Grupo Pão de Açúcar perde seu fundador, Valentim Diniz

Pai de Abílio Diniz desembarcou em 1929 no Brasil, com um sonho determinado: ser comerciante em São Paulo

da Redação,

16 de março de 2008 | 17h26

O Grupo Pão de Açúcar perdeu neste domingo, 16, seu fundador, Valentim dos Santos Diniz, de 94 anos, que a partir de uma doceira construiu uma das maiores redes de varejo do País. O grupo tem hoje 576 lojas, distribuídas em 14 Estados e faturou no ano passado R$ 17,6 bilhões. Valentim dos Santos Diniz, pai do empresário Abilio Diniz, ocupava havia seis anos o cargo simbólico de presidente honorário da companhia. O empresário estava internado desde o último dia 07 de janeiro no Hospital Albert Einstein, São Paulo, e faleceu em conseqüência de falência múltipla dos órgãos.   O corpo será velado a partir das 21 horas deste domingo, no velório do hospital (Avenida Albert Einstein, 627, 4º Subsolo, Morumbi), de onde segue para o Cemitério São Paulo (Rua Cardeal Arcoverde, 1250), onde deve ser enterrado ao meio-dia. Valentim dos Santos Diniz deixa a esposa Floripes, com quem estava casado há 72 anos, e os filhos Abilio, Arnaldo, Vera, Lucia e Lucilia, além de netos e bisnetos.   A trajetória de "seo" Santos como era conhecido, lembra a de tantos outros imigrantes que vieram na década de 20 e 30 para o Brasil com o sonho de fazer riqueza na nova terra. Mas ao contrário da maioria não seguiu para as lavouras de café e nem para as indústrias. Ele desembarcou no País em 1929, vindo de Pomares do Jarmelo, aldeia da Beira Alta, em Portugal, onde nasceu, em 18 de agosto de 1913. Tinha apenas 16 anos e era determinado: queria ser comerciante em São Paulo.   Hospedado na casa de um tio-avô na Mooca, logo arrumou emprego como entregador e caixeiro no empório Real Barateiro. Foi nesse primeiro e único emprego que conheceu a mulher Floripes Pires, também descendente de portugueses, com que se casou em 1936 e teve seis filhos. Abilio Diniz, o primogênito, presidente do Conselho de Administração do Grupo Pão de Açúcar, nasceu em 1936. Depois vieram Alcides, Arnaldo, Vera Lúcia, Sônia Maria e Lucília. Logo depois do casamento com algumas economias guardadas e o dinheiro ganho na loteria por Floripes, abriu seu primeiro negócio, uma pequena mercearia na Rua Vergueiro.   A loja ficava na frente e a moradia da família nos fundos. Pouco depois, voltou como sócio ao empório onde começou a trabalhar. Mas Valentim Diniz queria ter sua própria empresa e em 1946 decidiu comprar duas casas na Avenida Brigadeiro Luís Antônio. No local construiu um prédio. Nascia em 7 de setembro de 1948 a doceira Pão de Açúcar.   A doceira oferecia salgados e doces variados, fazia sucesso com seu serviço de bufê e cresceu. Em 1952 a primeira filial da doceira era inaugurada na Praça Clóvis Bevilacqua, centro de São Paulo. No mesmo ano surgiu a terceira loja na rua Barão de Paranapiacaba, também no centro, nas imediações da rua Direita.   O próximo passo do fundador do Pão de Açúcar foi maior. Comprou um terreno com casas antigas, anexo à doceira, na Avenida Brigadeiro Luís Antônio e decidiu investir numa novidade que havia chegado ao Brasil havia pouco tempo, o chamado varejo de auto-serviço. Em 14 de abril de 1959, com a ajuda do filho mais velho, Abilio Diniz, então com 19 anos, inaugurou o primeiro supermercado com a marca Pão de Açúcar.   Trajetória   Empreendedor, em pouco tempo multiplicou as lojas. Em 1968 já eram 64 pontos-de-venda. Um ano depois é convidado pelo governo português a operar no país. Posteriormente abre lojas em Angola e Espanha. A partir da década de 70 a companhia começa a investir na diversificação de negócios.   Nessa época surgiu o hipermercado Jumbo, depois uma operadora de turismo, uma agência de veículos, restaurantes, operações envolvendo pesca e avicultura. A rede começa também a apostar no modelo de loja de departamentos com a abertura da Sandiz. Em 1987 a empresa já havia fincado sua bandeira no Brasil em 18 Estados e estava com 582 lojas. Mas o caminho para o crescimento também foi pontuado de obstáculos, incluindo brigas familiares e uma crise que quase levou a empresa à falência.   Os problemas familiares culminaram com a saída do segundo filho de Valentim Diniz, Alcides, da companhia, em 1988. O empresário, na época com 73 anos, preparava sua sucessão contando com a participação dos seis filhos , com os três homens , Abilio, Alcides e Arnaldo na diretoria executiva. Mas os irmãos se desentenderam e para evitar a dissolução do grupo, Valentim voltou à presidência em 1988. Nesse ano, Alcides vendeu suas ações e saiu da empresa. Abilio de diretor passou à vice-presidência do grupo.   Os resultados do Pão de Açúcar já haviam disparado o sinal de alerta para o grupo. O número de lojas crescia, mas o faturamento despencava. Em 1990 a companhia teve US$ 32 milhões de prejuízo. Foi nessa época que a rede quase foi à bancarrota. Abilio Diniz iniciou um processo severo de cortes e ajustes para reerguer a companhia. Foram vendidas todas as operações não relacionadas ao varejo de supermercado. Em 1991 já haviam sido cortados 22.700 funcionários e fechadas quase um terço das lojas. A rede após o ajuste voltou a crescer.   Em 1993 um acordo redefiniu a composição acionária da companhia. Abilio assumiu a direção majoritária e os outros irmãos, Arnaldo, Vera Lúcia e Sônia Maria, venderam suas ações. Permaneceram no grupo Valentim dos Santos Diniz, a mulher e a filha caçula,Lucília.   Em 1995, o grupo abriu o capital, tornando-se a primeira empresa brasileira a realizar uma operação global de colocação de ações , envolvendo aplicadores institucionais nos mercados europeu e americano, além de brasileiro. Há seis anos, a companhia passou por uma reestruturação administrativa ampla para sua profissionalização. Abilio comunicou seu afastamento da presidência da empresa para assumir o cargo de presidente do Conselho de Administração no lugar do pai, que se tornou presidente honorário.

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