e da Lafarge informaram que receberam dezenas de propostas para a compra de seus ativos globais, incluindo fundos e companhias de cimento, como a alemã Heidelberg Cement, a mexicana Cemex, os fundos Advent e o Temasek.

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