Dida Sampaio/Estadão
O ministro da Economia, Paulo Guedes.  Dida Sampaio/Estadão

Guedes contesta números de desemprego e diz que IBGE está na 'idade da pedra lascada'

Ministro compara pesquisas diferentes - Pnad Contínua e Caged - para dizer que números do IBGE não refletem a realidade

Bruno Villas Bôas, O Estado de S.Paulo

30 de julho de 2021 | 12h40

RIO - Pouco após o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) informar nesta sexta-feira, 30, que a taxa de desemprego ficou em 14,6% no trimestre móvel terminado em maio, com 14,795 milhões de desempregados, ainda nas máximas históricas, o ministro da Economia, Paulo Guedes, atacou o órgão, subordinado à sua pasta. Guedes disse que o IBGE vive na “idade da pedra lascada”, ao criticar sua metodologia para retratar o mercado de trabalho.

Os números do IBGE mostram que o mercado de trabalho segue como uma das maiores preocupações da economia brasileira. O desemprego cresceu com mais pessoas em busca de uma ocupação, já que a evolução da população ocupada aponta para a criação de vagas, ainda que em ritmo insuficiente. Na critica, Guedes olhou apenas para os dados do emprego formal, divulgados pelo Ministério da Economia na quinta-feira, 29, apontando a geração de 1,5 milhão de vagas no primeiro semestre

“A Pnad do IBGE está metodologicamente atrasada, é uma pesquisa feita pelo telefone. É muito superior a metodologia do Caged, que vem diretamente das empresas”, disse Guedes, após participar de evento na sede do ministério no Rio. “Ele (o IBGE) ainda está na idade da pedra lascada, baseado em métodos que não são os mais eficientes. Temos as informações diretas da empresa”, completou o ministro.

A assessoria de imprensa do IBGE disse que o órgão não comentaria a crítica, refutada por economistas especializados e ex-presidentes do instituto. Na crítica, o ministro comparou duas pesquisas diferentes. O Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) é um registro administrativo de demissões e admissões com carteira assinada – quando as contratações superam as dispensas, há criação de vagas. Já a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad Contínua), do IBGE, mapeia o emprego formal e informal e também o desemprego, que não é medido no Caged. Segundo a Pnad, o Brasil tem 34,712 milhões de trabalhadores informais, 40% do total.  

“A diferença é uma coisa muito óbvia, o Caged mede apenas o trabalho formal”, disse Simon Schwartzman, presidente do IBGE no primeiro governo Fernando Henrique Cardoso.

Para Roberto Olinto, que presidiu o órgão de estatística do governo Michel Temer até o início do governo Jair Bolsonaro, a crítica de Guedes é “inaceitável”, “leviana” e não passa de uma “declaração política”, como outros “ataques” do governo federal a “instituições técnicas e científicas”. Segundo Olinto, o ministro cita o Caged porque os dados são mais positivos.

“Voltamos à velha questão de quebrar o termômetro”, afirmou Olinto, ressaltando que “as comparações com o Caged são mais do que explicadas em estudos de dentro e de fora do IBGE”.

Guedes pegou carona num debate técnico sobre como a pandemia atrapalhou, de forma inédita, tanto o mercado de trabalho em si quanto a produção de informações sobre ele. Estudos de economistas especializados sugerem que, de um lado, a Pnad, ao passar a ser feita por telefone, pode estar subestimando o emprego formal e, de outro, o Caged pode estar superestimando a criação de vagas

Os números do Caged podem sofrer influência dos programas de suspensão de contratos de trabalho, da falência e da hibernação de empresas durante a pandemia, o que pode levar a falhas na informação de desligamentos de funcionários, segundo economistas. No caso da Pnad Contínua, o próprio IBGE já reconheceu problemas e apontou as dificuldades de fazer as entrevistas por telefone, mas prometeu fazer ajustes, inclusive nas séries históricas

Só que isso não muda a percepção sobre as dificuldades do mercado de trabalho. A geração de empregos insuficiente vem mantendo o desemprego em níveis recordes. Segundo a Pnad, a taxa de desocupação de 14,6% no trimestre móvel até maio, com 14,795 milhões de desempregados, nas máximas históricas, sobe para 29,3%, incluindo desalentados (que simplesmente desistiram de procurar emprego) e subocupados (que trabalham menos do que gostariam). Está faltando trabalho para 32,946 milhões no País, o equivalente às populações de Angola ou da Malásia.

