Marcos Correa/PR - 2/12/2020
Para o ministro Paulo Guedes, resultado do PIB mostra que a economia está voltando em 'V'. Marcos Correa/PR - 2/12/2020

Guedes admite que PIB veio abaixo do esperado, mas diz que economia está 'realmente voltando'

Para o Ministro da Economia, o desempenho ainda sinaliza uma retomada forte da atividade após o pior momento da pandemia de covid-19

Eduardo Rodrigues, Fabrício de Castro e Lorenna Rodrigues, O Estado de S.Paulo

03 de dezembro de 2020 | 11h03

BRASÍLIA - O ministro da Economia, Paulo Guedes, admitiu nesta quinta-feira, 3, que o crescimento de 7,7% do Produto Interno Bruto (PIB) no terceiro trimestre ante o trimestre anterior ficou um pouco abaixo do que o governo esperava, mas afirmou que o desempenho ainda sinaliza uma retomada forte da atividade após o pior momento da pandemia de covid-19

 

"É a economia voltando, está voltando em 'V' como sempre dissemos. Houve revisões de trimestres anteriores, e por isso o resultado veio um pouco abaixo do esperado, mas o fato é que a economia está voltando em 'V', realmente está voltando", afirmou, ao chegar à sede da pasta.

O resultado divulgado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) veio abaixo das estimativas de analistas ouvidos pelo Projeções Broadcast, de avanço de 8,80%. O Ministério da Economia projetava expansão de 8,3% no terceiro trimestre em relação ao período anterior.

Embora seja mais forte do que o esperado no início da crise, a retomada ainda é insuficiente para recuperar as perdas do primeiro semestre. Tanto que o PIB registrou queda de 3,9% na comparação com igual período de 2019. A retração do PIB em 2020 deverá ficar em 4,50%, conforme pesquisa do Projeções Broadcast feita antes da divulgação dos dados do IBGE. Ainda que menor do que as primeiras projeções, feitas quando a covid-19 se abateu sobre a economia, se confirmada, será a maior queda anual da história - a mais intensa até hoje foi registrada em 1990 (-4,35%), na série histórica iniciada em 1901. 

'Escudo social' deve ser desarmado, diz Economia

No mesmo dia de divulgação do PIB que mostra o impacto do auxílio emergencial para a retomada da economia, em nota técnica enviada à imprensa, o Ministério da Economia afirmou que “o escudo de políticas sociais criado para amenizar o sofrimento econômico e social causados pela pandemia deve ser desarmado, dando espaço para a agenda de reformas estruturais e consolidação fiscal – único meio para que a recuperação se mantenha pujante.”

O comentário reforça a postura da área econômica do governo nos últimos meses, que tem defendido o fim dos programas de auxílio no encerramento de dezembro, para evitar pressão maior sobre a área fiscal em 2021. A visão é de que, com a eventual extensão de alguns programas, o Brasil pode passar a mensagem errada aos investidores e elevar o risco fiscal.

“O fraco crescimento do PIB nos últimos anos é uma consequência da baixa produtividade, fruto da má alocação de recursos na economia brasileira”, registrou o Ministério da Economia na nota. “Desta forma, o único caminho que poderá gerar a elevação do bem-estar dos brasileiros serão medidas que consolidem o lado fiscal de nossa economia e corrijam a má alocação de recursos, aumentem a produtividade e incentivem a expansão do setor privado.”

Ao avaliar a alta de 7,7% do PIB no terceiro trimestre, o ministério afirmou que “a forte recuperação da atividade, do emprego formal e do crédito neste semestre pavimentam o caminho para que a economia brasileira continue avançando no primeiro semestre de 2021 sem a necessidade de auxílios governamentais”. Para a pasta, “a retomada da atividade e do emprego, que ocorreu nos últimos meses, compensará a redução dos auxílios”.

