Marcos Correa/PR
Paulo Guedes, ministro da Economia de Jair Bolsonaro Marcos Correa/PR

Guedes afirma que usou 'imagem infeliz' ao dizer que China inventou vírus da covid

Ministro difundiu teoria bolsonarista sem saber que estava sendo gravado; depois de repercussão negativa, disse que não tinha o objetivo de ofender

Idiana Tomazelli, O Estado de S.Paulo

27 de abril de 2021 | 21h53

BRASÍLIA - Após dizer que “o chinês” criou a covid-19 e ainda produziu vacinas de eficácia mais baixa do que aquelas desenvolvidas por farmacêuticas dos Estados Unidos, o ministro da Economia, Paulo Guedes, fez uma retratação pública e disse que foi “infeliz” em sua declaração. 

Ele ressaltou que foi vacinado com a Coronavac (desenvolvida pelo Instituto Butantan em parceria com o laboratório chinês Sinovac) e disse que o ministro de Relações Exteriores, Carlos Alberto França, vai fazer contato com a embaixada chinesa para desfazer o que, segundo Guedes, foi um “mal entendido”.

O ministro deu a declaração polêmica em uma reunião do Conselho de Saúde Suplementar (Consu) realizada na manhã desta terça-feira, 27. Ele não sabia que estava sendo gravado. A fala ecoa uma teoria bolsonarista sem comprovação, mas difundida nas redes sociais, de que a China desenvolveu o vírus da covid-19 em laboratório com interesses econômicos.

“O chinês inventou o vírus e a vacina dele é menos efetiva que a do americano. O americano tem 100 anos de investimento em pesquisa. Os caras falam: qual é o vírus? É esse? Tá bom. Decodifica. Tá aqui a vacina da Pfizer. É melhor que as outras. Então vamos acreditar no setor privado”, disse o ministro da Economia.

Mais tarde, ao falar à imprensa para anunciar mudanças em sua equipe, Guedes aproveitou para se retratar. “Hoje usei uma imagem infeliz”, afirmou o ministro, que argumentou estar falando sobre “como é importante que setor privado colabore no combate à pandemia”. “É uma imagem que não tinha nenhum objetivo (de ofender)”, acrescentou.

Segundo Guedes, é sabido que o vírus veio de uma região da China – os primeiros casos foram detectados em Wuhan, ainda no fim de 2019 – e, portanto, a população já havia sido exposta à doença. “Foi nesse sentido que eu disse, um vírus que vem de fora e atinge economia de mercado”, disse. “Quis mostrar a importância do setor privado, de como consegue produzir respostas.”

O ministro disse ser “grato” à China por ter enviado a vacina ao Brasil e ressaltou que foi imunizado com a Coronavac. Ele tomou a primeira dose em 27 de março, e a segunda, no último domingo, 25. “Somos muito gratos à China por ter enviado a vacina”

Após as declarações de Guedes na reunião do Consu, o embaixador da China no Brasil, Yang Wanming, apontou que seu país é o principal fornecedor de imunizantes e insumos ao governo brasileiro. Sem citar o ministro, o diplomata escreveu em sua conta no Twitter que as vacinas e os ingredientes farmacêuticos ativos (IFAs) produzidos na China respondem por 95% do total recebido pelo Brasil.

Diante do potencial impacto nas relações entre os países, o ministro da Economia informou que foi avisado por Bolsonaro que França entraria em contato com chineses para “tirar mal entendido”.

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Guedes diz que 'chinês' criou vírus da covid-19 e desenvolve vacinas piores que as dos EUA

Fala de Guedes ocorreu durante reunião do Conselho de Saúde Suplementar (Consu) e ecoa uma teoria bolsonarista difundida nas redes sociais; ministro não sabia que era gravado

Mateus Vargas, O Estado de S.Paulo

27 de abril de 2021 | 15h51

BRASÍLIA – Sem saber que era gravado, o ministro da Economia, Paulo Guedes, disse nesta terça-feira, 27, que "o chinês" criou a covid-19 e ainda produziu vacinas de eficácia mais baixa do que aquelas desenvolvidas por farmacêuticas dos Estados Unidos. A fala de Guedes, durante reunião do Conselho de Saúde Suplementar (Consu), ecoa uma teoria bolsonarista difundida nas redes sociais de que a China desenvolveu o vírus em laboratório com interesses econômicos.

"O chinês inventou o vírus e a vacina dele é menos efetiva que a do americano. O americano tem 100 anos de investimento em pesquisa. Os caras falam: qual é o vírus? É esse? Tá bom. Decodifica. Tá aqui a vacina da Pfizer. É melhor que as outras. Então vamos acreditar no setor privado", disse o ministro da Economia. 

