Guerra cambial - a hora da verdade

"A inflação aleija, mas o câmbio mata." Mario Henrique Simonsen (1935-1997)

ANTONIO CORRÊA DE LACERDA, O Estado de S.Paulo

23 de outubro de 2010 | 00h00

A guerra cambial internacional, agora enunciada na capa da The Economist da semana, será também objeto de discussão da reunião de ministros da Fazenda dos países do G-20 que ocorre neste fim de semana. Para a economia brasileira se trata, ao mesmo tempo, de um desafio, mas também - e principalmente - de uma oportunidade. Nunca, na história recente deste país, a grandeza do problema cambial se tinha mostrado com todas as suas garras - e consequentes estragos na estrutura produtiva e no balanço de pagamentos, como já evidenciam as mudanças no discurso e, em parte, na prática das nossas principiais autoridades econômicas.

O que era uma discussão restrita aos fóruns econômicos ou decorrente de demandas empresariais "corporativas" se expandiu. Agora faz parte do script oficial. A consequência é que a visão do "câmbio flutuante que flutua" e da taxa de juros que só vê a meta de inflação de curto prazo está com os seus dias contados. A mudança requerida na política cambial não passa, necessariamente - e é bem melhor que o seja assim -, pelo abandono do regime de câmbio flutuante, mas pelo seu aperfeiçoamento, levando em conta as circunstâncias. É bem melhor ter um câmbio flexível, mas seria ingênuo deixá-lo flutuar ao sabor dos movimentos dos fluxos de capitais.

Os países estão cada vez mais utilizando a política cambial como instrumento não apenas de incentivo às suas exportações, mas também como fator de proteção à produção local. Tudo em nome da retomada da atividade e da preservação do emprego e da renda.

O Brasil terá de usar todo arsenal possível para fazer frente à disputa cambial instalada. Da mesma forma, a transformação implica necessidade de mudança na política monetária, uma vez que ela tem sido parte integrante da estratégia dos países que, instalada a crise, cuidaram de reduzir substancialmente as taxas de juros praticadas. Um juro baixo favorece a desvalorização do câmbio e facilita a retomada da atividade.

O nosso regime de metas de inflação tem seus méritos, mas tem de ser aperfeiçoado. É preciso ampliar a desindexação da economia, definir um horizonte mais estendido no prazo de cumprimento da meta, além de rever o que considerar como definidor da taxa de juros. A inflação de commodities, por exemplo, precisa ter outro tratamento.

Além disso, é preciso levar mais em conta a situação da conjuntura internacional, sob pena de, ao não fazê-lo, incorrer num custo muito elevado tanto de financiamento da dívida pública quanto do carregamento das reservas cambiais. Há ainda o efeito do juro alto sobre a valorização do real e suas consequências.

No âmbito fiscal, o desafio é melhorar a eficácia dos gastos públicos e sinalizar um claro compromisso de mudança qualitativa no uso dos recursos, assim como a sua compatibilidade em relação à receita e ao desempenho do PIB. Isso não só propiciaria mais confiança, mas também abriria espaço para uma reestruturação da carga tributária futura.

Nós temos muitos problemas, cujo enfrentamento para valer vem sendo adiado há tempos. Porém, dentre eles, a deterioração do déficit em transações correntes do balanço de pagamentos e seus estragos na estrutura produtiva e de padrão de comércio exterior brasileiro, derivados da valorização cambial, é o mais urgente e significativo. Trata-se de um bom problema, pois, por outro lado, temos uma clara perspectiva de influxos crescentes na conta de capitais. Neste caso, o desafio, ao contrário de momentos passados, será o de conviver com a abundância.

Como bem sugere a frase em epígrafe, as circunstâncias nos impõem uma saída da inércia e da situação de conforto. Menos mal que o cenário nos obrigue a uma transformação já. Uma escolha de "mais do mesmo" na política macroeconômica nos custaria muito mais caro à frente.

ECONOMISTA, É DOUTOR PELA UNICAMP E PROFESSOR DOUTOR DO DEPARTAMENTO DE ECONOMIA DA PUC-SP E-MAIL: ACLACERDA@PUCSP.BR

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