O ministério pontuou ainda, na nota técnica, que “outro fator positivo será a melhora das condições financeiras que continuarão impulsionando a atividade, principalmente com a retomada da agenda de reformas”. Conforme o ministério, a elevação da taxa de poupança no terceiro trimestre de 2020 – para 17,3% do PIB, no maior valor para o período desde 2013 – “sinaliza que a trajetória de consumo será suavizada no começo de 2021 sem a necessidade de novos auxílios governamentais”. “Além disso, esses dados sinalizam que a economia brasileira vai ganhando tração para manter a retomada econômica em 2021”, acrescentou.

“Os indicadores coincidentes sugerem manutenção da tendência de crescimento do PIB para os últimos meses deste ano, confirmando a expectativa de crescimento elevado no segundo semestre de 2020”, registrou a Pasta. Para o ministério, a indústria e o comércio foram os “principais motores” para a atividade no terceiro trimestre. Já o setor de serviços deverá apresentar maior contribuição para a alta do PIB no quarto trimestre de 2021.

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PIB tem alta recorde de 7,7%, mas fica abaixo do esperado e não recupera perdas da pandemia

Com o resultado, que vem depois de duas quedas trimestrais seguidas, a economia do País está no mesmo patamar de 2017, com perda acumulada de 5% de janeiro a setembro em relação ao mesmo período do ano passado

Daniela Amorim e Vinicius Neder, O Estado de S.Paulo

03 de dezembro de 2020 | 09h02
Atualizado 03 de dezembro de 2020 | 22h39

RIO - Uma maior reabertura das atividades em meio à pandemia e o impulso dado pelo auxílio emergencial fizeram a economia registrar no terceiro trimestre o maior crescimento em duas décadas. O Produto Interno Bruto (PIB, o valor de tudo o que é produzido na economia) saltou 7,7% ante o segundo trimestre, informou nesta quinta-feira, 3, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Essa é a maior variação da série histórica, iniciada em 1996, mas ficou abaixo do esperado por analistas do mercado financeiro ouvidos pelo Projeções Broadcast, que previam avanço de 8,80%. Com esse resultado, a economia do País está no mesmo patamar de 2017, com uma perda acumulada de 5% de janeiro a setembro, em relação ao mesmo período de 2019.

Embora seja mais forte do que o esperado no início da crise, a retomada ainda é insuficiente para recuperar as perdas do primeiro semestre. Tanto que o PIB registrou queda de 3,9% na comparação com igual período de 2019. A retração do PIB em 2020 deverá ficar em 4,50%, conforme pesquisa do Projeções Broadcast feita antes da divulgação dos dados do IBGE. Ainda que menor do que as primeiras projeções, feitas quando a covid-19 se abateu sobre a economia, se confirmada, será a maior queda anual da história - a mais intensa até hoje foi registrada em 1990 (-4,35%), na série histórica iniciada em 1901.

Em parte, a forte alta do terceiro trimestre se explica por um efeito estatístico. O salto se segue ao recuo de 1,5% no primeiro trimestre ante o quarto trimestre de 2019 e ao tombo, também recorde, de 9,6% no segundo trimestre.

De abril a junho, a retração foi tão pior do que em outras crises porque a economia foi “desligada” no início da pandemia, diz Eduardo Zilbermann, professor do Departamento de Economia da PUC-Rio, numa referência às regras de restrição ao contato entre as pessoas.

Como explica Zilbermann, o PIB é uma medida de fluxo, de quanto se gera de valor continuamente ao longo do tempo. Em outras crises - causadas por inflação, desequilíbrios nas contas externas ou bolhas financeiras, etc. -, as empresas entram em dificuldade, suspendem investimentos e demitem funcionários, ou a renda das famílias é corroída, e elas consomem menos. Assim, lojas vendem menos, mas seguem vendendo. Indústrias veem a demanda caindo e reduzem a produção, mas seguem produzindo. E o fluxo se reduz na comparação com períodos anteriores.

