Guerra de nervos por Belo Monte

Guerra de nervos por Belo Monte

A menos de um mês do leilão, esquenta a disputa para construir e operar a maior hidrelétrica do mundo controlada por empresas privadas

David Friedlander, O Estado de S.Paulo

29 de março de 2010 | 00h00

Dias atrás, correu na praça o boato de que um dos dois consórcios de empresas interessados na hidrelétrica de Belo Monte tinha desistido do leilão. Um grupo é encabeçado pela Andrade Gutierrez. O outro, pela Camargo Corrêa e pela Odebrecht. Não se sabe como a história começou, mas ela se espalhou rapidamente. "Parece que o outro consórcio está fora", disse ao Estado um alto executivo de um dos consórcios. No grupo rival, outro executivo foi mais sutil: "Ouvi também. Mas aqui não foi". Alimentado pelos dois lados, o boato tem um pouco de provocação contra os adversários. Mas serviu, principalmente, para manter o governo sob pressão.

A 22 dias do leilão, a guerra de nervos é uma prévia do que promete ser a competição por Belo Monte. A divulgação do edital, primeira etapa da disputa, detonou uma descarga elétrica em alguns dos maiores grupos privados do País. Eles querem sair do leilão do dia 20 de abril carregando embaixo do braço a concessão para explorar a terceira maior hidrelétrica do mundo. Detalhe: as duas maiores usinas, a chinesa Três Gargantas e Itaipu, são estatais. Belo Monte será, portanto, a maior usina hidrelétrica do mundo controlada por empresas privadas.

O primeiro embate, no entanto, é com o governo. As empresas dizem que a tarifa máxima fixada para a usina, de R$ 83 o megawatt/hora, não remunera o investimento e pedem compensações para fazer frente ao preço que, segundo elas, é baixo. Na quinta-feira à noite, executivos da Camargo e da Odebrecht trataram o assunto em Brasília com o ministro das Minas e Energia, Edison Lobão. Para hoje está marcada uma nova rodada de negociações, mas entre técnicos do governo e das empresas.

Com custo estimado em R$ 19 bilhões pelo governo ? e em cerca de R$ 30 bilhões pelas empresas interessadas ?, Belo Monte interessa a uma gama enorme de empresas. São grandes grupos econômicos com investimentos no setor elétrico, indústrias que têm na energia um dos seus principais insumos e as construtoras, que cobiçam a obra.

Isso explica por que Camargo, Odebrecht e Andrade são destaque no processo. Eles têm investimentos pesados no setor elétrico (a Camargo controla a CPFL, a Andrade é sócia da Cemig e a Odebrecht quer crescer no ramo) e são donos das maiores construtoras do País.

Com uma rentabilidade de 10% a 15% ao ano, o investimento em energia garante um mercado cativo e em expansão, já que o País precisará consumir cada vez mais energia para continuar crescendo. Segundo estimativas do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), há tanto interesse no setor de energia elétrica que ele deverá receber R$ 92 bilhões em investimentos entre 2010 e 2013. Nenhum outro segmento de infraestrutura, diz o banco, receberá tanto dinheiro no período.

Os consórcios. No consórcio liderado por Camargo e Odebrecht está também o fundo de pensão Funcef, dos funcionário da Caixa Econômica. No grupo da Andrade, entraram a Vale, a Votorantim e a Neoenergia.

Os dois grupos disputam ainda algumas adesões de peso, como o grupo franco-belga Suez, maior produtor privado de energia do País e o grupo siderúrgico Gerdau. O Suez é a grande esperança do governo para aumentar a competição no leilão. O Planalto tenta convencer o grupo a liderar um terceiro consórcio. Essa possibilidade, até o momento, parece pouco provável.

Se Belo Monte entrasse em operação hoje, com a tarifa-teto de R$ 83 por megawatt-hora fixada pelo governo, proporcionaria uma receita mínima de R$ 3,3 bilhões a seus donos. Antes de entrar em operação ela também vai gerar negócios. No pico da construção, Belo Monte deverá empregar cerca de 20 mil pessoas, usar 2.800 equipamentos entre caminhões, gruas e guindastes, e deslocar 230 milhões de metros³ de terra, mais do que o Canal do Panamá. É um sonho para empreiteiros e fornecedores.

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