Joédson Alves/Efe - 13/9/2021
'A desgraça foi rolada para o ano que vem', disse ministro sobre previsões do PIB de 2022. Joédson Alves/Efe - 13/9/2021

Guedes diz que economistas fazem 'rolagem da desgraça' ao revisarem projeções do PIB para 2022

Declaração vem após instituições como Itaú, Banco BV e XP revisarem, para baixo, as previsões do PIB do Brasil para o ano que vem, com algumas prevendo crescimento menor que 1%

Idiana Tomazelli e Lorenna Rodrigues, O Estado de S.Paulo

14 de setembro de 2021 | 18h54
Atualizado 15 de setembro de 2021 | 13h58

BRASÍLIA - O ministro da Economia, Paulo Guedes, disse hoje que há “uma rolagem de desgraça” no Brasil, ao referir-se ao pessimismo de economistas e outros agentes em relação às medidas do governo. Em 2021, com o crescimento esperado acima de 5%, porém, “a desgraça foi rolada para o ano que vem”, afirmou o ministro.

Hoje, economistas do Itaú Unibanco, do Banco BV e da XP, entre outros, revisaram, para baixo, as projeções de crescimento da economia em 2022, quando o presidente Jair Bolsonaro tentará a reeleição. Algumas instituições passaram a esperar PIB menor que 1% no ano que vem.

Guedes disse que, não fosse o que ele chama de “barulho político”, o câmbio de equilíbrio no Brasil estaria hoje entre R$ 3,80 e R$ 4,20 -- a moeda americana fechou hoje em R$ 5,2573. “Esse dólar já era para estar descendo, mas barulho político não deixa descer. Não tem problema [dólar mais alto], mais tempo para exportações. O importante é continuar fazendo tudo certo”, afirmou, em evento promovido pelo BTG Pactual. 

Ele voltou a repetir que o Brasil voltou a crescer “em V”, mas admitiu que isso não significa que a taxa de crescimento continuará alta. “Esse é outro desafio”, completou.  Para o ministro, o País perdeu muito tempo em relação à recuperação da economia primeiro porque não tinha base parlamentar e, segundo, por conta da pandemia do coronavírus. “O Brasil está em ritmo de crescimento interessante. O setor privado está investindo em todas as direções”, afirmou. 

Guedes voltou a falar também que os atores políticos “cometem excessos”, mas são limitados pelas instituições brasileiras. “ Toda hora tem um no Brasil que pula da cerca para o lado selvagem, mas instituições convidam para voltar para o lado certo. São robustas”, completou.  

Segundo o próprio Guedes, apesar de seu temperamento “agitado”, ele hoje é uma “força moderadora” no ambiente quente da política brasileira. “Nunca pensei que eu seria um sujeito moderado, sou hoje uma força moderadora”, afirmou. 

O ministro voltou a defender o presidente Jair Bolsonaro dizendo que ele tem apoio popular e “não cruzou a linha”. “Faltam 10 meses para eleição, vamos inventar o que?”, questionou.  “Todo dia chamam o presidente de genocida, ele não mandou prender ninguém. Tem gente mandando prender”, disse, em uma indireta ao Supremo Tribunal Federal, que prendeu apoiadores do presidente Jair Bolsonaro investigados no inquérito das Fake News. 

Apesar disso do ambiente político, o ministro afirmou que o governo está “fazendo dever de casa” em acordo com os fundamentos da economia. Ele ainda criticou economistas que afirmaram que o “meteoro” dos precatórios (dívidas judiciais), estimados em R$ 89,1 bilhões para 2022, era previsível. Como mostrou o Estadão/Broadcast, a própria Advocacia-Geral da União (AGU) emitiu alertas desde o ano passado para o risco de elevação dos débitos.

“É brincadeira, né. Faltavam dez dias para fechar janela (para expedição dos precatórios), (STF deu) R$ 10 bilhões para Bahia, R$ 4 bilhões para Ceará, R$ 2 bilhões para Pernambuco. Foi dinheiro para governadores do Nordeste de oposição nos últimos dez dias da janela”, disse Guedes.

O ministro disse ainda que o teto de gastos, regra que limita o avanço das despesas à inflação, é uma bandeira importante para o governo. “Está toda furada lá na guerra, mas é o que segura (despesas)”, disse.

Guedes também voltou a defender o Conselho Fiscal da República, medida proposta por ele para reunir chefes de poderes em decisões estratégicas do ponto de vista fiscal, como declaração de emergência (quando as contas estão com comprometimento elevado em despesas obrigatórias).

"Quando vejo ritual do Copom, reúne todo mundo... antigamente o negócio era mais emocionante, juro era 70%, se caísse para 50%, se subisse para 73%... hoje tem um saltinho um pouco maior que 1%”, disse o ministro, emendando comparações com a institucionalidade do Copom. “Eu gostaria que houvesse ritual fiscal como nós temos ritual monetário”, afirmou o ministro. “Não quero saber se vocês gostam um do outro, tem que se reunir, apertar o botão e fazer o que tem que ser feito”, acrescentou.