Só que o “desligamento” na pandemia fechou lojas, que não podiam receber clientes, e fábricas, que não podiam aglomerar trabalhadores. Vendas e produção foram para perto de zero, uma enorme queda na comparação com os fluxos de períodos anteriores. Mesmo que a parada para valer tenha ocorrido em abril, o fundo do poço, a reabertura gradual a partir de maio foi insuficiente para salvar o PIB do segundo trimestre, formado pelo fluxo contínuo em cada um dos meses.

Isso impulsionou o PIB industrial, que cresceu 14,8% sobre o segundo trimestre, com destaque para a indústria de transformação. Esse segmento, que inclui a fabricação de alimentos, saltou 23,7% sobre o segundo trimestre e registrou ligeira queda, de 0,2%, ante o terceiro trimestre de 2019. Para Silvia, apenas a mudança na demanda das famílias explica a atividade da indústria de transformação ficar em nível tão próximo ao do ano passado.

A retomada desigual também foi vista no PIB de serviços, que saltou 6,3% ante o segundo trimestre. O comércio, que inclui o atacado, avançou 15,9%, enquanto os “outros serviços” cresceram 7,8%. Essa atividade, que inclui hotéis, bares e restaurantes, despencou 14,4% ante o terceiro trimestre de 2019, indicando que, sem um controle da covid-19, a demanda por esses serviços está longe de voltar ao normal.

No terceiro trimestre, bastou a economia passar todo o período “religada” para o fluxo de valor gerado ficar muito acima do registrado no PIB do segundo trimestre, explica Zilbermann. Mesmo assim, esse fluxo foi inferior ao registrado nos trimestres de 2019, antes da pandemia. Por isso, a alta recorde sobre o trimestre imediatamente anterior não significa o fim da crise.

O quadro só não foi pior por causa das medidas do governo federal para mitigar a crise, como o auxílio emergencial para trabalhadores informais e as complementações de renda dos trabalhadores formais que tiveram suas jornadas de trabalha suspensas ou reduzidas.

“A recuperação no Brasil foi melhor do que nos pares na América Latina. Atribuo isso às políticas fiscal e creditícia”, diz Zilbermann.

Economistas já vinham ressaltando que o auxílio emergencial - que começou em R$ 600 ao mês e passou a R$ 300 por mês desde setembro - impulsionaria a economia. Nos primeiros meses, a renda extra chegou a tirar milhões de brasileiros da extrema pobreza, mas uma reversão nesse movimento já a partir de setembro reforçou seu caráter temporário. O consumo das famílias cresceu 7,6% sobre o segundo trimestre, puxando a recuperação. 

Só que mesmo o avanço do consumo trouxe traços “heterogêneos” e “disfuncionais” da recuperação, segundo Silvia Matos, coordenadora do Boletim Macro, do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (Ibre/FGV). Com as famílias ficando mais em casa, mesmo após a flexibilização das restrições em várias cidades, o consumo de bens, especialmente os essenciais, como alimentos, avançou mais.

Segundo Silvia, essas peculiaridades levam incerteza sobre a recuperação. Os níveis de atividade da indústria de transformação e do comércio podem não se manter com a normalização dos hábitos das famílias. Além disso, o consumo tende a perder impulso sem o auxílio emergencial, a partir de janeiro. A pesquisadora do Ibre/FGV vê a economia com crescimento nulo, ou até novas quedas, no primeiro semestre de 2021.

Por isso, a manutenção do auxílio emergencial no próximo ano, ou sua substituição por um programa mais abrangente do que o Bolsa Família, tem dividido o debate entre economistas. Para Silvia, a economia brasileira está “entre a cruz e a espada”. De um lado, sem os gastos com transferência de renda, o consumo perde impulso. De outro, sem um remanejamento das despesas, os novos gastos agravam o rombo nas contas públicas, elevam o endividamento público, dificultam a rolagem da dívida do governo, elevam juros, aumentam a cotação do dólar e poderão pressionar a inflação - o que acabaria por minar a recuperação do PIB.