O desemprego se manteve em níveis recordes porque mais pessoas estão em busca de uma ocupação. Um ano atrás, a taxa de desemprego estava em 12,9%. Segundo Adriana Beringuy, analista da Coordenação de Trabalho e Rendimento do IBGE, a alta se deve a uma particularidade da crise da covid-19. Num primeiro momento da pandemia, trabalhadores que perderam seus empregos, formais ou informais, ficaram em casa, sem procurar trabalho, por causa das restrições ao contato social. Pelas metodologias internacionais seguidas pelo IBGE, só é considerado desempregado quem busca emprego.

“Muitas pessoas, embora não estivessem trabalhando, não estavam procurando”, afirmou Adriana.

Com a passagem do tempo, a flexibilização das medidas de restrição ao contato social e a necessidade de buscar renda levaram os trabalhadores a voltar ao mercado, buscando emprego ativamente. Ou seja, o desemprego não está nas máximas históricas por causa de mais demissões. Pelo contrário, a evolução da população ocupada aponta para a criação de 840 mil vagas, entre formais e informais em um ano. A expectativa de economistas é de que o desemprego recue no segundo semestre, com o avanço da vacinação favorecendo a retomada da atividade econômica, mas o País ainda deve conviver com níveis de desocupação altos por bastante tempo.

“À medida que a economia vai retomando, a demanda por emprego aumenta, mas a volta da atividade econômica também gera um aumento da demanda por parte dos trabalhadores. Tem um período no qual a taxa vai ficar basicamente parada e, daqui a pouco, ela começa a cair”, disse José Márcio Camargo, economista-chefe da Genial Investimentos, prevendo a queda da taxa de desemprego a um nível entre 12,5% e 13% no fim de 2021.

Apesar do cenário de melhora gradual, o total de ocupados ainda aponta para o corte de 7,7 milhões de vagas na comparação com o quadro anterior à pandemia. Na virada de 2019 para 2020, o total de ocupados oscilava entre 94 milhões e 94,5 milhões. Agora, são 86,7 milhões. Em nota, o economista Rodolfo Margato, da XP Investimentos, previu que a população ocupada só deverá retornar ao nível pré-pandemia no terceiro trimestre de 2022.

Daniel Xavier, economista-sênior do banco ABC Brasil, também vê a redução do desemprego como um movimento gradual. Para o ano que vem, por exemplo, ele estima uma taxa de desocupação de 12,5% no último trimestre e média do ano em torno de 13%. A economista Lisandra Barbero, do Banco Original, espera taxa de desemprego média de 14,0% em 2022. Ela está mais pessimista porque o avanço da vacinação e a reabertura da economia podem levar o crescimento do número de trabalhadores em busca de emprego a um ritmo superior ao da geração de vagas. / COLABORARAM GUILHERME BIANCHINI E CÍCERO COTRIM

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Desemprego fica em 14,6% e número de desocupados se mantém em 14,8 milhões, aponta IBGE

Dados divulgados pelo IBGE indicam que desemprego atingiu 14,8 milhões de pessoas no trimestre encerrado em maio, nível ainda recorde

Redação, O Estado de S.Paulo

30 de julho de 2021 | 09h24
Atualizado 30 de julho de 2021 | 19h02

Os números divulgados nesta sexta-feira, 30, pelo IBGE mostram que o desemprego segue como uma das maiores preocupações quando se fala em atividade econômica no País. No trimestre encerrado em maio, a taxa de desocupação ficou em 14,6%, apenas 0,1 ponto abaixo do nível registrado em abril.

No período, 14,8 milhões de pessoas estavam em busca de uma vaga, número recorde já registrado no período anterior. Somando-se também os desalentados (que simplesmente desistiram de procurar emprego) e os subocupados (que trabalham menos do que gostariam), está faltando trabalho para nada menos que 32,94 milhões de pessoas.

 

As expectativas dos economistas são de que o número de desempregados recue no segundo semestre, com o avanço da vacinação favorecendo a retomada da atividade econômica. Mas o País ainda deve conviver com níveis de desocupação altos por bastante tempo.

"À medida que a economia vai retomando, a demanda por emprego aumenta, mas a volta da atividade econômica também gera um aumento da demanda por parte dos trabalhadores. Tem um período no qual a taxa vai ficar basicamente parada e, daqui a pouco, ela começa a cair", diz José Márcio Camargo, economista-chefe da Genial Investimentos. Ele prevê queda da taxa a um nível entre 12,5% e 13% no fim de 2021. 

