Grupo Lorentzen, da Aracruz, agora investe em floresta

Depois de deixar o bloco de controle da Aracruz, família já planeja abrir o capital do novo negócio, que só vai gerar receita em 2014

Mônica Ciarelli do Rio, O Estado de S.Paulo

26 de abril de 2010 | 00h00

A venda da Aracruz no ano passado foi traumática para a família Lorentzen, especialmente para o patriarca Erling, um norueguês que chegou ao Brasil há mais de meio século e ajudou a fundar uma das maiores exportadoras de papel e celulose do mundo. Mesmo fora da Aracruz, o grupo Lorentzen Empreendimentos comprou terras em Minas Gerais e retornou ao seu investimento mais visceral: ativos florestais.

O negócio, tocado por Haakon Lorentzen, filho de Erling, só vai começar a gerar receita dentro de quatro anos. Mas, como todo bom empreendedor, ele tem planos ousados. Antes mesmo da primeira colheita, já pensa em, no futuro, abrir o capital dessa empresa. "A gente tem uma visão de que as empresas deviam e podem ser maiores do que a nossa capacidade. Então, a gente está aberto a somar forças com outros capitais", explicou.

Dono de uma fortuna respeitável, Haakon, de 55 anos, praticamente não é conhecido no Brasil. Discreto, ele evita fotos, coluna sociais e até mesmo entrevistas sobre o grupo Lorentzen.

Quando o tema é empreendedorismo, no entanto, o empresário baixa a guarda. Pela primeira vez, ele fala à imprensa de seu trabalho à frente do grupo e também como co-mantenedor da ONG Endeavor, entidade que incentiva o desenvolvimento de novos negócios em 11 países.

Lorentzen revela que, apesar dos investimentos em florestas, o grupo não pensa em voltar ao setor de papel e celulose. Desta vez, o foco é o fornecimento de carvão vegetal para a indústria siderúrgica. "Nossas árvores agora vão servir mais para carbono e energia. A matéria-prima é a mesma, mas o produto final é completamente diferente", lembra.

Crédito de carbono. O grupo pensa também em atuar no segmento de crédito de carbono - venda de certificados de redução de emissão de gases do efeito-estufa para empresas poluidoras. Entretanto, esse é um investimento que terá de ser postergado devido às inseguranças regulamentais. Segundo ele, o grupo tinha expectativas em relação à reunião de Copenhagen, ocorrida no ano passado, que acabaram não se materializando. Por isso, acredita, ainda é difícil apostar que um projeto de crédito de carbono seja lucrativo.

Os investimentos da família Lorentzen são bastante diversificado. Junto com a EBX, do empresário Eike Batista, o grupo participa do bloco de controle da IdeaisNet, holding de 16 empresas no segmento de tecnologia e telecomunicações.

Foi no auge do boom da internet, em 2000, que a Endeavor entrou na vida do empresário. Na época, o interesse era aprender como o grupo poderia se beneficiar na chamada Nova Economia. Dono de uma empresa de software para bancos, adquirida em 1995, Lorentzen acreditava que a ONG seria um fórum interessante para viabilizar boas oportunidades.

"Eu recebi um e-mail dizendo que haveria um seminário aqui no Rio. Os palestrantes eram de altíssimo nível, gente que você lia em revistas", conta. Desse modo despretensioso é que Lorentzen soube que outros empresários de peso também participariam da ONG, como os fundadores do Banco Garantia, Beto Sucupira e Jorge Paulo Lemann.

A preocupação de Lorentzen na época era a de que praticamente todos os investimentos do grupo estavam na Velha Economia, ligados aos ramos de papel e celulose e navegação. Ele estava de olho nessa transformação, que fazia milionários do dia para a noite. "Naquela época, o cara abria uma empresa na garagem e, dois anos depois, a empresa valia US$ 2 milhões. A gente vinha de um negócio que, para sair do zero e chegar a um milhão de dólares, levava uma década. Era motivador. Então, pensei: deixa eu ver como essa turma está fazendo isso", lembra.

A Nova Economia não se mostrou tão "revolucionária" assim e o interesse de Lorentzen pela ONG se tornou mais filantrópico. Mas o interesse por inovações tecnológicas não acabou.

Aracruz. Sobre a saída da família do controle da Aracruz, o empresário é taxativo ao afirmar que a decisão teve como pano de fundo a necessidade de consolidação do setor. "É sempre muito difícil largar alguma coisa que você de certa maneira ajudou a criar", diz. E completa: "Até gostaríamos de ter participado do processo de consolidação, mas ficou claro que o que ia efetivamente fazer isso acontecer era a gente se dispor a vender nossa parte para o grupo Votorantim."

O empresário lembra que o grupo Lorentzen seria o mais diluído no processo e que, por isso, não faria sentido permanecer no desenho da nova companhia. Ao mesmo tempo, pondera que a consolidação era fundamental para o crescimento da companhia. Segundo ele, só a fusão com a Votorantim Celulose e Papel (VCP) poderia criar uma gigante nacional capaz de ganhar mais espaço no competitivo mercado internacional.

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