No outro lado do debate, há economistas que veem a elevação da dívida pública e a ampliação do rombo nas contas do governo como menos preocupantes, já que vários países estão fazendo o mesmo e os juros estão baixos no mundo todo.

A indicação de Janet Yellen, ex-presidente do Fed (o banco central americano) como secretária do Tesouro do governo do presidente eleito dos Estados Unidos, Joe Biden, sinalizou para mais gastos públicos para mitigar a crise em 2021. Nomes como o ex-secretário de Tesouro americano Larry Summers e o ex-economista-chefe do Fundo Monetário Internacional (FMI) Olivier Blanchard vêm defendendo mais despesas dos governos de países desenvolvidos para ajudar na recuperação da economia.

Para José Oreiro, professor do Departamento de Economia da Universidade de Brasília (UnB), no início do próximo ano, a economia ainda não terá se recuperado da queda do primeiro semestre deste ano, o desemprego estará elevado e há chance de uma segunda onda de contágio da pandemia ganhar força. Nesse quadro, sem a prorrogação do estado de calamidade pública, em vigor até 31 de dezembro, o teto de gastos públicos voltará a valer. O governo será obrigado a fazer um forte corte nas despesas.

“Se retiramos o auxílio de maneira súbita, que é o cenário que se coloca hoje, vamos entrar em recessão em 2021 de novo”, diz Oreiro.

Apesar das divergências sobre política econômica, há consenso num ponto: a principal variável a determinar os rumos da retomada será mesmo a pandemia. Uma segunda onda que ganhe força, acelerando o crescimento do número de casos e de mortes poderá exigir novas medidas de restrição ao contato social, atingindo novamente a economia. O sucesso no controle da doença e a eventual vacinação em massa ao longo de 2021 levarão mais pessoas às ruas, ampliando o consumo e acelerando a recuperação. / COLABORARAM CÍCERO COTRIM e GREGORY PRUDENCIANO

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Alta recorde do PIB tira País da recessão? Não é bem assim

Atividade econômica teve crescimento recorde no terceiro trimestre, mas, para confirmar o fim do ciclo recessivo, é preciso verificar o tamanho da recuperação em relação à queda iniciada ainda no primeiro trimestre

Vinicius Neder, O Estado de S.Paulo

03 de dezembro de 2020 | 09h25

RIO - Após dois trimestres de queda, o crescimento de 7,7% no Produto Interno Bruto (PIB, soma de todo o valor gerado na economia num período) do terceiro trimestre foi recorde na série histórica do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), iniciada em 1996. Com tamanha alta, a recessão iniciada no primeiro trimestre, por causa da pandemia de covid-19, ficou para trás? A resposta não é simples e pode ficar mesmo para 2021. 

Quando o IBGE informou que o PIB do segundo trimestre despencou 9,7% sobre os três primeiros meses do ano, também uma queda recorde, a economia brasileira entrou em “recessão técnica”, confirmando o ciclo recessivo. Antes mesmo de sabermos que o PIB teve dois trimestres seguidos de queda - o que basta para caracterizar a “recessão técnica” -, o Codace, comitê independente da Fundação Getulio Vargas (FGV) que se dedica a marcar os ciclos da economia, já havia registrado o início de uma recessão no primeiro trimestre.

Tradicionalmente, economistas dedicados a estudar os ciclos econômicos levam mais tempo para registrar o início das recessões. Outros dados da atividade econômica, como aqueles do mercado de trabalho, são levados em conta, para além da simples variação do PIB. O registro do Codace/FGV foi atípico. Os impactos da pandemia de covid-19 foram tão fortes e evidentes que deixaram logo claro que a economia entrou em recessão - nos Estados Unidos, o comitê análogo do NBER, um dos mais antigos e tradicionais institutos de pesquisa econômica independente, também foi mais rápido do que o usual para registrar o início da recessão por lá.

