Eraldo Peres/ AP
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Guedes tem a mesma agenda de Bolsonaro: reeleição, populismo e desumanidade

Nunca achei que Posto Ipiranga fosse um elogio. Soava como recado do Bolsonaro: ele tem suas ideias, mas quem manda sou eu - não que as ideias fossem lá grande coisa

Elena Landau*, O Estado de S.Paulo

29 de outubro de 2021 | 04h00

O jornal me pediu para reduzir a coluna. Fiquei tensa. Mas, quando escolhi o assunto – os feitos do nosso, ainda, ministro da Economia –, vi que não precisaria nem de 50 toques, muito menos dos 2.500. Aí inverti a proposta e arranjei um novo problema: encaixar neste curto espaço o que ele não fez.

Nunca um ministro assumiu com tantos poderes. Unificou, embaixo de seu comando, vários ministérios. Fiador de Bolsonaro na campanha, tinha carta branca. Recebeu da equipe de Temer a bola na cara do gol, mas resolveu dar seu toque pessoal e chutou na arquibancada. Capitalização, CPMF e, agora, o auxílio fura teto.

Guedes fez de Rodrigo Maia seu adversário, quando é Arthur Lira o grande inimigo de sua suposta agenda. Brigou com partidos que apoiariam a proposta liberal, mas caiu no colo do Centrão. Ficou mais à vontade com a volta da inflação, para fechar as contas, do que com o “orçamento paralelo”.

Diz que os social-democratas atrasaram o País em 30 anos. Lula cunhou a expressão “herança maldita” para se distanciar do sucesso político do Plano Real. Guedes o fez por ressentimento: foi preterido no departamento de Economia da PUC, de onde surgiram os pais do plano de estabilização. É um pote de mágoas.

Nunca achei que Posto Ipiranga fosse um elogio. Soava como recado do Bolsonaro: ele tem suas ideias, mas quem manda sou eu. Não que as ideias fossem lá grande coisa. Um conjunto de frases de efeito colecionadas em suas palestras. O improviso foi ficando claro ao longo de 2019, antes mesmo da pandemia. Fala em previsibilidade, mas suas ideias mudam mais que birutas de vento. Sua agenda é a de Bolsonaro: reeleição, populismo e desumanidade.

Não enfrentou os lobbies empresariais, mantendo as isenções fiscais e a economia fechada. Não vendeu uma estatal sequer e ainda criou mais uma. Enterrou R$ 10 bilhões em empresa de corvetas e não se opôs aos privilégios concedidos a militares e policiais.

Desmontou o planejamento do setor elétrico ao permitir “jabutis” indecorosos na capitalização da Eletrobras. É a favor de bilhões para caminhoneiro, mas contra R$ 80 milhões para dignidade menstrual. Deixou passar a boiada no meio ambiente e assistiu ao País se tornar um pária. Não se posicionou sobre a importância da vacina e viu a educação ser desmantelada por brigas ideológicas. Ignorou todas as propostas para uma política de transferência de renda permanente para criar uma temporária e ruim. Perdeu espaço político, prestígio e equipe. Segue solitário em busca do equilíbrio geral perdido. 

*ECONOMISTA E ADVOGADA 

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