Guerra poderia anular fatos positivos na economia, diz Ipea

O Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), órgão do Ministério do Planejamento, divulgou nota de conjuntura hoje afirmando que a eclosão da guerra no Iraque "poderia mais do que compensar todos os fatos positivos ocorridos na economia e na política brasileira nos últimos meses". O economista do Ipea Marcelo Nonnenberg, que elaborou a nota, disse que "na hipótese de uma guerra, três fatores jogam contra: a elevação dos preços do petróleo, uma possível redução da economia mundial e o aumento da aversão internacional ao risco, com conseqüente redução dos empréstimos e investimentos para o Brasil".A alta do petróleo deve elevar os gastos do País com a importação do produto que, nesse caso, deve superar os US$ 5 bilhões, influindo no sentido de reduzir o saldo comercial brasileiro e pressionando os preços dos combustíveis no Brasil. Ao mesmo tempo, a guerra pode frear o crescimento da economia mundial. As perspectivas para esse crescimento em 2003, lembra a nota do Ipea, "já não são muito brilhantes", situando-se entre 2% e 2,5%. "Isso dificulta o aumento das exportações", observa Nonnenberg.O outro efeito provável da guerra, segundo o Ipea, o aumento da aversão internacional ao risco e a menor oferta de capitais aos países em desenvolvimento, como o Brasil, tende a dificultar o financiamento do déficit das transações de comércio e serviços do Brasil com o exterior, além de desvalorizar o Real e assim pressionar a inflação.O Ipea lembra que se prevê que a guerra tenha uma duração pequena. Nesse caso, diz a nota, "esses efeitos teriam caráter transitório e, portanto, seriam passíveis de serem financiados através dos organismos financeiros internacionais, em particular o FMI (Fundo Monetário Internacional), ou através das reservas internacionais existentes hoje".Na mesma nota o Ipea observa que a valorização do real foi menos intensa que a redução do risco-Brasil, medido pelo deságio dos títulos da dívida externa brasileira conhecidos como C-Bonds. Segundo o Instituto, isso "sugere que os movimentos recentes na taxa de câmbio têm sido afetados por variáveis externas, principalmente o aumento da probabilidade de guerra no Iraque".Apesar disso, Nonnemberg não quis comentar com mais profundidade os possíveis efeitos da guerra no câmbio, na inflação e nos juros. "O governo tem mecanismos para controlar essa alta do câmbio", disse Nonnemberg. "Se de fato o dólar subir e gerar mais inflação, os juros são um dos mecanismos para controlar isso", observou o economista.O economista do Ipea lembrou que na quinta-feira os ministros da Fazenda, Antônio Palocci, e do Planejamento, Guido Mantega, desautorizaram o chefe da assessoria econômica do Ministério do Planejamento, José Carlos Rocha Miranda, que projetou um aumento da taxa básica de juros de até três pontos percentuais se a guerra dos Estados Unidos com o Iraque se estender por mais de três ou quatro meses. Os juros estão em 25,5% ao ano. Mantega desautorizou Miranda, classificando de "equivocada e exagerada" a avaliação de seu auxiliar sobre os possíveis impactos de um conflito.CaptaçãoO Ipea coloca entre os progressos da economia que podem ser revertidos em caso de guerra o fato de que a captação de empréstimos de médio e longo prazos em janeiro atingiram um "nível muito superior à média mensal verificada ao longo de 2002". O Ipea cita a cifra de US$ 2 bilhões captados por operações desse tipo no mês passado noticiadas pela imprensa.A nota do Ipea faz referência também às expectativas do mercado de ter uma taxa de câmbio de R$ 3,60 por dólar para o fim de ano, segundo o Boletim Focus, do Banco Central, "nível muito próximo ao praticado no final de janeiro". De acordo com o Ipea, "à medida que o mercado financeiro for percebendo que as diretrizes da política econômica serão, de fato, mantidas, pode-se esperar um aumento do ingresso de capitais externos, que acarretaria uma valorização ainda maior do real, revertendo o movimento de alta observado no final de janeiro". Isso, no caso de não haver guerra.Veja o índice de notícias sobre o Governo Lula-Os primeiros 100 dias e a área econômica

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