Dida Sampaio/Estadão
O economista Felipe Salto, diretor executivo da Instituição Fiscal Independente (IFI). Dida Sampaio/Estadão

Após Guedes criticar IFI, Salto rebate: ministro não sabe conviver com órgão independente

Diretor executivo da Instituição Fiscal Independente (IFI) disse que o ministro deveria 'ouvir' os críticos e análises para construir um programa para o País ter um horizonte de crescimento

Adriana Fernandes, O Estado de S.Paulo

25 de março de 2021 | 15h31
Atualizado 25 de março de 2021 | 21h51

BRASÍLIA - Alvo de ataque público do ministro da Economia, Paulo Guedes, o diretor executivo da Instituição Fiscal Independente (IFI), Felipe Salto, reagiu às críticas com um recado direto para o ministro e sua equipe: a preocupação, no cenário atual de colapso na saúde e crise econômica, deveria ser “ouvir” os críticos e análises para construir um programa para o País ter um horizonte de crescimento.

Ao Estadão, Salto disse que o ataque institucional de Guedes à IFI revela uma preocupante intolerância ao contraditório numa democracia. Segundo ele, a IFI  “não foi, não é e nunca será linha auxiliar do governo e de quem quer que seja”.  “O que me preocupa e espanta é que o ministro da Economia Paulo Guedes ainda não tenha ainda aprendido a conviver com a existência de um órgão técnico, independente e que faz as suas análises e projeções”, reagiu Salto. 

Nesta quinta-feira, Guedes expôs publicamente um incômodo que já vinha manifestando reservadamente contra os relatórios da IFI e também as manifestações públicas do seu diretor executivo. O ministro aproveitou a audiência no Senado, ao qual a IFI é vinculada, para colocar aos senadores a sua contrariedade.

As críticas resultaram, porém, numa série de manifestações de apoio ao trabalho da IFI. Apesar da pressão de Guedes, Salto e mais dois diretores não podem ser demitidos porque têm mandato fixo.

Na audiência, ao ser questionado sobre a previsão da entidade sobre a atividade econômica deste ano, Guedes afirmou que a IFI tem "trabalhado muito mal", com "previsões muito fracas", e provocou o Senado a repensar o comando da instituição, o que, na prática, não poderá ser feito.

A gota d'água do descontentamento do ministro foi a  tabela do último relatório da IFI mostrando o efeito do lockdown no Produto Interno Bruto (PIB). Ou seja, a relação entre crescimento e combate à crise na ausência de vacinação. O relatório mostrou que, quanto mais a vacinação demora, por mais tempo será preciso ter medidas de restrição, que prejudicam o resultado o PIB.

Para Salto, os assessores do ministro não o informaram bem a respeito das análises da IFI. “A reação é muito desproporcional, porque o País vive uma situação de colapso na área de saúde”, avaliou. Para ele, a vacinação também depende também depende do Ministério da Economia. 

A IFI foi criada há quatro anos e meio para acompanhar as contas públicas na esteira dos problemas que levaram às manobras fiscais do governo Dilma Rousseff. Foi inspirada em órgãos semelhantes que existem nos Estados Unidos e no Reino Unido e em muitos outros países.

O conselho diretor da Instituição Fiscal Independente (IFI) do Senado publicou nota técnica rebatendo as criticas de Guedes. Segundo a nota, os comentários feitos pelo ministro sobre as projeções da IFI para o PIB não são condizentes com a análise contida no Relatório de Acompanhamento Fiscal (RAF) da entidade de março.

A IFI ressalta que não projetou recessão para o ano de 2021, como sugeriu o ministro, e rebate ponto a ponto as críticas apresentadas por Guedes. “Mostra-se apenas que medidas de restrição, no âmbito do combate à pandemia, geram efeitos negativos sobre a projeção de 3% de crescimento econômico”, diz.  Como exemplo, a IFI diz que a análise mostra que a necessidade de isolamento e/ou de medidas afeitas ao chamado “lockdown”, por quatro semanas, para 50% dos setores de produção, levaria a uma redução de 1 ponto porcentual no crescimento previsto para 2021.

A IFI ressalta que são simulações, que podem ser tecnicamente questionadas. Para isso, a IFI se colocou  à disposição do governo para discuti-las.

Os trabalhos da IFI são citados, em média, duas vezes ao dia, pelos principais veículos da imprensa nacional. A nota diz que  Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), o Fundo Monetário Internacional (FMI), o mercado, os parlamentares, os técnicos do governo, a academia e os economistas em geral reconhecem o trabalho produzido pela instituição.

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Guedes critica trabalho da IFI e Salto rebate citando reconhecimento internacional

Para o ministro, o instituto tem 'trabalhado muito mal', com 'previsões muito fracas'; diretor executivo afirmou que 'crítica técnica é bem-vinda, mas não ataque institucional'

Amanda Pupo e Eduardo Laguna, O Estado de S.Paulo

25 de março de 2021 | 13h46

BRASÍLIA e SÃO PAULO - Em audiência no Congresso, o ministro da Economia, Paulo Guedes, criticou abertamente o trabalho realizado pela Instituição Fiscal Independente (IFI) do Senado Federal, uma espécie de "cão de guarda" das contas públicas, responsável por fazer estimativas independentes em relação ao governo.

Ao ser questionado sobre a previsão da entidade sobre a atividade econômica deste ano, Guedes afirmou que a IFI tem "trabalhado muito mal", com "previsões muito fracas", e provocou o Senado a repensar o comando do instituto. 

"IFI disse que íamos furar teto no primeiro ano, que íamos furar teto no segundo, que a relação dívida/PIB ia chegar em 100%. Eu acho que o IFI tem previsões muito fracas, tem trabalhado muito mal. Acho até que o Senado deveria rever um pouco quem lidera o IFI, que aparentemente é economista que tem errado dez em cada dez", afirmou o ministro a senadores, durante audiência de comissão que acompanha as ações de enfrentamento à pandemia.

O diretor executivo da IFI, o economista Felipe Salto, rebateu as críticas do ministro citando o reconhecimento internacional da instituição. Salto se pronunciou nas redes sociais e disse lamentar o ataque pessoal feito pelo ministro. Para ele, o ato revela "aversão ao contraditório".

"Trabalho sem descanso para construir a IFI, com equipe enxuta", disse o diretor executivo, destacando ainda que "o trabalho do instituto é reconhecido pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), pelo Fundo Monetário Internacional (FMI), mercado, setores do governo, academia, imprensa e Congresso".

Segundo Salto, o conselho diretor da IFI publicará uma nota rebatendo a questão das projeções criticada por Guedes. "Crítica técnica é bem-vinda, mas não ataque institucional. Pessoas passam, instituições ficam. Democracia é assim. Trabalhamos para consolidar a IFI, inovação trazida pelo Senado em 2016." 

Previsões

Ao ser questionado sobre previsões para o PIB, Guedes também relembrou que o FMI chegou a prever uma queda próxima a 10% da economia brasileira em 2020. Ao fim, a economia recuou 4,1%. Foi o maior recuo anual da série histórica, iniciada em 1996. A queda interrompeu o crescimento de três anos seguidos, de 2017 a 2019.

Diante desse quadro, o ministro afirmou que prefere não arriscar previsões, mas sim trabalhar para que o Brasil saia o mais rápido possível da crise. "Eu à época disse que quem segue os modelos matemáticos, quando há choques dessa natureza, todos os parâmetros acabam, modelos acabam prevendo com grandes erros, porque há enorme instabilidade", afirmou o ministro, que disse aplicar às previsões da secretaria do próprio governo o "mesmo ceticismo" em relação às demais previsões.

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