Guerra da fome, de OGMs e biocombustíveis

Artigo

Gilles Lapouge *, O Estadao de S.Paulo

15 de abril de 2008 | 00h00

Um chefe de governo caiu no sábado por causa dos tumultos causados pela fome. Foi no Haiti, um dos países malditos do mundo. Mas a fome devasta outros países. Eclodem conflitos em Bangladesh, Senegal, Marrocos, Egito, etc. Os países ricos e os organismos internacionais, estupefatos, acordam do torpor. Eles compreendem uma coisa: que não compreenderam nada, e que se os ricos persistirem na sua cegueira, a fome se tornará uma convidada permanente, e trágica, no século 21.Dominique Strauss-Khan, diretor (socialista) do Fundo Monetário Internacional (FMI), teme que o caos desemboque em "guerras da fome".Sem pretender explicar esse drama, pode-se prever que esse novo flagelo vai subverter alguns dogmas, certezas e comportamentos.Os países ricos acreditavam que a questão alimentar estava resolvida e que era preciso agora refletir em outras formas de agricultura, com ênfase em culturas "bio", mais centradas na qualidade que na quantidade. Pretendia-se acabar com a agricultura "produtivista". A França sonhava com um campesinato um tanto arcaico, um tanto elitista, saudável, belo, que dispensaria essas "pragas" que são os adubos químicos e os organismos geneticamente modificados (OGMs).Mas os tumultos motivados pela fome nos fazem lembrar que a primeira necessidade é produzir depressa e de maneira menos cara. O uso dos OGMs, nessas condições, deveria ser banido como uma grande parte da esquerda exige na França? O planeta enfrenta um dilema doloroso: ou bem voltar a uma agricultura produtivista utilizando todo o arsenal das novas tecnologias, ou bem se aferrar a um modelo razoável que privilegie mais a qualidade que a quantidade, com o risco de condenar à fome até 2 bilhões de pessoas.Os tumultos motivados pela fome atraem a ira contra os biocombustíveis. Jean Ziegler, conselheiro da ONU sobre alimentação, escreve: "Quando se lança nos Estados Unidos, graças a U$ 6 bilhões em subvenções, uma política de biocombustíveis que drena 138 milhões de toneladas de milho do mercado alimentar, assentam-se as bases de um crime contra a humanidade". É verdade que Ziegler, cidadão suíço de esquerda, nos habituou com análises violentas em estilo bombástico, mas sua opinião é compartilhada por cabeças menos quentes que a dele - por exemplo, a Agência Internacional de Energia: "Se quisermos misturar 5% de biocombustível à gasolina, será preciso consagrar 15% das terras cultiváveis européias".Em poucos anos, a Indonésia se tornou o maior produtor mundial de óleo de dendê. Para isso, ela arrasou imensas florestas naturais, especialmente de turfa, um ecossistema muito especial formado por uma acumulação de matérias orgânicas. Uma floresta de turfa contém 30 vezes mais carbono que uma floresta úmida normal.Com isso, a Indonésia subiu do 21º para o 3º lugar na lista dos maiores emissores de gases causadores de efeito estufa, logo atrás dos Estados Unidos e da China.*Gilles Lapouge é correspondente em Paris

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