 

Para Daniel Xavier, economista-sênior do banco ABC Brasil, esse movimento de redução do desemprego deve se dar de forma gradual. Para o ano que vem, por exemplo, ele estima uma taxa de desocupação de 12,5% no último trimestre e média do ano em torno de 13%, em um cenário de crescimento de 3% do PIB. Para o analista, o desemprego médio do ano só deve convergir para a taxa de equilíbrio - calculada entre 9% e 9,5% - a partir de 2024. 

Segundo os dados do IBGE, a população ocupada atingiu 86,7 milhões. No caso dos desalentados, o número ficou em 5,7 milhões de indivíduos. A renda média real do trabalhador foi de R$ 2.547,00 no período. Já a massa de renda real habitual paga aos ocupados somou R$ 215,5 bilhões. / VINÍCIUS NEDER, FELIPE SIQUEIRA E CÍCERO COTRIM

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Com 14,8 milhões de desempregados, dificuldade em arrumar trabalho força brasileiro a se adaptar

Dados divulgados pelo IBGE nesta sexta-feira mostram que cenário de emprego do País tem desocupação atingindo taxa de 14,6%

Maiara Santiago e Érika Motoda, O Estado de S.Paulo

30 de julho de 2021 | 11h00

O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgou nesta sexta-feira, 30, que a taxa de desocupação no País alcançou 14,6% no trimestre encerrado em maio de 2021, mantendo os 14,8 milhões de desempregados constatados na medição do trimestre finalizado em abril. Com isso, o cenário é de adaptação forçada, principalmente, para quem perdeu o emprego por conta da pandemia do novo coronavírus, causador da covid-19

Este foi o caso de Mariane da Silva Carvalho, de 33 anos. Ela trabalhava como cozinheira e "bartender" para uma empresa terceirizada que prestava serviços para o resort Costa do Sauípe, na Bahia. Ela conta que já estava neste emprego há dois anos e sete meses e ficou muito triste com a notícia do desligamento. "Fazíamos os clientes ficarem felizes." 

Paulistana e sem família na Bahia, ela precisou voltar para São Paulo junto ao filho, que fez cinco anos neste mês de julho. O pequeno tem asma e problema de refluxo. "Os medicamentos para asma consigo na rede pública, mas os de refluxo preciso comprar", diz Mariane. Para equilibrar as despesas, ela conta com o auxílio emergencial, que recebe desde o ano passado, e um auxílio merenda, que é dado pela escola. Morando em Paraisópolis, doações feitas por instituições à comunidade também ajudam a passar o mês. 

Desde a demissão, Mariane não parou de procurar emprego. Porém, ela ressalta que sofre preconceito no mercado de trabalho por ter criança pequena, como aconteceu em um processo seletivo ainda na Bahia. "Me perguntaram se tinha filho e se ele sofria com alguma condição médica. Eu disse que sim. Imediatamente, o contratante pediu desculpas e falou que eu não iria ter tempo integral para o trabalho", conta.

E as oportunidades são escassas. Mesmo quando faz entrevistas pessoais, ela diz que as respostas são incertas. "É sempre algo na linha de 'vou te ligar, te aviso'. Bate aquela tristeza, pois gasto até mesmo o que não tenho para imprimir currículos e pagar passagens." Ela também critica a necessidade de indicação para muitas propostas e até mesmo para alguns bicos, como de diarista ou cozinheira. "Uma empresa uma vez me disse que não contrataria sem indicação."

Sempre que sai para procurar emprego, ela precisa deixar o filho com a mãe, que sofre com problema de coração, e o pai, que é deficiente visual. Ambos já estão vacinados contra a covid. Mariane também é hipertensa e já se vacinou com a primeira dose. Porém, mesmo com a volta às aulas, o filho ainda não poderá ir para escola, já que sofre de asma. "Como posso deixar ele com outras crianças?" 

Mariane conta ainda que, recentemente, com a reabertura e o avanço da vacinação, recebeu uma proposta para voltar ao antigo posto, mas se mudar agora para a Bahia seria inviável. "Não tenho família lá e precisaria de algum dinheiro para me manter por pelo menos dois meses, até me estabilizar", diz. Nesse meio tempo, ela tem feito alguns cursos técnicos gratuitos, como de administração e recursos humanos, para não ficar parada. "Fiquei muito tempo fora do mercado de São Paulo, mas vou manter a esperança", finaliza. 

