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Guerra negada

Nem o ministro da Fazenda, Guido Mantega, voltou a denunciar os grandes bancos centrais por provocarem guerra cambial com suas fartas emissões de moeda nem a presidente Dilma Rousseff voltou a acusar os mesmos bancos centrais, pelas mesmas razões, por produzirem tsunami monetários que prejudicam os emergentes.

Celso Ming, O Estado de S.Paulo

30 de março de 2013 | 02h03

Só para passar um espanador na memória, a partir da eclosão da crise de 2008 os grandes bancos centrais, especialmente o Federal Reserve (Fed, o banco central dos Estados Unidos), o Banco Central Europeu (BCE) e o Banco do Japão (BoJ), injetam colossais volumes de moeda com as quais ou compram moeda estrangeira (caso do BoJ) ou adquirem títulos no mercado.

O resultado é impressionante despejo de dinheiro nos mercados onde vêm zanzando freneticamente. Um dos efeitos dessa enorme operação conjunta é a desvalorização das moedas fortes e o afluxo de capitais estrangeiros aos câmbios dos emergentes. A principal queixa de Mantega e Dilma é que a tendência à valorização relativa das moedas dos emergentes (baixa do dólar) tira competitividade ao produto nacional por encarecê-lo em moeda estrangeira. É o que, de longa data, economistas ingleses chamam de políticas que transformam o vizinho em mendigo (beggar-thy-neighbour policies).

Embora nem Mantega nem Dilma tenham insistido na condenação dos grandes bancos centrais, na quarta-feira o assunto voltou a figurar, embora sem a ênfase de antes, no comunicado dos chefes de Estado que encerraram a reunião de cúpula de Durban (África do Sul).

O fato mais relevante é que a recuperação da economia americana e certa estabilização da economia da área do euro esvaziam esse tipo de reclamação. Quase nenhum analista espera hoje que essas denúncias gerem alguma alteração nas regras de comércio exterior ou na estratégia de política monetária dos grandes bancos centrais. E, no entanto, apenas o Fed, desde 2008, injetou quase US$ 2,5 trilhões nos mercados e segue comprando títulos à proporção de US$ 85 bilhões por mês.

Em todo o caso, em conferência realizada em Londres, dia 25, o presidente do Fed, Ben Bernanke, entendeu que devesse rechaçar as teses do empobrecimento da vizinhança. Argumentou que essas enormes emissões de moeda pelos grandes bancos centrais buscam tão somente a recuperação econômica global, e não a desvalorização das moedas fortes com intuito de tirar vantagem comercial de outros países, sobretudo dos emergentes.

A principal consequência dessas políticas de afrouxamento monetário quantitativo - é esse o nome que levam hoje - é altamente benéfica para os demais países - e não o contrário, argumenta Bernanke, porque recoloca em movimento as locomotivas do mundo, a que todos aspiram.

Segue-se, no entendimento dos dirigentes dos países ricos, que trabalhar contra essas políticas, como está no comunicado dos Brics, é trabalhar contra a recuperação da economia mundial.

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