Guerra cambial ameaça a recuperação global, diz ONU

Para entidade, retomada perdeu fôlego em 2010 e a questão do desemprego segue como ''calcanhar de Aquiles''

Raquel Landim, O Estado de S.Paulo

19 de janeiro de 2011 | 00h00

A guerra cambial, o desemprego, e as medidas de austeridade fiscal estão ameaçando a recuperação da economia mundial. Essa é a conclusão do relatório anual Situação Econômica Global e Perspectivas 2011, divulgado ontem pela Organização das Nações Unidas (ONU).

De acordo com o documento, "o espírito de cooperação entre as grandes economias está diminuindo" e "respostas monetárias descoordenadas tornaram-se fontes de turbulência e incerteza nos mercados financeiros".

Os economistas da ONU concluíram que a política dos Estados Unidos de emitir moeda não atingiu os objetivos, porque o sistema financeiro está obstruído. Em vez de incentivar investimentos nos EUA, os recursos fluem para os mercados emergentes, valorizando suas moedas, e levando os países a adotar medidas de controle de capital.

"A política adotada pelo Brasil é sensata, porque reduz a volatilidade do câmbio", disse ao Estado Robert Vos, economista-chefe da ONU e coordenador do trabalho. "O Brasil se tornou um player global e seu papel central hoje é estimular os países a buscar uma solução coordenada."

Enfraquecimento. O documento da ONU aponta que a recuperação global começou a perder impulso na metade de 2010. A entidade espera crescimento mundial de 3,1% em 2011 e 3,5% em 2012, insuficiente para recuperar os empregos perdidos na crise. Dos 30 milhões de postos de trabalho fechados entre 2007 e 2009, o mundo ainda precisa recuperar 22 milhões.

O ritmo de recuperação nos Estados Unidos tem sido bastante fraco. A ONU estima alta de 2,2% do Produto Interno Bruto (PIB) americano em 2011 e 2,8% em 2012. Para Europa e Japão, as perspectivas são piores, com crescimento de apenas 1,3% e 1,1%, respectivamente.

Os países em desenvolvimento continuam conduzindo a recuperação global, mas também em ritmo mais moderado. A previsão é que essas economias cresçam 6% em 2011, abaixo dos 7% de 2010.

Na América Latina, a previsão é de alta de 2% do PIB em 2011, bem menor que os 5,6% do ano passado. O relatório da ONU classifica o Brasil como "motor" do desenvolvimento regional, com uma demanda interna que impulsiona as exportações dos vizinhos. A entidade prevê alta de 4,5% e 5,2% para o PIB brasileiro em 2011 e 2012.

O desemprego aparece como o "calcanhar de Aquiles" do crescimento global. Nos Estados Unidos, a taxa de desemprego deve atingir 10% no início deste ano, acima dos 9,6% do terceiro trimestre de 2010. Na zona do euro, o desemprego já bateu em 10,1% no ano passado. Na Espanha, por exemplo, a taxa duplicou, atingindo 20%.

Desafios. De acordo com Robert Vos, coordenador do relatório, uma recuperação equilibrada e sustentável vai exigir a superação de uma série de desafios políticos. Ele avalia que serão necessários estímulos fiscais "adicionais" e que alguns países ainda possuem um "amplo" espaço fiscal para adotar essas medidas.

No entanto, os estímulos precisam ser reformulados para incentivar diretamente o emprego. Também é necessário coordenar os incentivos fiscais e monetários para evitar efeitos colaterais negativos, como a guerra cambial. A ONU sugere genericamente que os países adotem "zonas-alvo de contas correntes" , que possam equilibrar os déficits e superávits dos diferentes países.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.