A Organização Mundial da Saúde (OMS) já desmentiu a teoria de que o coronavírus saiu de laboratório, esclarecendo que o patógeno é de origem animal.

Além de Guedes, também estavam na reunião do conselho os ministros da Casa Civil, Luiz Eduardo Ramos, da Saúde, Marcelo Queiroga, e da Justiça, Anderson Torres, além de representantes da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS). Nenhum dos dois ministros, incluindo o da Saúde, corrigiu Guedes.

Parte da reunião foi transmitida em redes sociais do Ministério da Saúde. O vídeo foi interrompido após os ministros perceberem a gravação. As imagens não estão mais disponíveis. Críticas semelhantes às feitas por Guedes levaram à queda de Ernesto Araújo do Ministério de Relações Exteriores. Ele ficou inviabilizado por prejudicar as relações com os chineses, principalmente no momento em que o País depende de vacinas e matérias-primas dos asiáticos. 

Ramos disse que se vacinou, em Brasília, com a dose de Oxford/AstraZeneca. Questionado por Guedes se a vacina recebida não foi a Coronavac, Ramos reforçou que não. Disse ainda que se vacinou "escondido", mas a informação "vazou". O governo não havia divulgado que o ministro recebeu a vacina. O produto desenvolvido pelo laboratório chinês Sinovac e entregue no Brasil pelo Instituto Butantan, órgão ligado ao governo de São Paulo.

As falas dos ministros ocorrem no momento em que o Senado realizava a primeira reunião da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Covid, que vai investigar atrasos do governo federal na aquisição de imunizantes.

Além disso, o Brasil é dependente da importação de insumos farmacêuticos ativos da China para a produção tanto da Coronavac como da vacina de Oxford/AstraZeneca, na Fiocruz. Polêmicas  com os chineses envolvendo o ex-ministro das Relações Exteriores Ernesto Araújo foram apontadas como motivo para atraso do envio de produtos ao País.   

Ao citar a China, Guedes defendia que o setor público é menos eficaz que o privado. O ministro disse que o Sistema Único de Saúde (SUS) não deve dar conta de atender a população nos próximos anos e comparou este cenário com o da educação. Ele afirmou que percebeu, anos atrás, que o governo estava falhando e decidiu investir na educação privada. “Eu prevejo o mesmo para saúde”, disse titular da Economia. 

Na sequência, o ministro afirmou que há "duas formas de ajudar o pobre". A primeira, na visão de Guedes, seria "direto na veia", em referência ao auxílio emergencial. O outro caminho é a "forma antiga de Brasília", mais indireta, com empréstimo de recurso a banco público, que passaria por outros intermediários até chegar na população. "Um dia, dos R$ 100 que você emprestou, chega R$ 1 no pobre", afirmou o ministro sem saber que a conversa era transmitida.

Para ilustrar a suposta crise na educação pública, Guedes disse que as universidades ensinam “Paulo Freire, sexo para criança de 5 anos” e que há maconha e bebidas nas unidades de ensino mantidas pelo governo.

Ao defender novo caminho para o financiamento da saúde, Guedes disse que um "voucher" poderia ser distribuído para a população usar até mesmo hospitais privados. "Você é pobre? Você está doente? Está aqui seu voucher. Vai no Einsten se você quiser", afirmou o ministro, em referência ao Hospital Israelita Albert Einstein, em São Paulo.

Já Ramos disse que tem estimulado o presidente Jair Bolsonaro a se vacinar. Aos 66 anos, Bolsonaro poderia se vacinar desde o começo de abril, quando o DF passou a distribuir doses para o público desta idade. Guedes, que tem 71, foi vacinado no mês passado, com a Coronavac.

O ministro da Casa Civil demonstrou preocupação com o avanço da covid-19. Ele disse que pessoas próximas têm sido vítimas da doença e que teme pela saúde de Bolsonaro. Segundo apurou o Estadão, Ramos disse que não pode "perder" Bolsonaro para "um vírus desse". 

Bolsonaro disse que não compraria vacina

Ao aprovar o uso do imunizante chinês no Brasil, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) apontou que a vacina é segura. Bolsonaro, porém, já desacreditou a Coronavac e disse que não compraria o produto pela origem chinesa. “Da China nós não compraremos. É decisão minha. Não acredito que ela transmita segurança suficiente a população pela sua origem, esse é o pensamento nosso", disse Bolsonaro, em 21 de outubro, em entrevista à Jovem Pan. 

Segundo dados do Ministério da Saúde, mais de 70% das 57,9 milhões de doses de vacinas entregues no Brasil até agora são da Coronavac. Além disso, o insumo usado pela Fiocruz para produzir a vacina de Oxford/AstraZeneca é importado da China. 

Procuradas, Casa Civil, Economia e embaixada chinesa ainda não se manifestaram. 

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