Por outro lado, se foi fácil apontar quando a recessão da covid-19 começou, não basta que a economia volte a crescer para que um País saia do ciclo recessivo, explicou Paulo Picchetti, pesquisador do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre) da FGV e um dos membros do Codace. É preciso verificar a magnitude da recuperação em relação à queda iniciada no atual ciclo recessivo e outros indicadores econômicos. Embora tenha sido recorde, o crescimento do PIB no terceiro trimestre foi insuficiente para apagar a queda do primeiro e do segundo trimestres.

Além disso, lembrou Pichetti, há incertezas em relação ao ritmo do crescimento econômico neste quarto trimestre e nos três primeiros meses de 2021. Os efeitos da “segunda onda” da pandemia, ou pelo menos da volta do crescimento de casos de covid-19, sobre a economia ainda não estão claros. Ao mesmo tempo, a redução do auxílio emergencial para trabalhadores informais - que passou de R$ 600 ao mês para R$ 300 ao mês desde setembro - e sua retirada a partir de janeiro de 2021 sugerem arrefecimento do consumo. O ano que vem poderá começar com uma retração do PIB, como já estimam alguns economistas.

Uma nova retração da economia no primeiro trimestre de 2021, após dois trimestres de avanço no segundo semestre deste ano, poderá ser classificada tanto como uma nova recessão quanto como uma continuidade da atual, disse Pichetti. O tamanho da recuperação neste segundo semestre e o espalhamento da retomada por todos os setores deverá ser levada em conta.

“Não sabemos se a recuperação do terceiro e do quarto trimestres leva pelo menos ao patamar do fim de 2019 nem qual será o recuo eventual no primeiro trimestre”, afirmou Pichetti, completando que não é fácil fazer qualquer afirmação sobre o fim da atual recessão sem saber qual será o desempenho da economia no primeiro trimestre de 2021. Esses dados deverão ser divulgados pelo IBGE no fim de abril ou início de maio. 

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Análise: PIB tem alta recorde, mas não é para comemorar

Crescimento de 7,7% na atividade econômica no terceiro trimestre veio abaixo do previsto e não recupera perdas acumuladas no ano

Alexandre Calais*, O Estado de S.Paulo

03 de dezembro de 2020 | 10h22

Pode soar estranho dizer que um crescimento de 7,7% na atividade econômica em um trimestre decepcionou. Mas estamos em 2020, ano de coisas muito, muito estranhas. Portanto, mesmo com uma alta recorde do PIB no terceiro trimestre, o primeiro sentimento é de decepção. Isso porque é um crescimento que não consegue sequer recuperar o que foi perdido apenas no segundo trimestre, quando houve uma queda de 9,6%. A previsão do mercado, de acordo com o Projeções Broadcast, era de uma alta de 8,8%, número que também já seria inferior ao do recuo no segundo trimestre. 

Esse tem sido um ano disfuncional, com dados que apontam caminhos completamente opostos, o que  torna as projeções para os rumos da economia um exercício de futurologia bastante complicado. Alguns analistas estão otimistas e projetam uma recuperação forte da economia no ano que vem, com alta de até 4,5%. Para outros, o cenário é de uma economia, na prática, estagnada em 2021.

O que complica todas essas previsões é o alto grau de incerteza em diversas frentes que podem ter um impacto significativo na atividade econômica. O primeiro, e talvez o maior deles, ainda é a covid-19. A pandemia vai arrefecer ou teremos um quadro de continuidade - ou, pior, de avanço da doença? Haverá uma vacina disponível para o Brasil? Quando? São perguntas ainda completamente sem respostas. Qual será o impacto, em 2021, dessa onda que derrubou a economia brasileira este ano?

Existe um efeito expectativa nos mercados financeiros para o qual também não há uma resposta clara. As reformas estruturais da economia vão avançar no Congresso? Haverá um movimento no sentido de controlar a trajetória do endividamento público? O teto de gastos será respeitado? Veremos alguma manobra contábil para a criação do programa pensado para substituir o Bolsa Família?

