José Cruz/Agência Brasil
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Guedes cede à ala política do governo e promove dança das cadeiras no ministério

Sob pressão do Centrão, ministro da Economia substituiu secretário da Fazenda e reestruturou seu time para tentar melhorar a articulação da equipe, que foi desgastada pela crise do Orçamento

Adriana Fernandes e Idiana Tomazelli, O Estado de S.Paulo

27 de abril de 2021 | 11h07
Atualizado 28 de abril de 2021 | 08h52

BRASÍLIA - Sob pressão das lideranças do Centrão para o desmembramento do seu superministério da Economia, o ministro Paulo Guedes disparou nesta terça-feira, 27, um processo interno de reformulação em postos-chave da sua equipe após o desgaste da crise política para a sanção do Orçamento de 2021. As mudanças podem ajudar a diminuir o bombardeio vindo do Congresso e do próprio governo no rastro do impasse provocado pela aprovação da lei orçamentária.

As trocas – pelo menos quatro até agora – já estavam sendo planejadas antes do acordo para a sanção do Orçamento, mas foram aceleradas depois da repercussão negativa na Esplanada com o forte bloqueio de despesas em todos os ministérios para manter recursos para emendas parlamentares, verbas destinadas por deputados e senadores aos seus redutos eleitorais. O intuito da dança das cadeiras é melhorar a articulação da equipe econômica.

As principais mudanças vão ocorrer na área fiscal. Guedes vai substituir o secretário especial de Fazenda, Waldery Rodrigues, alvo de críticas dentro do governo e dos líderes governistas no Congresso. Lideranças políticas criticavam o time de Guedes como fraco, depois da “debandada” dos principais nomes, para buscar a divisão do seu ministério.

Para o lugar de Waldery, o escolhido foi o atual secretário do Tesouro, Bruno Funchal, um técnico considerado firme na defesa das regras fiscais, porém, aberto ao diálogo e à maior transparência nas negociações.

“O que está acontecendo é remanejamento da equipe justamente para facilitar negociações com Congresso”, disse Guedes na portaria do ministério a jornalistas no fim do dia. Segundo o ministro, Waldery deve assumir o cargo de assessor especial..

Na estrutura do ministério, Funchal era subordinado de Waldery, que pretendia ficar no cargo até o final de junho, mas deve sair antes com a antecipação da reforma na equipe econômica. Como a área comandada por Waldery foi uma das mais ferrenhas defensoras do ajuste no Orçamento por conta da maquiagem em despesas obrigatórias, a escolha de Funchal, um defensor do rigor das regras fiscais dentro da equipe, procurou sinalizar que não há risco de mudança de rota na política fiscal.

O secretário de Orçamento Federal (SOF), George Soares, também vai deixar o cargo. Ele é subordinado a Waldery. Os dois tiveram vários atritos nos últimos meses. Na crise do Orçamento, o clima piorou. O secretário sofreu desgaste na discussão do Orçamento e pediu para sair do cargo.

Antes mesmo da aprovação do Orçamento com manobras para aumentar as emendas, a cabeça de George já tinha sido pedida por ministros palacianos e lideranças do Centrão, irritados com tantas restrições e regras fiscais apontadas pelo secretário. Soares era um dos principais expoentes do grupo técnico que ameaçava com “apagão de canetas” se as regras fiscais não fossem respeitadas.

Ele será substituído por Ariosto Antunes Culau, um quadro técnico de grande experiência na área orçamentária com passagem em vários postos pela Esplanada, inclusive no mesmo cargo na época que o Ministério do Planejamento existia. 

A condução do processo pelo atual secretário foi muito criticada pela ala política, mas o trabalho de Waldery também costumava ser alvo de outras áreas dentro do Ministério da Economia, que reclamam que as decisões importantes “travam” na Fazenda.

Cartão vermelho

O atual secretário especial de Fazenda já esteve na mira do presidente Jair Bolsonaro no ano passado, quando defendeu congelar aposentadorias e mexer no seguro-desemprego para liberar recursos ao Renda Brasil, como era chamada a proposta de reformulação dos programas sociais. Na época, Bolsonaro ameaçou dar “cartão vermelho” a Waldery e já chegou a pedir a cabeça do secretário. Desde aquela época, o secretário silenciou e evitou polêmicas.

Para o lugar de Funchal no Tesouro, Guedes, pode buscar um nome dentro da própria pasta. Jeferson Bittencourt, assessor especial de Relações Institucionais, é cotado para assumir o cargo. Bittencourt é servidor de carreira do Tesouro e um dos principais especialistas na área fiscal do Ministério.

A troca no Tesouro e na Fazenda não é a única dentro do Ministério da Economia. A secretária especial do Programa de Parcerias de Investimentos (PPI), Martha Seillier, também deve deixar o comando da área nos próximos dias. Ela deve assumir um cargo no Banco Mundial e o PPI voltará a ser vinculado ao Palácio do Planalto – hoje, ele está dentro da estrutura do Ministério da Economia.

A assessora especial para reforma tributária, Vanessa Canado, vai deixar a equipe de Guedes. O economista Isaías Coelho vai assumir o lugar de Vanessa. Ele já vinha participando dos debates das propostas na área tributária na Economia.

Ainda está de saída a secretária especial adjunta de Comércio Exterior do Ministério da Economia, Yana Dumaresq. Ela deve ser substituída pelo atual subsecretário adjunto de Negociações Internacionais da pasta, João Rossi. De acordo com fontes, Yana comunicou a equipe que deixaria o governo para seguir para a iniciativa privada.

Para o economista-chefe da XP, Caio Megale, as mudanças na área fiscal são saudáveis e a renovação foi feita por nomes considerados bons. “Esses cargos tem prazo de validade. Na Fazenda é muito difícil, tem que dizer não, é importante ter uma passada de bastão. Vai ser saudável”, disse Megale, que já trabalhou na equipe de Guedes. /COLABORARAM ANNE WARTH E LORENNA RODRIGUES

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