Guerra nos postos vai além de preços

O combustível vem sendo apontado como o grande vilão da inflação. Desde o início do ano, o preço do álcool e da gasolina explodiu. Foram quatro aumentos consecutivos - e um reajuste total de cerca de 20% para o consumidor final. Com isso, os mais de 28 mil postos de gasolina do País começaram a travar uma guerra para conquistar clientes. No front, dois grupos: os que oferecem preços baixíssimos e aqueles que alegam não poder combater a concorrência. Mas a briga esconde detalhes: a qualidade do combustível. Preço mais baixo pode ser sinônimo de uma mistura venenosa para o motor do veículo. "No final, o barato sai caro", adverte Élcio Pinto Ribeiro Junior, proprietário de um posto de gasolina. "Se o combustível for de qualidade ruim, o motor do carro pode apresentar problemas mais tarde." Nessa guerra, quem fica perdido é o consumidor.O governo tentou frear a alta dos preços. Primeiro colocou a venda seus estoques reguladores; depois ameaçou cassar a licença de distribuidores e abriu processo, em diversas capitais do País, contra a cartelização de preços feita pelos postos. Esta semana, a Agência Nacional de Petróleo (ANP), órgão regulador do produto, verificou a variação de preço nos principais estabelecimentos do Brasil e informou o resultado da pesquisa no seu site oficial (veja link abaixo). O presidente do Sindicato do Comércio Varejista de Derivados de Petróleo do Estado de São Paulo (Sincopetro), José Alberto Paiva Gouveia, não gostou nem um pouco da atitude da ANP. Para ele, quando a Agência destaca os postos que vendem gasolina a preços baixos estimula o consumo de produtos de origem, no mínimo, duvidosa. Segundo Gouveia, para baratear tanto os preços, os postos de gasolina têm de vender combustíveis adulterados. "Como alguém pode estar vendendo o litro a R$ 1,35, quando o meu preço de custo é de R$ 1,37?", desafia Gouveia.Briga de vizinhosA ANP pesquisou os preços dos combustíveis em todo o País. O resultado demonstrou uma realidade impressionante: postos que funcionam na mesma região cobram preços muito díspares pela "mesma" gasolina. Na Zona Leste de São Paulo, dois postos estão em "guerra". O Posto Cangaíba cobra R$ 1,33 pelo litro da gasolina e o Posto Ases do Volante, na mesma região, está vendendo a gasolina para o consumidor por R$ 1,57.Os representantes dos postos usam inúmeros argumentos para explicar as diferenças. Segundo Denilson de Jesus Chaga, gerente do Cangaíba, seu posto compra a gasolina da Petrobras por R$ 1,27 e lucra somente R$ 0,06 - bem menos que os R$ 0,15 aconselhados pela ANP. Ele explica que não paga frete pois usa caminhões próprios para transportar o combustível. E garante: "Nossa gasolina foi fiscalizada e aprovada pelo Inmetro." O órgão garante a fiscalização da qualidade do combustível quando ele chega à bomba, mas ninguém garante uma inspeção diária no ponto de venda. Para Élcio Ribeiro Junior, dono do Ases do Volante, o preço de R$ 1,33 é absurdo. Segundo ele, seu preço de custo é de R$ 1,37 e o repasse de R$ 0,20 deve-se à qualidade do combustível.

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