Guerra do aço congela investimentos de R$ 1 bilhão

Depois do boom de investimentos do período pós-privatização, as siderúrgicas brasileiras terão de suspender o novo bloco de incentivos que cogitavam deflagrar a partir de 2003. Pelo menos US$ 457 milhões (R$ 1,073 bilhão, ao câmbio atual) seriam aplicados em 2004 e 2005 em modernização do parque industrial, segundo projeções das empresas. As novas medidas protecionistas dos Estados Unidos, anunciadas na semana passada pelo presidente George W. Bush, congelaram, ao menos temporariamente, o planejamento do setor. O receio não está limitado ao mercado americano, mas ao efeito dominó que isso deverá provocar em todo o mundo. Investimentos mais pesados, que este ano chegam a US$ 1,137 bilhão e, em 2003, a US$ 450 milhões, estão garantidos. "As medidas anunciadas até o momento em grande parte terminam em 2003. Estas, que estão em curso, serão mantidas, mas as siderúrgicas estavam cogitando um nova onda de investimentos que não ocorrerá pelo menos até que se tenha mais clareza da situação", afirma o economista Germano Mendes de Paula, da Universidade Federal de Uberlândia. Especialista em siderurgia, ele está preparando um estudo sobre a competitividade do setor encomendado pelo Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior. Compasso de esperaO setor siderúrgico entrou em compasso de espera desde o início do ano, aguardando a decisão do governo americano. As medidas adotadas foram mais rigorosas do que a expectativa no Brasil. "Depois de uma medida como esta, todos vão parar para ver o que acontece. Agora é prematuro tomar qualquer decisão", comenta o presidente da Usiminas, Rinaldo Campos. Segundo ele, a empresa concluiu sua fase de grandes investimentos e nos próximos três anos não fará nenhuma obra de vulto. A prioridade agora é a redução do endividamento de R$ 3,37 bilhões que a expansão exigiu, 55% dele em dólar. Campos lembra que, dos 4 milhões de toneladas de aço comercializados pela Usiminas no ano passado, somente 20% foram exportados e uma pequena parcela teve como destino os Estados Unidos. "Para a Usiminas, o efeito dessas medidas é mínimo", afirmou. Já a Cosipa, empresa coligada ao grupo, está numa situação peculiar: inaugurou em dezembro passado uma nova aciaria para ingressar no mercado de produção de semi-acabados, dominado no País pela Companhia Siderúrgica de Tubarão (CST), que só fabrica esse tipo de produto. A previsão é de colocar no mercado este ano 1,1 milhão de toneladas de placas - produto usado como insumo pela própria indústria siderúrgica e que foi o principal alvo das medidas restritivas do governo Bush. Desse total, entre 600 mil e 700 mil toneladas serão destinadas à exportação para o mercado americano. "Vamos sentar e negociar a fatia que caberá a cada empresa no bolo delimitado pelo governo americano. Certamente a negociação não agradará a ninguém, mas vamos em consenso minimizar as perdas", comentou o diretor comercial da Cosipa, Renato Vallerini. O executivo confirma que o principal temor do setor não é a relação Brasil-Estados Unidos. "O que realmente preocupa são os efeitos colaterais da horizontalidade dessa decisão, principalmente nas conseqüências que trará para mercados como o da União Européia, Japão e Coréia do Sul", comentou. Sem investimentos no momentoEnquanto isso, afirmou, "ninguém vai fazer investimentos". Vallerini lembrou que desde o início das privatizações, em 1993, foram investidos cerca de US$ 12 bilhões em atualização tecnológica das usinas siderúrgicas. Segundo dados do Instituto Brasileiro de Siderurgia (IBS), o programa previa que os empreendimentos chegassem a US$ 14 bilhões até 2005. O vice-presidente do IBS, Marco Polo de Mello Lopes, lembrou que dos 28 milhões de toneladas de aço produzidos pelo Brasil, historicamente apenas 20% são destinados à exportação. "A presença das siderúrgicas brasileiras no mercado internacional é um importante balizador para a composição de preço", comentou, lembrando que o País não investiu, nos últimos dez anos, em ampliação de capacidade instalada, mas em tecnologia de ponta. Para não perder mercado, o setor, com representantes do governo, está analisando brechas na legislação americana para inserir mais produtos. O secretário executivo da Câmara de Comércio Exterior (Camex), Roberto Gianetti da Fonseca, afirmou que o Brasil "poderia estar produzindo o dobro ou triplo do aço que produz hoje, se nos anos 80 e 90 não houvesse aceitado as restrições, inclusive ´voluntárias´, a que foi pressionado aceitar pelos Estados Unidos, imaginando que fossem temporárias". Ele lembrou que para um país colocar salvaguardas dentro das regras da Organização Mundial do Comércio, precisa provar que há dano à indústria local, nexo causal (prova de que são os importados a causa dos problemas da indústria local) e mostrar que a restrição imposta à importação vai resolver o problema de competitividade da indústria local. "Nada disso se tem certeza que vai acontecer. Lá falta competitividade e investimento. Querem dar sobrevida a uma indústria velha, não competitiva e que tem de fechar", afirma.

Agencia Estado,

10 de março de 2002 | 10h41

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