Adriano Machado/Reuters - 06/06/2022
Adriano Machado/Reuters - 06/06/2022

Guedes defende gastos de 'PEC Kamikaze' e diz a investidores que 'fiscal está forte'

“Se há fome e as pessoas estão cozinhando com lenha, o programa não é eleitoreiro”, afirmou o ministro

Adriana Fernandes, O Estado de S.Paulo

14 de julho de 2022 | 12h10

BRASÍLIA - No dia seguinte à aprovação da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que amplia e cria novos benefícios sociais até o final do ano, o ministro da Economia, Paulo Guedes, atacou os críticos das medidas de serem politicamente enviesados e tentou tranquilizar os investidores de que não há desequilíbrio fiscal com o aumento dos gastos.

Em pronunciamento virtual, o ministro disse que a PEC não é eleitoreira porque há pessoas com fome e cozinhando com lenha e que os críticos fazem “politização da tragédia”. Ele agradeceu aos parlamentares por terem aprovado a proposta e disse que o Congresso está moderando as demandas políticas e apoiando uma exigência da opinião pública ao aumentar os auxílios.

“O fiscal está forte. Quero tranquilizar os analistas preparados e que não estão politicamente enviesados”, afirmou. Ao rechaçar avaliação de que a PEC representava populismo fiscal, o ministro disse que estava se dirigindo aos analistas preparados tecnicamente e não os que fazem militância partidária.  

Ele chegou a falar em “sabotagem” quando se está lutando para resolver os problemas que a própria opinião pública e mídia estavam apontando, como o aumento da fome. “Se há fome e as pessoas estão cozinhando com lenha, o programa não é eleitoreiro”, afirmou. Para ele, é "fake news chamar" de populismo fiscal as medidas que estão sendo adotadas.

Guedes falou antes do início de uma entrevista do Ministério da Economia para apresentação de novas previsões para os principais indicadores econômicos do Brasil. A imprensa não pode fazer perguntas.

A estimativa de alta do Produto Interno Bruto (PIB) deste ano subiu de 1,5% para 2%. Para 2023, na contramão do mercado financeiro que vê desaceleração da atividade econômica, o governo prevê crescimento mais robusto de 2,5%.

Na fala, Guedes rebateu também o nome de 'PEC Kamikaze' e disse que o texto aprovado deve ser chamado de PEC das bondades. Ele ponderou que a PEC seria 'kamikaze' se a proposta de criação de um fundo de estabilização para segurar os preços do petróleo fosse aprovada. O custo, segundo ele, seria de R$ 180 bilhões desde o ano passado.  

“Estamos seguros que fizemos o certo. Quem não tem preparo técnico ou está com militância política não vai entender nunca as diferenças”, ao comentar a percepção de risco fiscal. “Esse dinheiro ia e não voltava mais. Seria um saco sem fundo. Era três ou quatro vezes (o que está sendo gasto), daí o nome kamikaze”, ponderou.

Apesar da fala de Guedes, o Estadão mostrou que os investidores aumentaram a percepção de risco do Brasil, desde o início da tramitação da PEC. O mercado está cobrando mais para comprar os papéis do Tesouro. Os juros reais de longo prazo com vencimento estão com taxas superiores a 6% (acima da inflação), maior patamar do governo Bolsonaro em mesmo nível do final do primeiro mandato da ex-presidente Dilma Rousseff, quando ela tentava a reeleição. Mesmo com juros altos, a demanda pelos papéis está fraca com os investidores arredios.

Na tentativa de mostrar força do processo de melhoria das contas públicas, o ministro disse que arrecadação continua alta e que impacto líquido do aumento de gastos será zero porque há um aumento de receitas extraordinárias no valor de R$ 57 bilhões, enquanto o custo da PEC é de R$ 41,2 bilhões mais R$ 16 bilhões de desoneração de tributos federais.

O ministro citou dados que mostram que as contas do setor público consolidado registraram superávit no ano passado e as do governo federal ficaram com saldo próximo de zero. Ele chamou de “nuvem de gafanhoto” os que quebraram as estatais no passado.

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