Grupo Ultra vai para o Novo Mercado e terá capital pulverizado na Bolsa

Holding Ultrapar, que hoje detém 66% das ações com direito a voto do grupo, deixará de ter o controle e ficará com 24% das ações

David Friedlander, de O Estado de S.Paulo,

05 de abril de 2011 | 23h00

O Grupo Ultra, que nasceu vendendo gás de cozinha de porta em porta, hoje fatura R$ 40 bilhões por ano e é dono de empresas como a distribuidora de combustíveis Ipiranga, vai adotar um modelo típico das companhias abertas americanas que um dia foram familiares como ele. O grupo, que já tem capital aberto, anunciou ontem que irá se ajustar às regras do Novo Mercado.

Como principal mudança, a holding Ultrapar, formada pela família Igel e pelos principais executivos, deixa de ter o controle absoluto dos negócios para dividir o comando com os outros acionistas. Hoje, a holding tem 66% das ações com direito a voto. Com a mudança, ficará com 24% do Ultra.

Isso significa que decisões hoje tomadas pelos controladores precisarão ser negociadas com os demais acionistas. "Se é para fazer capitalismo, vamos fazer direito", afirma o presidente do Conselho de Administração do Ultra, Paulo Cunha. "Vamos abrir mão do controle total em favor do crescimento e da perenização da empresa", diz o diretor-presidente do grupo, Pedro Wongtschowski.

A adesão ao Novo Mercado poderá atrair novos investidores, incluindo estrangeiros, e proporcionar mais liquidez aos papéis do Ultra, que tem cerca de 9 mil funcionários, é o segundo maior distribuidor de combustíveis do País (Ipiranga), o maior na distribuição de gás de cozinha (Ultragaz) e atua nas áreas química (Oxiteno) e de armazenagem (Ultracargo).

O grupo espera que o novo modelo traga duas vantagens principais. A primeira é proporcionar uma porta de saída mais larga caso os controladores - as 20 pessoas da terceira geração da família Igel e das famílias dos principais executivos - desejem deixar o negócio. "Não significa que vamos vender, mas poder vender dá uma sensação boa", afirma Paulo Cunha.

A outra vantagem, de acordo com o presidente do conselho, é proporcionar maior capacidade de investimento ao grupo, usando as ações do Ultra como moeda para aquisição de outras empresas. As aquisições da Ipiranga e a incorporação da Oxiteno, por exemplo, envolveram emissões de ações. Nos últimos cinco anos, o faturamento do grupo saltou de R$ 4 bilhões para R$ 42,5 bilhões no ano passado, em boa parte impulsionado pelas aquisições.

"Quando você experimenta um crescimento desses, você gosta", afirma Cunha. "Só que, para crescer assim, aos saltos, só por meio de aquisições. Não temos um alvo específico, mas estamos procurando oportunidades dentro e fora do Brasil", afirma o presidente do conselho. Segundo ele, o valor de mercado do Ultra é R$ 15 bilhões.

Conversão. De acordo com Wongtschowski, o grupo espera concluir a migração para o Novo Mercado ainda neste semestre. O processo prevê a conversão das ações preferenciais da companhia em ações ordinárias (com direito a voto), na proporção de uma para uma, e a elaboração de um novo estatuto social.

De acordo com esse estatuto, que será submetido à assembleia geral de acionistas, investidores que venham a adquirir 20% ou mais do capital da companhia serão obrigados a realizar uma oferta pública para aquisição de todas as ações em poder do mercado. Além disso, pelo menos 30% dos conselheiros deverão ser independentes. "O País está num bom momento e a companhia também", afirma Paulo Cunha. "Entendemos que foi uma decisão corajosa e consciente. Não foi nenhum arroubo motivado por circunstâncias difíceis". 

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