Na parte mais prática, está claro que não será um ano fácil. Com toda a ajuda fornecida pelo governo este ano a empresas e pessoas físicas, foi evitada uma catástrofe maior. No início da pandemia, chegou-se a prever uma queda do PIB de cerca de 10%. Agora, as projeções estão em uma queda em torno de 4,5%. Mas essa ajuda vai acabar, e alguns sinais de que as coisas podem piorar já aparecem.

O pior deles talvez seja o desemprego. Mês após mês o IBGE mostra um aumento no número de desocupados. São pessoas que, num primeiro momento, por causa da pandemia, desistiram de procurar uma vaga, mas que, com o passar do tempo e a necessidade batendo à porta, não tiveram alternativa. O auxílio emergencial, que também conseguiu manter muita gente em casa, foi reduzido de R$ 600 para R$ 300 e deve acabar totalmente neste mês. Desemprego alto se reflete diretamente na queda do consumo, e as empresas já se mostram muito preocupadas com isso.

Por isso tudo, o aumento do PIB no terceiro trimestre, mesmo sendo recorde, não é um dado exatamente a ser comemorado. Pode parecer esquisito, mas, lembre-se, estamos em 2020.

*Editor de Economia

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Ritmo da recuperação econômica em 2021 deve ser ditado pela vacina contra a covid-19

Para analista, principal risco para a atividade econômica no ano que vem é o aumento dos casos da doença

Cícero Cotrim, Altamiro Silva Junior e Ernani Fagundes, O Estado de S.Paulo

03 de dezembro de 2020 | 11h24

O avanço da atividade econômica em todo o mundo no ano que vem está diretamente ligado à vacina contra a covid-19. Os países que conseguirem vacinar primeiro sua população largam na frente nessa disputa pela retomada do crescimento. Mas há uma expectativa de que isso ocorra o mais rápido possível, mesmo no Brasil, onde ainda não está claro qual vacina estará disponível e quando. 

“Acho que a lição que ficou do que estamos vendo na Europa é que o risco de um lockdown horizontal é menor e, ao mesmo tempo, as campanhas de vacinação no mundo estão andando rápido e no Brasil podem acontecer em março ou até antes”, diz Guilherme Loureiro, economista-chefe da Trafalgar Investimentos. Ele espera um crescimento de 4% a 4,5% do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro em 2021, com um programa de vacinação no primeiro trimestre do ano.  

Nesta quinta-feira, 3, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgou que o PIB teve crescimento recorde de 7,7% no terceiro trimestre, resultado que ficou abaixo do esperado pelo mercado financeiro e ainda é insuficiente para recuperar as perdas acumuladas no ano.

Em evento para o lançamento  da carteira do Índice de Sustentabilidade (ISE) para 2021, o presidente da B3, Gilson Finkelsztain, também disse acreditar num ano melhor, com a chegada de uma vacina. “Este ano foi muito diferente, muito desafiador, mas estamos terminando com viés de alta, com a esperança de uma vacina", disse.

A verdade, porém, é que, embora a questão da vacinação esteja avançando em países como a Inglaterra - onde já foi marcada data para o início -, ainda está bem pouco claro quando isso se dará aqui no Brasil. As vacinas com as quais o País tem acordo de compra não estão prontas. Com as que estão mais próximas de serem liberadas para a população no mundo, o governo não tem acordo. Essa indefinição pode ser um entrave ao crescimento. 

Preocupação com aumento dos casos da covid-19

Para Patrícia Krause, economista-chefe da Coface, o principal risco no radar para a atividade econômica brasileira é exatamente um recrudescimento do número de casos de covid que justifique o endurecimento das medidas de distanciamento social. Até agora, ações como as tomadas pelo governo do Estado de São Paulo não são suficientes para criar um tombo na atividade, segundo a economista, mas acendem uma luz amarela.

