Renato S.Cerqueira/Futura Press
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Maior aversão ao risco faz Bolsa cair 2,69%

Ibovespa voltou aos 91 mil pontos; para governo e analistas, Brasil tem mais a perder do que a ganhar com novo capítulo da guerra comercial

Luciana Dyniewicz e Lorenna Cardoso, O Estado de S.Paulo

13 de maio de 2019 | 17h27
Atualizado 14 de maio de 2019 | 08h53

SÃO PAULO E BRASÍLIA - O acirramento da guerra comercial entre China e Estados Unidos levou Bolsas de todo o mundo a registrarem seus piores resultados desde o começo do ano. No Brasil, o Ibovespa, principal índice da B3, caiu 2,69% e fechou em 91.726 – o menor patamar desde 7 de janeiro.

O dólar, após ultrapassar a barreira dos R$ 4, encerrou cotado a R$ 3,98, alta de 0,87%. Em Nova York, o Dow Jones terminou em queda de 2,38% e o S&P 500 perdeu 2,41%. Os dois apresentaram o pior desempenho porcentual desde 3 de janeiro.

O mercado de ações começou a se deteriorar após a China anunciar que vai retaliar os EUA impondo tarifas de até 25% sobre US$ 60 bilhões em produtos americanos a partir de 1º de junho. A decisão de Pequim, divulgada na segunda-feira, é uma resposta à entrada em vigor, na última sexta-feira, de um aumento tarifário de 10% para 25% sobre US$ 200 bilhões em produtos chineses. No fim da tarde de segunda, os EUA formalizaram ainda uma proposta para elevar as tarifas de mais US$ 300 bilhões em produtos chineses - ou a totalidade do que é importado do país asiático. Antes de essa nova medida entrar em vigor, será realizada uma audiência pública.

Apesar de o conflito comercial ter se intensificado, o presidente dos EUA, Donald Trump, disse nesta segunda-feira que se encontrará com o presidente chinês, Xi Jinping, no mês que vem e que espera que as discussões sejam “muito proveitosas”. Trump havia ampliado seus ataques contra a China na sexta-feira, depois que dois dias de negociações comerciais de alto nível em Washington terminaram em impasse. Trump acusou os chineses de rejeitarem compromissos assumidos durante meses de negociações, o que é negado por Pequim. Segundo os EUA, a China tentou excluir, de um acordo prévio, compromissos de alteração de suas leis que criariam uma nova política para temas como propriedade intelectual e transferências de tecnologia.

Desde o começo do ano, havia uma expectativa de que os países chegassem a um acordo que colocasse fim à disputa – o que não foi completamente descartado por analistas.

Brasil

Além dos impactos na Bolsa e no câmbio, decorrentes da aversão ao risco por parte do investidor, o Brasil pode sofrer com uma eventual desaceleração da economia global provocada pela disputa comercial, dizem analistas. “Se a guerra de fato ganhar essa escala, as duas maiores economia do mundo devem desacelerar e poderá haver impacto para o crescimento dos demais países, com queda de exportações de forma generalizada”, diz Mauro Rochlin, professor de economia da FGV.

No governo brasileiro, a avaliação é que o País tem mais a perder do que a ganhar com o novo capítulo da guerra. A preocupação é maior com a redução de investimentos do que com o impacto na balança comercial.

A previsão é que a “temperatura” da economia mundial baixe, o que pode afastar investidores de mercados emergentes e prejudicar o Brasil. “Não é do interesse do País, que precisa de um cenário internacional positivo em um momento em que estamos fazendo reformas duras internas. Ainda que se possa ganhar algo pontual, se o cenário internacional piorar, é pior para o Brasil”, disse uma fonte da área econômica.

No ano passado, no entanto, o conflito entre Pequim e Washington beneficiou o Brasil, que aumentou suas exportações para o mercado chinês em US$ 8,1 bilhões. Metade desse crescimento veio da ampliação nas vendas de produtos que sofriam mais diretamente com a concorrência americana, segundo pesquisa da Confederação Nacional das Indústria (CNI). A tendência é que o Brasil possa voltar a se beneficiar com o aumento das exportações para a China de produtos como soja, milho, carne e algodão. “Pode-se comemorar no curto prazo, mas, no médio, há risco de desaceleração”, afirma o gerente de negociações internacionais da CNI, Fabrizio Panzini.

Para Welber Barral, ex-secretário de Comércio Exterior do Ministério do Desenvolvimento, o setor agrícola pode ter preços pressionados novamente conforme a China amplia suas medidas de retaliação, o que favoreceria o Brasil. “A China vai tentar, principalmente, atingir o agronegócio americano, que é um setor apoiador de Trump.” Barral afirma que ainda há uma expectativa que os países fechem o acordo, mas não é possível saber quanto tempo isso levará. / COM REUTERS

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