Adriano Machado/Reuters - 5/2/2020
Paulo Guedes conversa com Jair Bolsonaro em cerimônia pelos 400 dias de governo. Adriano Machado/Reuters - 5/2/2020

Guedes diz que funcionalismo público é 'parasita' e está matando o 'hospedeiro'

Ministro defendeu reforma administrativa e reclamou de reajuste automático em salário de servidor, sendo aplaudido em palestra na FGV; associação de servidores estuda recorrer à Justiça contra o 'assédio institucional'

Denise Luna e Fernanda Nunes, O Estado de S.Paulo

07 de fevereiro de 2020 | 15h30
Atualizado 09 de fevereiro de 2020 | 19h57

RIO - O governo brasileiro está quebrado porque gasta 90% da sua receita com o funcionalismo, segundo o ministro da Economia, Paulo Guedes, que classificou os funcionários públicos como "parasita". Para ele, é urgente a aprovação da reforma administrativa ainda este ano, para que o dinheiro deixe de ser carimbado e chegue onde realmente faz falta.

"O funcionalismo teve aumento de 50% acima da inflação, tem estabilidade de emprego, tem aposentadoria generosa, tem tudo. O hospedeiro está morrendo. O cara (funcionário público) virou um parasita e o dinheiro não está chegando no povo", disse Guedes na manhã desta sexta-feira, 7, sendo muito aplaudido durante palestra no seminário Pacto Federativo, promovido pela Fundação Getulio Vargas (FGV).

Ouça trecho da palestra do ministro Paulo Guedes:

Segundo ele, os funcionários públicos querem aumento automático enquanto "80% da população brasileira é a favor inclusive de demissão do funcionário publico, estão muito na frente da gente", completou.

Continuando a defesa da reforma administrativa, que ainda encontra resistência no Congresso Nacional, Guedes deu como exemplo os Estados Unidos, que ficam "quatro, cinco anos sem ajustar o salário do funcionalismo" e, quando concedem o aumento, têm reconhecimento público. "Aqui o cara é obrigado a dar e ainda leva xingamento", afirmou.

De acordo com Guedes, a reforma administrativa deve chegar ao Congresso na próxima semana e vai resolver o problema do dinheiro carimbado no Brasil.

'Assédio institucional'

O presidente do Fórum Nacional Permanente de Carreiras Típicas de Estado (Fonacate), Rudinei Marques, disse que o sindicato estuda recorrer à Justiça contra o "assédio institucional". "Empresa nenhuma vai bem se o dirigente agride constantemente seus empregados", afirmou.

"Somos 12 milhões de servidores públicos que servimos à população nas áreas que mais carecem. Não admitidos que alguém que ocupa temporariamente o cargo agrida um conjunto de trabalhadores", disse.

A Fonacate representa 200 mil servidores públicos. Para Marques, as "agressões" do ministro da Economia fazem parte de um "plano orquestrado" para privatizar fatias do serviço público. "Se tem alguém parasitando o Estado brasileiro são operadores de mercado que ganham dinheiro em vez de se preocupar com a população."

Ele disse que os servidores públicos não rejeitam uma reforma administrativa, mas que é preciso "dialogar" sobre as mudanças.  "Infelizmente, o ministro aposta no conflito enquanto o País precisa de unidade para enfrentar a crise pela qual está passando".  

O governo ainda não enviou sua proposta de reforma do RH do Estado. Pelo que já foi divulgado, haverá redução no número de carreiras e também no salário inicial das carreiras, além de mudanças na chamada estabilidade (na prática, impede que os servidores sejam demitidos).

Associação Nacional dos Auditores Fiscais da Receita Federal (Unafisco) divulgou nota em que "repudia veementemente" a declaração de Guedes. "Se partilhássemos da descompostura do Ministro, poderíamos compará-lo a um serviçal do mercado, que promove a falência do Estado em detrimento do povo brasileiro. Falta não só elegância ao ministro Guedes, como patriotismo."

Para a associação, "o assédio institucional que vem sendo praticado pelo Sr. Paulo Guedes em relação aos servidores públicos já ultrapassa os limites legais e merece reação à altura".

No Twitter, o ministro do Tribunal de Contas da União (TCU) Bruno Dantas compartilhou incrédulo a notícia sobre a comparação do ministro Paulo Guedes. "Não pode ser verdade...", escreveu.

 

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No Twitter, governo e oposição criticam Guedes por chamar servidores de 'parasitas'

Ministro da Economia culpou funcionalismo público por rombo no Orçamento e defendeu reforma administrativa

Gregory Prudenciano, O Estado de S.Paulo

07 de fevereiro de 2020 | 17h52

A declaração do ministro da Economia, Paulo Guedes, de que os servidores públicos são como "parasitas" do Orçamento repercutiu mal entre parlamentares e atraiu críticas públicas até de políticos que apoiam o governo. A fala de Guedes foi feita nesta sexta-feira, 7, em palestra no Rio de Janeiro.