Diferentemente de Mariane, José Matias Vicente Júnior, de 20 anos, nunca teve emprego registrado em carteira. Ele está à procura da primeira vaga. Morador da Cidade Ademar, na zona sul de São Paulo, ele tem se sentido prejudicado pelo momento atual. Dedicado aos estudos, assim que terminou o ensino médio, ele não se preocupou imediatamente em procurar um emprego. Pelo Enem, pegou uma bolsa de estudos parcial para cursar engenharia de controle e automação, mas trancou o curso logo no começo, com menos de um ano. 

"Estava pensando no presente, e não no futuro", diz, ao analisar a decisão de largar a faculdade. Ele mora com o pai, de 61 anos, que trabalha assentando pedra, e conta que buscava por renda e estabilidade na época, por meio de carteira assinada ou concurso, mas a oportunidade não veio - e a pandemia deixou o cenário ainda mais difícil. "Isso tem um peso muito grande. Penso no meu pai, que já tem idade, faz um trabalho pesado. Poderia estar ajudando ele", diz. 

No período de maior crise, no ano passado, a renda da família foi complementada pelo auxílio emergencial do pai e por bicos que Vicente Júnior faz. "Meu primo tem vidraçaria, então ajudo quando ele precisa. Também apoio meu pai nos trabalhos dele", conta. Recentemente, ele começou um pequeno negócio, vendendo camisetas por meio de plataformas na internet, como Mercado Livre e Shopee. "Trabalho por encomenda. Ainda está no começo, mas espero conseguir alguma renda. Não podemos ficar parados."

O jovem também não deixou de lado a vontade de entrar no mercado de trabalho. Todo dia, ele segue uma rotina de estudos, uma forma de se preparar para futuros concursos. "Me inscrevo em todos que abrem e costumo ir muito bem nas primeiras fases, mas caio nas seguintes". A  carteira assinada continua sendo um sonho. "Tenho contas em vários sites de vagas, mas as respostas quase sempre são automáticas e negativas." Assim como muitos que buscam uma colocação, ele demonstra flexibilidade e disposição. "Não quero me limitar, quero uma oportunidade e crescer em cima dela", aponta.

Porém, Vicente Júnior critica as oportunidades de vagas. "As empresas buscam profissionais graduados, com inglês fluente e experiência, eles querem você grande, mesmo que o cargo seja de nível mais baixo. Sem contar que as oportunidades mais simples parecem estar mais escassas, é como se as novas vagas movimentassem quem está no topo e não a base que precisa muito de emprego e movimenta a economia", aponta. Ele ainda menciona o fator indicação, "que acaba atrapalhando as pessoas que têm bom potencial, mas sem as conexões certas."

Apesar das dificuldades de quem busca o primeiro emprego, ele tenta se manter positivo. "Com base no trabalho do meu pai, cuja demanda aumentou, já posso sentir uma possível melhora em 2021, na comparação com o ano passado. É preciso ter paciência, as boas oportunidades sempre surgem para quem não desiste", conclui. 

Já Alexandre dos Santos Verçosa, de 35 anos, é barbeiro, e notou significativa mudança no número de clientes. Quando essa quantidade começou a cair por causa da pandemia, logo no ano passado, ele parou de alugar uma cadeira no salão onde trabalhava e fez uma vaquinha online para arrecadar dinheiro e comprar os próprios equipamentos para atender os clientes a domicílio. 

“Alugar uma cadeira” significa que, se o corte de cabelo custava R$ 50, Verçosa pagava R$ 30 ao estabelecimento, que eventualmente fechou. “Muitas pessoas ajudaram com a vaquinha, mas não deu para comprar todos os equipamentos que eu precisava. Uma parte do dinheiro eu também usei para me manter”, contou ele, que mora em um apartamento do Minha Casa Minha Vida no Rio de Janeiro, com a mãe e o irmão.

“Os cortes têm caído bastante, e não tenho outro trabalho. Nossa única fonte de renda é a minha mãe, única que trabalha de carteira assinada, como babá. Nossa prioridade tem sido a cesta básica e as contas. Ela tenta quitar o arrendamento do apartamento há 10 anos, mas nunca consegue. A gente paga as contas, e o dinheiro acaba em uma semana. Tem sido bem difícil, as coisas estão cada vez mais caras no mercado.”

Também por causa da pandemia, Verçosa teve de trancar o curso de Defesa e Gestão Estratégica Internacional, na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Ele estava no segundo semestre. “Estou sem computador, o teclado não funciona e a internet na zona oeste do Rio é bem complicada. E também porque eu precisava muito fazer os cortes de cabelo. Geralmente as pessoas queriam cortar à noite, depois do trabalho, e era o horário das aulas.”  / COLABOROU FELIPE SIQUEIRA 

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.