Adriano Machado/ Reuters
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Guedes diz que coronavírus pode reduzir PIB em até 1 ponto porcentual

Ministro da Economia acredita que se o impacto vírus foi de cinco a sete meses, a economia do País se 'recupera e volta'; ele pediu a aprovação rápida da agenda econômica e a rediscussão do Orçamento

Idiana Tomazelli, Camila Turtelli, Julia Linder e Jussara Soares, O Estado de S.Paulo

11 de março de 2020 | 22h14

BRASÍLIA - O ministro da Economia, Paulo Guedes, disse que o novo coronavírus pode reduzir o Produto Interno Bruto (PIB) do País para uma queda de 0,1 a 1 ponto porcentual em um cenário leve a grave, respectivamente. O comentário foi feito em uma reunião de urgência realizada na noite desta quarta-feira com lideranças do Congresso. O Estadão/Broadcast teve acesso ao áudio do encontro. 

Guedes disse que se o impacto vírus foi de cinco a sete meses, a economia do País “recupera e volta”. Ele pediu a aprovação rápida da agenda econômica e sugeriu rediscutir o Orçamento da saúde. Para ele, a doença é grave, mas o Brasil tem capacidade para crescer.

O ministro defendeu ainda descentralizar recursos e a aprovação do pacto federativo para agilizar a ação de Estados e prefeituras no combate ao vírus. Ele destacou o diálogo entre governo e Legislativo sobre reforma tributária e a PEC emergencial (que permite, entre outras coisas, reduzir salários de servidores públicos). Guedes disse, durante a reunião, que o Brasil tem “espaço monetário (para reduzir os juros básicos e incrementar o crédito), mas não tem espaço fiscal”, ainda segundo parlamentares.

O presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), também presente ao encontro, cobrou de Guedes respostas para o curto prazo e disse que o Congresso vai continuar apoiando reformas. Vários deputados cobraram Guedes para respostas a curto prazo para empresas que poderão ser afetadas pelo coronavírus, incluindo as de aviação. 

Para o presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, é preciso observar o impacto do avanço do novo coronavirus sobre o PIB de serviços, que responde por mais de dois terços da renda gerada no País. Segundo fontes presentes na reunião, Campos Neto disse que é "importante olhar quando as pessoas param de viajar". Ele lembrou ainda que o PIB de serviços "é afetado de forma diferente" e tem "recuperação mais lenta". 

Guedes disse que se houver impacto forte da crise sobre o PIB de serviços, isso levará o governo a "reagir soltando recursos especiais". O ministro, porém, fez questão de ressaltar que os bancos públicos já "dispararam" linhas de crédito para assegurar capital de giro a pequenas e médias empresas. "Grande (empresa) se vira, pequenas e médias é que sofrem. Não queremos que eles percam capital de giro e colapsem a economia de serviços. Tem que ter crédito, sustentação, estamos trabalhando (nisso)", afirmou.

Guedes disse que o impacto econômico vai depender de como os agentes reagirem e que esse é um cenário ainda incerto. "Não sabemos ainda como sera reação", disse. "Se continuarmos nossas formas de vida, a economia resiste um pouco mais, e a contaminação aumenta. Se mudarmos nosso comportamento, contaminação desce, mas economia afunda junto", acrescentou.

"Se impacto for muito forte teremos que entrar com esse tipo de medida (estímulos)", disse Guedes. O ministro disse que o governo está "flexível" diante da situação do coronavírus e que pode fazer algo mais profundo. Guedes sugeriu como hipótese a suspensão do pagamento de juros de Estados e municípios por alguns meses. Outra possibilidade seria liberar governadores e prefeitos de recolher imposto "a ou b por 3 ou 4 meses". O ministro ponderou que, antes de tomar qualquer medida, terá de fazer os cálculos antes.

 

Críticas

A fala do ministro desagradou lideranças parlamentares. Alguns congressistas acabaram saindo mais cedo para demonstrar o descontentamento. De acordo com um deputado, Guedes repetiu trechos de discursos anteriores, mas não apresentou uma perspectiva clara sobre os impactos do covid-19 na economia, nem mostrou um plano emergencial para o País.

Um senador que acompanhou a reunião disse que o ministro da Economia quis dar uma "aula de história" a deputados e senadores. Além disso, Guedes insinuou que os deputados e senadores não deveriam tumultuar o ambiente político, o que gerou burburinhos e azedou de vez o clima. Parlamentares consideram que é o presidente Jair Bolsonaro o principal responsável por provocar ruídos na relação entre Executivo e Legislativo.

Outro motivo de incômodo foi o otimismo de Guedes em relação ao cenário econômico baseado na aprovação das reformas defendidas pelo governo, independente do novo contexto do cenário internacional. Outro questionamento é que o Palácio do Planalto ainda não enviou matérias relevantes, como a reforma administrativa, ao Congresso.

Ao deixar o encontro, o senador Eduardo Braga (MDB-AM) elogiou a apresentação do ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, mas afirmou que o governo ainda não apresentou uma agenda emergencial na área econômica para dar amparo a essas ações.

Braga defende que será preciso ter esse planejamento para curto, médio e longo prazo. "A reunião de hoje teve como objetivo estabelecer a gravidade da situação. Demonstra a gravidade do momento que estamos vivendo", declarou.

O líder da Rede no Senado, Randolfe Rodrigues (AP), disse que "a agenda econômica não é prioridade". Ele demonstrou insatisfação com o fato de o ministro não ter, segundo ele, anunciado nada de concreto na reunião sobre o coronavirus com os congressistas.

"O único que anunciou algo de concreto, deu detalhes, foi o ministro (da Saúde, Luiz Henrique) Mandetta", disse. Segundo o líder, Mandetta traçou cenário de contágio em espiral a partir da semana que vem. "Minha convicção é que prioridade agora não é agenda econômica. Temos que tomar medidas necessárias, agora não há governo ou oposição", afirmou.

Randolfe defendeu que o Congresso desista do projeto que dá poder ao relator do Orçamento para direcionar R$ 15 bilhões e pediu a destinação total desses recursos para a saúde. "Ministro Mandetta disse que efeito sobre sistema de saúde pode ser devastador", afirmou o líder.

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