Marcos Corrêa/PR - 5/2/2021
Guedes afirmou que “narrativas idiotas” o colocam como uma pessoa que quer reduzir gastos com saúde e educação. Marcos Corrêa/PR - 5/2/2021

Guedes diz que só sai do governo se alguém mostrar que ele está fazendo 'algo muito errado'

'Se fizer errado, Brasil vira Argentina em seis meses e Venezuela em um ano e meio', disse o ministro, que participou de podcast de youtuber

Lorenna Rodrigues, O Estado de S.Paulo

02 de março de 2021 | 09h51

BRASÍLIA - Depois de o presidente Jair Bolsonaro determinar a troca do presidente da Petrobrás, o que abriu questionamentos sobre a permanência do ministro da Economia, Paulo Guedes, no governo, o ministro disse que só vai embora se alguém mostrar "que estou fazendo algo muito errado”.

“Tenho noção de compromisso enquanto puder ser útil e gozar da confiança do presidente. Se o presidente não confiar em meu trabalho, sou demissível em 30 segundos. Se eu estiver conseguindo ajudar o Brasil, fazendo as coisas que acredito, devo continuar. Ofensa não me tira daqui, nem o medo, o combate, o vento, a chuva”, afirmou.

Guedes gravou na última sexta-feira, 26, podcast com o youtuber Thiago Nigro, do canal Primo Rico, que foi ao ar no início da manhã desta terça-feira, 2. Ele disse ter uma missão e se sentir responsável por esse desafio. “Consigo ter uma comunicação boa com o presidente de um lado e com a centro-direita de outro. O que me tira daqui é a perda da confiança do presidente e ir para o caminho errado. Se tiver que empurrar o Brasil para o caminho errado, prefiro sair. Isso não aconteceu, tenho recebido apoio do presidente e do Congresso para ir na direção certa”, assegurou.  

O ministro está apostando suas fichas na aprovação pelos parlamentares da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que autoriza o pagamento de uma nova rodada do auxílio emergencial e, ao mesmo tempo, cria uma espécie de "protocolo" de crise para o futuro, com acionamento de medidas de contenção de gastos automaticamente. 

O ministro aproveitou o programa para fazer um longo desabafo sobre seus problemas no governo. “Piratas privados estão colocando boato no jornal todo dia, dizendo que o ministro vai cair, ministro brigou com presidente, presidente brigou com o ministro. Tem políticos que querem contribuir com o futuro do Brasil, mas tem um pedaço que é o pântano”, afirmou.

Guedes contemporizou dizendo que os políticos podem “brigar entre si”, mas que ele não pode brigar com ninguém. “A maioria esmagadora do Congresso é reformista, mas tem meia dúzia por cento que está com maus desígnios”, completou.  “Há pedra no caminho de vez em quando, mas cai, levanta de novo. O saldo é vastamente positivo, estamos conseguindo andar.”

Em uma versão “paz e amor”, Guedes disse que está se tornando “um ser humano melhor” e que não pode “pensar só nos números”. “A confusão está tão grande que estou sendo obrigado a ficar mais sereno. Só vou conseguir entregar o produto se ficar calmo. Está todo mundo nervoso demais, eu que sou nervoso, tenho que ficar calmo”, completou.  

'Se fizer errado, vira Argentina em seis meses e Venezuela em um ano e meio'

O ministro falou ainda de “narrativas idiotas” que o colocam como uma pessoa que quer reduzir gastos com saúde e educação. O relatório da PEC do senador Marcio Bittar (MDB-CE) previa originalmente o fim dos dois pisos. No texto da PEC que o governo enviou ao Congresso, em novembro de 2019, estava proposta a fusão dos dois mínimos para que o gestor gastasse da forma como quisesse. 

“Quem é o idiota que seria contra a saúde? Como posso ser contra educação se sou produto da educação? São narrativas idiotas, despreparadas, odientas”.

