'Guerra do câmbio existe e reforça o protecionismo' presidente do Conselho de Análise Econômica da França

ENTREVISTA

Andrei Netto CORRESPONDENTE / PARIS, O Estado de S.Paulo

30 de setembro de 2010 | 00h00

Christian de Boissieu, presidente do Conselho de Análise Econômica da França

As advertências do ministro da Fazenda, Guido Mantega, e do presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, de que uma guerra de desvalorizações cambiais pode estar em curso, não são novidade para um economista francês. O dólar atingiu ontem seu mais baixo valor em relação ao euro nos últimos seis meses. No mercado de câmbio, ? 1 era cotado a US$ 1,3631, em nítida alta em relação à cotação da véspera, de US$ 1,3583.

Há pelo menos um ano, Christian de Boissieu adverte para a subvalorização do dólar e o desequilíbrio internacional. Segundo ele, há risco não apenas para países desenvolvidos, como os da União Europeia, além do Japão, mas também para emergentes, apesar do bom momento econômico. "Estou inquieto pelo euro, pelo iene, mesmo pelo real."

A seguir, a síntese da entrevista ao Estado, ontem em Paris.

Duas autoridades brasileiras, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, e o presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, advertiram para o risco de que uma guerra de câmbio seja causada por desvalorizações artificiais de divisas. O sr. acredita que essa guerra possa existir de fato?

Essa guerra existe e corre o risco de se reforçar. Por quê? Porque estamos saindo da crise, mesmo que a turbulência não tenha acabado. E, nesse período em que o desemprego é muito elevado em alguns países da Europa e nos EUA, a demanda interior é pressionada pelo desemprego. Assim, os países são tentados a sair da crise dopando as exportações. É aí que entra a subvalorização das divisas. Há 3 ou 4 anos estou inquieto com o dólar. Mesmo que ele tenha caído durante vários meses em relação ao euro durante a crise grega, hoje ele volta a se desvalorizar. O dólar está caindo também ante o iene e, é claro, o yuan não ficará atrás. O problema do desemprego é sério e está levando os governos a procurarem saídas no câmbio.

Essa guerra do câmbio tende a ser mundial ou deve se limitar a poucas moedas?

Em cada região do globo, os países vão tentar desvalorizar suas divisas para estimular as exportações. Mas é claro que nem todas as moedas podem se desvalorizar ao mesmo tempo. Estou inquieto pelo euro, pelo iene, mesmo pelo real, que está se valorizando neste momento. Esse cenário vai complicar a saída da crise e criará conflitos e tensões no G-7 e no G-20. A França, por exemplo, tem razão ao afirmar que é necessário evocar os desequilíbrios e o sistema monetário internacional.

O sr. adverte que a guerra cambial é alternativa para reestimular o crescimento interno. Mas quais opções poderiam ser adotadas que não a desvalorização?

Não há receita miraculosa. É um caso grave, que eu particularmente evoco há cerca de um ano: a guerra de moedas está a caminho e o perigo é de um aumento do protecionismo. Em breve, a subida de moedas como o euro será prejudicial à competitividade dos produtos, o que vai pode implicar mais protecionismo. Não creio que a Europa vá assumir iniciativas protecionistas, mas é evidente que o tema está sobre a mesa e precisa ser discutido. A solução é extremamente difícil. Estamos desprovidos de instrumentos para enfrentar o problema, que não se limita apenas à taxa de câmbio, mas também à formação das reservas e ao peso do dólar. A moeda americana é cada vez mais contestada, sem no entanto ser substituída.

Como todo conflito, essa guerra terá vencedores e perdedores. Quem é quem nessa batalha?

A guerra cria, sim, ganhadores e perdedores. Os ganhadores são os Estados Unidos, cuja moeda não para de baixar, a China, que não permitirá a valorização do yuan, e os países atrelados ao dólar. Os perdedores são países como o Japão, que já foi obrigado a intervir por meio de seu Banco Central. E considero também que países emergentes, como o Brasil, estão na lista de potenciais perdedores.

O G-20, que se reúne em novembro em Seul, pode buscar uma solução para o impasse?

Nos últimos dois anos o G-20 não abordou esse tema. Do lado francês, há preocupação com a assimetria monetária, com o privilégio do dólar. Também é motivo de reflexão pelos chineses, que reclamam um sistema monetário internacional multidivisas. O problema é que não creio no futuro dos SDRs, a unidade do Fundo Monetário Internacional (FMI), apontada como saída. Mas esse tema será abordado nas reuniões do G-8 e do G-20 de 2011, na França.

O Brasil dispõe de uma ferramenta para tentar controlar o excesso de ingresso de capital de curto prazo no país, um imposto chamado IOF. O sr. acredita na eficácia de um imposto sobre o fluxo de capitais?

Esse imposto não chega a ser uma novidade. O Chile fez o mesmo há 30 anos e a Suíça também já teve experiência similar. Taxar a entrada de capital ou criar reservas obrigatórias à sua entrada são duas maneiras de lutar contra o excesso de fluxo de capital. Mas o problema é o fluxo de curto prazo. Se entram em um país investimentos de longa duração, ótimo. Se entra capital de curto prazo, atenção, porque a moeda pode até mesmo ser desestabilizada. Uma taxa como a brasileira, o IOF, serve como uma espécie de juro negativo. Em lugar de apenas receber juros positivos, o investidor se vê diante de juros negativos, o que pode desestimular o fluxo. Mas não é totalmente eficaz, porque, quando o capital quer entrar, entra, e, quando quer sair, sai.

QUEM É

PhD em Economia pela Sorbonne e pós-doutorado pela Universidade Harvard, é professor da Sorbonne e desde 2003 preside o Conselho de Análise Econômica da França, nomeado pelo primeiro-ministro francês. Foi consultor do Banco Mundial e da Comissão Europeia. Publicou vários livros e artigos e escreve regularmente nos jornais franceses Le Figaro, Le Monde e Les Échos.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.