Estados

Guedes também disse que a melhora no resultado dos Estados, ajudada pelo congelamento de salários aprovado no ano passado, poderia ser ainda maior se os governadores estivessem ajudando em vez de "jogar pedras". Durante evento do BTG Pactual, o ministro também afirmou que, com a melhora, "está todo mundo assanhado" pegando empréstimo e citou a possibilidade de revisar a metodologia de concessão de avais para novos créditos, mas, em seguida, disse que a medida não seria tomada porque o governo é "republicano".

"Todos os Estados melhoraram o ranking, está todo mundo agora assanhado, pegando empréstimo", disse Guedes. Em resposta, o economista-chefe do BTG, Mansueto Almeida, disse que a previsão para o ano é um superávit de R$ 55 bilhões para os Estados e municípios. "Isso que eles estão jogando pedra na gente. Se estivessem ajudando era mais fácil. Jogando pedra na gente deu para fazer só isso", reagiu Guedes.

Em seguida, Mansueto mencionou que há uma expectativa de que, ao fim do ano, 20 Estados estejam com notas de crédito A ou B, ou seja, aptos a obter aval da União na concessão de créditos.

"Agora, nós podemos fazer uma correção na metodologia. Nós podemos dizer, olha, agora (é) tirando o dinheiro que foi transferência para Estados e municípios, para saúde. A gente então muda o critério de ranking. Porque pô, não dá, eu te dou o dinheiro, aí você joga uma pedra em mim e diz que vem pedir mais empréstimo... Opa, peraí, então tira o dinheiro que eu te dei e vamos ver qual funciona. Mas não vamos fazer essa maldade, nós somos republicanos", afirmou Guedes.

O ministro defendeu as medidas de congelamento de salários devido à economia obtida. "Demos R$ 150 bilhões com a mão esquerda e tiramos R$ 150 bilhões com a mão direita", afirmou.

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Mercado já prevê crescimento do PIB abaixo de 1% em 2022

Com crise política, inflação em alta e crise hídrica, economistas de instituições financeiras revisam para baixo a estimativa de crescimento da economia neste ano e no ano que vem; Itaú vê aumento de apenas 0,5% em 2022

Adriana Fernandes, O Estado de S.Paulo

14 de setembro de 2021 | 13h15
Atualizado 15 de setembro de 2021 | 08h19

BRASÍLIA - Derreteram rapidamente as projeções de bancos e consultorias para o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) e já há apostas de alta de apenas 0,4% em 2022. Não está descartada a possibilidade de uma pequena recessão no rastro do aperto maior de juros que o Banco Central está tendo que fazer para debelar a inflação.

 O cenário de esfriamento da atividade econômica é uma ducha de água fria para o presidente Jair Bolsonaro, que já esperava chegar no ano eleitoral com a retomada do crescimento do PIB em franca recuperação.

Essa segunda onda forte de revisão das previsões de PIB foi puxada pelo Itaú Unibanco que cortou numa tacada um ponto porcentual da sua estimativa de crescimento para 2022, de 1,5% para 0,5%.

A consultoria MB Associados, com larga experiência no acompanhamento do “Brasil real”, foi ainda mais agressiva no corte da previsão do PIB, que passou de 1,4% para 0,4%. A XP Investimentos reduziu de 1,7% para 1,3% o crescimento, e o Banco BV de 1,8% para 1,5%.

Na última segunda, o BTG já tinha reduzido a previsão para o próximo ano de 2,2% para 1,5% porque espera juros mais altos, por volta de 8,5%, para reduzir a inflação. Se a taxa Selic subir além de 8,5%, o BTG avalia que terá que reduzir mais uma vez o crescimento de 2022.

O Santander também está em processo de revisão do PIB, com projeção nova marcada para sair na quinta-feira. O banco está com uma estimativa atual de alta de 2%, que deve cair. Na segunda-feira, a pesquisa Focus do BC (feita com os analistas do mercado financeiro), apontava uma alta do PIB mais próxima de 2%, em 1,72%.

Pressionado pelo mercado e pelo governo com a disseminação e persistência da inflação, o presidente do BC, Roberto Campos Neto, disse que vai levar a Selic aonde for preciso para controlar a alta de preços, mas que não vai mudar o "plano de voo de política monetária" a cada número novo de alta frequência de inflação que for divulgado.

“Não tem puxador de PIB. Não é fora de propósito uma pequena recessão no ano que vem. Não dá mais tempo para mudar”, disse ao Estadão o economista José Roberto Mendonça de Barros, da consultoria MB Associados.  O diagnóstico é ruim: as exportações não vão aumentar mais, o crédito está pressionado pelos juros em alta, o consumo esfriando e os investimentos continuarão baixos.