Guedes disse que o pagamento do auxílio emergencial sem contrapartidas fiscais seria “caótico para o Brasil”. “Isso teria um efeito muito ruim para o Brasil. É o que aprendemos ano passado, não podemos repetir”, afirmou. O ministro lembrou que, em 2020, como contrapartida à ajuda federal para Estados e municípios, o Congresso aprovou o congelamento dos salários dos servidores públicos por dois anos, o que rendeu uma economia de R$ 150 bilhões.

“Tentar empurrar o custo para outras gerações, juros começam a subir, acaba o crescimento econômico, endividamento em bola de neve, confiança de investidores desaparece. É o caminho da miséria, da Venezuela, da Argentina”.

 “Se fizer errado, Brasil vira Argentina em seis meses e Venezuela em um ano e meio. Estou exagerando, leva uns três anos para virar a Argentina e uns cinco ou seis para virar a Venezuela. Mas para virar Alemanha e Estados Unidos, é dez, quinze anos em outra direção”, completou.

O ministro afirmou estar perdendo “perdendo bastante dinheiro” estando no governo e disse ter entrado no governo “meio inadvertidamente”. “O presidente tem ótimas intenções, responsabilidade e compromisso com o País. Parti da ideia de que vindo para cá teria apoio do presidente para fazer mudanças. O presidente também quer mudanças, isso nos aproximou”, completou.

Guedes disse ainda que nunca pensou que seria o ministro que mais aumentaria gastos públicos no Brasil. Isso, de fato, aconteceu em 2020 por causa das despesas relacionadas ao combate da covid-19. “O destino me tornou pessoa que gastou muito, mas gastei com consciência tranquila porque sei que era compromisso com a saúde dos brasileiros e com a recuperação econômica.”

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Guedes quer distribuir parte do lucro da Petrobrás aos 'mais pobres', por meio de um fundo

O ministro da Economia defende o pagamento de dividendos da estatal para o 'povo brasileiro'

Lorenna Rodrigues, O Estado de S.Paulo

02 de março de 2021 | 10h52

BRASÍLIA - O ministro da Economia, Paulo Guedes, disse que o governo quer criar um fundo com ativos da Petrobrás para pagar dividendos "principalmente a pessoas mais frágeis". Depois de o presidente Jair Bolsonaro questionar se o "Petróleo é nosso ou é de um pequeno grupo no Brasil?", Guedes defendeu o pagamento de dividendos para o "povo brasileiro".

"É o seguinte, ou paga dividendos para mais pobres, ou vende. Não pode [Petrobrás] ficar dando prejuízo", afirmou. "Tem uma turma que começa com 'o petróleo é nosso', então pega os mais pobres e vamos dar um pedaço para eles. Temos ideia de fazer algo parecido um pouco à frente, criar um fundo e colocar ativos lá, principalmente para mais frágeis. Vamos fazer um programa de transferência na veia, pega os 20%, 30% mais pobres e dá a sua parte [da Petrobrás]." 

As declarações foram gravadas por Guedes na última sexta-feira, 26, para um podcast com o youtuber Thiago Nigro, do canal Primo Rico, que foi ao ar no início da manhã desta terça-feira, 2. No programa, Guedes disse que as privatizações estão muito atrasadas, assim como a proposta de reforma tributária e a abertura comercial.

O ministro já defendeu esse modelo. Em setembro do ano passado, quando o governo e o Congresso discutiam um novo programa social para substituir o Bolsa Família, Guedes deu mais detalhes. Segundo ele, a ideia é criar um Fundo Brasil com cotas do capital de estatais que não estão nos planos de privatização, como Petrobrás e Caixa Econômica Federal. É o que o Guedes vem chamado de "dividendo social". Todo ano, as estatais vão destinar uma parte do lucro para esse fundo, que bancaria uma complementação de renda para os beneficiários do Renda Brasil.

“Em vez de a União receber R$ 25 bilhões no fim do ano em dividendos, vamos receber R$ 24 bilhões e R$ 1 bilhão vai para os brasileiros mais frágeis. Faremos o maior programa de distribuição de riqueza, e não de renda”, disse Guedes na ocasião.

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