O deputado Marcos Pereira (Republicanos-SP) foi ao Twitter dizer que ele e seu partido são "favoráveis à reforma administrativa, mas o ministro Paulo Guedes não pode chamar todos os servidores públicos de 'parasitas'". "Não é por aí", advertiu o parlamentar. "Há bons e maus em todo lugar, até mesmo na equipe do Guedes. Ou ele acha que está tudo indo muito bem, obrigado?", tuitou o político.

Outro parlamentar apoiador das pautas do governo, o senador Major Olimpio (PSL-SP) disse no Twitter que o ministro da Economia "quer matar a vaca para acabar com o carrapato" e ressaltou que "parasita é uma expressão ingrata e irresponsável para se referir àqueles que na ponta da linha prestam serviços para a população". O senador tem os policiais militares paulistas como sua base eleitoral.

Já a oposição subiu o tom nas críticas a Guedes. Talíria Petrone (PSOL-Rj) perguntou a seus seguidores se seria adequado chamar o ministro de "verme". Correligionário de Talíria, Ivan Valente (SP) disse que Guedes "sempre foi banqueiro, símbolo maior dos que vivem da agiotagem legalizada que suga metade do Orçamento da União", em referência ao custo da dívida interna.

 

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Ministério da Economia divulga nota dizendo que 'reconhece qualidade do servidor público'

Em evento no Rio em que defendia a reforma administrativa, Paulo Guedes comparou funcionários públicos a 'parasitas'

Idiana Tomazelli, O Estado de S.Paulo

07 de fevereiro de 2020 | 18h07

BRASÍLIA - Após o ministro da Economia, Paulo Guedes, classificar servidores públicos de "parasitas", a pasta divulgou nota afirmando que o ministro "reconhece a qualidade do servidor público". O comunicado alega ainda que a imprensa "retirou de contexto" a declaração.

Em evento nesta sexta-feira, 7, no Rio, Guedes defendia a aprovação da reforma administrativa para fazer com que mais recursos possam ser direcionados a áreas essenciais quando começou a falar sobre o custo da folha de pagamento.

"O funcionalismo teve aumento de 50% acima da inflação, tem estabilidade de emprego, tem aposentadoria generosa, tem tudo. O hospedeiro está morrendo. O cara (funcionário público) virou um parasita e o dinheiro não está chegando no povo", disse o ministro, sob aplausos da plateia.

A declaração repercutiu mal. O presidente do Fórum Nacional Permanente de Carreiras Típicas de Estado (Fonacate), Rudinei Marques, disse que o sindicato estuda recorrer à Justiça contra o "assédio institucional".

No Twitter, o ministro do Tribunal de Contas da União (TCU) Bruno Dantas compartilhou incrédulo a notícia sobre a comparação do ministro Paulo Guedes. "Não pode ser verdade...", escreveu.

Após a repercussão negativa, o Ministério da Economia decidiu divulgar uma nota dizendo que, "após reconhecer a elevada qualidade do quadro de servidores, o ministro Paulo Guedes, analisou situações específicas de Estados e municípios que têm o Orçamento comprometido com a folha de pagamento".

No comunicado oficial, Guedes se justifica dizendo que citava governos com despesas acima do limite prudencial da Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF) para gastos com pessoal. "Nessa situação extrema, não sobram recursos para gastos essenciais em áreas fundamentais como saúde, educação e saneamento", diz a nota.

"O ministro argumentou que o País não pode mais continuar com políticas antigas de reajustes sistemáticos. Isso faz com que os recursos dos pagadores de impostos sejam usados para manter a máquina pública em vez de servir à população: o principal motivo da existência do serviço público", acrescenta o comunicado. A nota diz ainda que Guedes "defendeu uma reforma administrativa que corrija distorções sem tirar direitos constitucionais dos atuais servidores".

"O ministro lamenta profundamente que sua fala tenha sido retirada de contexto pela imprensa, desviando o foco do que é realmente importante no momento: transformar o Estado brasileiro para prestar melhores serviços ao cidadão", afirma.

Não é a primeira vez que o ministro precisa dar explicações sobre declarações polêmicas. No ano passado, ele disse em evento em Fortaleza (CE) que a mulher do presidente francês Emmanuel Macron "é feia mesmo", corroborando uma fala do presidente Jair Bolsonaro nesse sentido. Após o episódio, o ministério divulgou nota dizendo se tratar de uma "brincadeira" e pediu desculpas.

Em novembro, ele disse a jornalistas, em Washington (EUA), para não se assustarem caso alguém peça o AI-5, o mais duro ato da ditadura brasileira, diante de "quebradeira" nas ruas. Em seguida, disse que a democracia brasileira não admitiria um ato de repressão.

No início deste ano, Guedes disse no Fórum Econômico Mundial em Davos, na Suíça, que "o grande inimigo do meio ambiente é a pobreza". A declaração também foi mal recebida.

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