"Por ora eu acho que o auxílio emergencial não vai ser estendido e nós temos uma melhora da arrecadação pelo lado fiscal, mas existe um risco, principalmente olhando para o primeiro trimestre de 2021", diz a economista. No seu cenário-base, com manutenção do teto dos gastos e fim do benefício emergencial, ela vê um crescimento de 2,8% do PIB no ano que vem. 

De acordo com Alberto Ramos, economista do Goldman Sachs para a América Latina, "a atividade econômica atingiu o piso em abril e, desde então, tem se recuperado em ritmo sólido". A expectativa é que a retomada prossiga nos próximos meses, ajudada por uma série de fatores, entre eles, os estímulos monetários e fiscais, as condições financeiras externas e internas mais favoráveis, a recuperação internacional dos preços das commodities e a retomada do crescimento da economia mundial.

Pelo lado dos riscos, ele destaca que o quadro da pandemia de coronavírus no Brasil ainda é complexo, o mercado de trabalho está deteriorado e medidas emergenciais pelo lado fiscal deverão ser retiradas. Com isso, a atividade vai seguir se recuperando, mas em ritmo menos forte que o observado até agora. O fator que pode ajudar o PIB a ter uma nova aceleração, segundo o economista, é exatamente  a vacinação da população.

Na análise dos economistas do Citi para Brasil, Leonardo Porto e Paulo Lopes, a  covid-19 é a grande incógnita para a recuperação da economia. No curto prazo, há  uma  crescente evidência de uma segunda onda de coronavírus no País, que deve diminuir o fôlego de crescimento de forma significativa no quatro trimestre e no começo de 2021. Mas, pelo lado positivo, a chegada da vacina para o coronavírus, provavelmente no segundo trimestre do ano que vem, pode abrir espaço para a reaceleração da atividade.

 

 

 

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Análise: Sustentabilidade da recuperação da economia depende de reformas fiscais

Dúvida agora é em relação aos possíveis efeitos da alteração das políticas de transferência de renda sobre a demanda e as finanças públicas

José Ronaldo de C. Souza Jr*, O Estado de S.Paulo

03 de dezembro de 2020 | 12h51

A revisão da série do PIB - em função da atualização de pesos de acordo com as contas anuais de 2018 e devido à incorporação de pesquisas estruturais anuais de 2019 e de revisões em pesquisas setoriais primárias - torna difícil a comparação dos dados do terceiro trimestre de 2020 divulgados pelo IBGE com as previsões feitas anteriormente. 

A base de comparação e os pesos se alteraram. Porém os dados deixam claro que a recuperação da economia no período subsequente à forte queda do segundo trimestre foi mais forte do que se imaginava inicialmente.

As políticas públicas de manutenção de renda certamente tiveram importante papel nessa recuperação, que foi puxada pela demanda de bens. O setor de serviços, por questões relacionadas aos riscos de disseminação da covid-19, ainda se encontra muito abaixo do período pré-crise. 

A dúvida agora é justamente em relação aos possíveis efeitos da alteração das políticas de transferência de renda, na virada para o ano de 2021, sobre a demanda e as finanças públicas.

Claramente, não é factível manter, no ano que vem, o patamar deste ano de despesas com medidas de transferência de renda. A alteração da atual dinâmica de crescimento da dívida pública depende da contenção de despesas nos próximos anos, combinada com o crescimento da arrecadação, que viria da recuperação sustentável da atividade econômica. Não é possível ignorar a relevância desse tema devido aos seus impactos sobre o nível de riscos, investimentos e mesmo sobre as contratações formais no mercado de trabalho.

Um caminho que pode ser promissor para essa transição é o de reavaliar as despesas públicas de forma a melhorar a alocação de recursos, aumentando o foco conjunto de políticas voltadas à redução da pobreza e da desigualdade. Assim, seria possível aumentar a eficiência das despesas do governo e dar-se-ia um passo importante na direção da consolidação fiscal de longo prazo.

*Diretor de Estudos e Políticas Macroeconômicas do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) 

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