A agricultura, que teve crescimento no primeiro trimestre porque a safra de verão da soja foi muito boa, já não responde da mesma forma. Para complicar, a seca e três geadas num único mês piorou o quadro, que se juntam aos efeitos da crise hídrica e uma difusão da inflação acima de 70%. A previsão da MB para a Selic - que estava um pouco acima de 6% - agora é de 8,3%.

Com a entrada da nova bandeira de energia em setembro, prevê Mendonça de Barros, o IPCA deve fechar em 1% no mês e no acumulado em 12 meses passar de 10%.  ara Mendonça, o BC vem correndo “atrás da curva” (termo usado no jargão do mercado para dizer que está atrasado no processo de alta) desde o ano passado e vai agora puxar os juros para cima.

Mendonça de Barros avalia que esse cenário é um “desastre” para os planos de reeleição do presidente Bolsonaro. “As agressões ao regime democrático maximizaram o efeito dos desarranjos fiscais e antecipou a eleição”, disse.

Segundo o economista da XP Rodolfo Margato, o principal fator que levou a redução da estimativa de PIB para 1,3% foi o aperto da política de juros mais intenso para o controle da inflação. A XP elevou a expectativa de juros de 7,25% para 8,5%. “Essa alta corrói as condições de financiamento, o que pesa sobre os níveis  de investimento e consumo,  especialmente de bens duráveis”, explica Margato.

Segundo a XP, o principal risco no seu radar para 2022 é a crise hídrica, já que o seu cenário-base não considera a ocorrência de racionamento no País. Os cálculos da corretora sinalizam que cada 10% de redução forçada no consumo de energia ao longo de um ano teria potencial de retirar até 1,2 ponto porcentual do PIB.

“Para o próximo ano, tem uma elevação das incertezas sobre o desempenho da atividade econômica. Não dá para descartar uma recessão técnica”, disse Margato. O cenário básico da corretora estima crescimento de 0,3% do PIB no primeiro trimestre de 2022, seguido por expansão de 0,1% no segundo trimestre, queda de 0,2% no terceiro e crescimento de 0,2% no quarto trimestre.

A deterioração adicional das condições políticas e fiscais, aumentando o grau de incerteza e reduzindo a liquidez da economia, também é um risco para a atividade. O cenário da XP indica uma probabilidade de 10% a 15% que a exclusão dos precatórios devidos pelo governo do teto dos gastos ocasione a exclusão também de outras despesas, como o Bolsa Família.

A deterioração das perspectivas para a inflação piorou o quadro econômico e causou uma série de revisões no cenário também do banco BV (ex-Banco Votorantim). A projeção para o IPCA saltou de 7,7% para 8,2% em 2021 e de 3,6% para 3,8% em 2022. A estimativa para o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) em 2022, por sua vez, recuou de 1,8% para 1,5%.

“Tínhamos a visão de que o dólar e as matérias-primas geravam choques temporários, mas mudamos a leitura a partir dos dados recentes de inflação”, afirma o economista-chefe do BV, Roberto Padovani. “A inflação de serviços acelerou pela reabertura, mas a de bens industriais continuou pressionada. Esse acúmulo de choques jogou o IPCA em um patamar próximo de 10%, e o nível importa.”

A inflação acumulada no patamar atual, segundo Padovani, reforça os reajustes de contratos e gera uma inércia que contamina as expectativas para 2022 e 2023. Como a deterioração inflacionária deve exigir mais do Banco Central (BC), o BV elevou de 7,5% para 9,0% a projeção da Selic no fim do ciclo. A taxa de juros deve chegar a 8,5% no fim deste ano e atingir o patamar estimado na primeira reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) em 2022.

“O BC vai ter que subir os juros até 9,0%. O ritmo ele escolhe. Esse aperto monetário vai ser reforçado por uma piora nas condições financeiras, que nos fez mudar o cenário de crescimento em 2022 [de 1,8% para 1,5%]”, afirma o economista.

Já o ministro da Economia, Paulo Guedes, chamou de  “rolagem de desgraça” o pessimismo de economistas e outros agentes em relação às medidas do governo. Ele disse que, não fosse o que ele chama de “barulho político”, o câmbio de equilíbrio no Brasil estaria hoje entre R$ 3,80 e R$ 4,20 - a moeda americana fechou hoje em R$ 5,26. “Esse dólar já era para estar descendo, mas barulho político não deixa descer. Não tem problema [dólar mais alto], mais tempo para exportações. O importante é continuar fazendo tudo certo”, afirmou, em evento promovido pelo BTG Pactual. /COLABORARAM EDUARDO RODRIGUES, THAÍS BARCELLOS, IDIANA TOMAZELLI, LORENNA RODRIGUES, CÍCERO COTRIM, MARIA REGINA SILVA E GUILHERME BIANCHINI

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