AFP PHOTO / Nicholas Kamm
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Guerra comercial começa a afetar a indústria alemã

De acordo com os dados oficiais do governo alemão, a carteira de pedidos para a indústria alemã em junho sofreu uma queda de 4%

Jamil Chade, correspondente, O Estado de S.Paulo

06 Agosto 2018 | 16h35

GENEBRA - A guerra comercial começou a fazer suas primeiras vítimas. Nesta segunda-feira, 6, dados oficiais apontaram que as atividades industriais da maior economia da Europa, a Alemanha, sofreram uma queda importante no mês de junho. A contração foi a maior em mais de um ano e meio, indicando que a tensão comercial iniciada pelo presidente americano, Donald Trump, poderá ter um impacto na economia real. 

Se a guerra comercial é essencialmente entre China e EUA, as empresas alemães descobriram que podem ser afetadas de ambos os lados. Os americanos são os maiores compradores de produtos alemães no mundo, enquanto a China é o maior parceiro comercial, por conta da importação alemã de bens de Pequim. 

De acordo com os dados oficiais do governo alemão, a carteira de pedidos para a indústria alemã em junho sofreu uma queda de 4%. A contração foi dez vezes maior que a previsão do mercado. 

O principal motivo da queda foi a redução da demanda externa, em 4,7%. Foram as importações de fora da zona do euro que pesaram mais na queda. A retração, nesse caso, foi de 5,9%. 

“Em relação aos últimos acontecimentos, as incertezas causadas pela política comercial provavelmente tiveram um papel”, apontou  comunicado do Ministério da Economia da Alemanha numa referência às medidas adotadas por Trump. 

Além das tarifas impostas pelos americanos contra o aço europeu, a Alemanha também acabou se prejudicando diante das incertezas sobre como ficariam as regras comerciais entre os dois maiores pilares da economia mundial - China e EUA. 

“Os novos dados decepcionantes mostram sinais iniciais da tensão comercial afetando a economia alemã, o que não é um bom sinal para as previsões industriais no segundo semestre do ano”, indicou o economia do ING Bank, Carsten Brzeski. 

Os dados estão sendo publicados no mesmo dia em que o Fundo Monetário Internacional alertou sobre a relutância da Alemanha em reduzir seu superávit comercial, o que estaria contribuindo para as tensões comerciais e colocando riscos na estabilidade financeira global. 

Numa entrevista ao jornal Die Welt, o economia chefe do FMI, Maury Obstfeld, alertou que “em países com superávit, como a Alemanha, temos visto medidas hesitantes para conter esse desequilíbrio”, disse. 

Há anos o Fundo vem pedindo que a Alemanha incentive de forma mais efetiva a demanda doméstica, elevando salários e investimentos para que os desequilíbrios entre as regiões deficitárias e as superavitárias possam ser diminuídos. O argumento acabou sendo emprestado por Trump para atacar a política comercial alemã. 

No mês passado, Trump concordou em aplicar tarifas de importação contra carros europeu, enquanto os dois lados negociam um acordo. Quem respirou aliviado com o acordo entre os americanos e o presidente da Comissão Europeia, Jean-Claude Juncker, foi justamente a indústria de veículos da Alemanha. 

 

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