Daniel Leal/AFP - 24/02/2022
Daniel Leal/AFP - 24/02/2022

Invasão da Ucrânia deve elevar inflação e desacelerar o PIB no Brasil, dizem economistas

Banco Central pode ter de ampliar a alta dos juros para combater efeitos nos preços, avaliam especialistas

Márcia De Chiara e Renée Pereira, O Estado de S.Paulo

24 de fevereiro de 2022 | 13h36
Atualizado 25 de fevereiro de 2022 | 12h24

A consequência da invasão da Rússia à Ucrânia na economia brasileira deve ser o reforço de um quadro de estagflação - ou seja, um aumento da inflação com a redução do ritmo de atividade. Na avaliação de economistas, o efeito deverá ser imediato na já combalida economia brasileira.  

O economista Armando Castelar, pesquisador associado do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre) da Fundação Getulio Vargas (FGV), diz que haverá reflexos no preço do petróleo, dos combustíveis, trigo, pão e alimentos, que devem ficar mais caros. Nas contas do economista, a projeção para o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) para este ano deve passar dos atuais 6% para 6,2% a 6,3%. A previsão de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) para 2022, por sua vez, que  era de 0,6%, deve recuar para algo entre 0,3% a 0,4%. 

Castelar lembra que o resultado do IPCA-15 deste mês, de 0,99% e acima do esperado, já indica que talvez o Banco Central tenha de ir além de 12,25% ao ano com a Selic, a taxa básica de juros. E, com  esse choque, ele acredita que essa tendência possa ser reforçada. “Possivelmente, além da reunião (do Comitê de Política Monetária) de março e de maio, vai ter de subir juros em junho.”

Na avaliação do economista e consultor, Alexandre Schwartsman, o conflito entre Rússia e Ucrânia afeta produtos importados pelo Brasil, como petróleo, gás e trigo. “Quando há um aumento de preços em produtos que exportamos mais, há o impacto da inflação, mas também há o efeito positivo para o produto, o que movimenta a atividade. Nesse caso, teremos só o impacto do aumento de preços.” 

Além disso, destaca ele, a pressão de alta do dólar também tem um efeito inflacionário. Só hoje (24/2) a moeda americana subiu 2,02% ante o real, de R$ 5,01 para R$ 5,10. A moeda vinha experimentando nos últimos dias um movimento de baixa e chegou a ficar abaixo de R$ 5,00. “Esse é um cenário em que os países emergentes podem ter dificuldades para captar recursos”, diz Schwartsman

 

Para Castelar, a primeira reação a choques deste tipo, tanto por parte de  investidores do mercado financeiro como da economia real, é segurar os planos e aguardar para avaliar o que fazer. Esse tipo de choque também amplia a aversão ao risco, fortalecendo as aplicações em títulos do Tesouro Americano, que são papéis mais seguros. “Países emergentes são vistos como mais arriscados.”

O reflexo desse movimento, observa o economista, deve ser uma suspensão temporária na apreciação do real, algo que se acelerou nas últimas semanas com a forte entrada de capital na Bolsa. No entanto, Castelar frisa que o padrão histórico observado em choques provocados por conflitos  internacionais mostra que eles são transitórios. Isto é, são críticos num primeiro momento e, gradativamente, há uma acomodação. “Esses choques não duram muito tempo.” A sua previsão é que num prazo entre quatro a seis meses a economia estará reagindo e a tendência é que os fundamentos econômicos prevaleçam. 

Reação da diplomacia brasileira

Como o Brasil irá se posicionar na diplomacia com os Estados Unidos, China e Europa por conta da mudança na geopolítica mundial em razão do conflito entre Rússia e Ucrânia é o ponto mais importante, na opinião do economista-chefe da MB Associados, Sergio Vale, a ser acompanhado nos próximos meses. Ele observa que dependendo dessa nova configuração, isso pode ter impacto nos investimentos no Brasil no longo prazo.

“Nesse mundo mais arisco que está surgindo e o Brasil com dificuldade nessas três esferas e se aproximando justamente do pária internacional que se transformou a Rússia, isso pode ter consequências”, frisa o economista.

Vale dizer que o primeiro impacto do conflito deve aparecer  na inflação e na pressão altista das cotações  do petróleo, algumas commodities agrícolas, como trigo e milho. “Poderemos ter alguma pressão adicional a uma inflação já pressionada.”

Bruno Imaizumi, economista da LCA Consultores, também aponta a pressão inflacionária como foco de preocupação neste momento, especialmente nos preços de grãos, trigo, milho e petróleo, que estão subindo no atacado e devem chegar ao consumidor.

Por enquanto, a LCA não mudou a projeção para o ano de um IPCA de 6%. Depois da divulgação do IPC-A15 de fevereiro, que veio acima das expectativas, a consultoria passou a considerar viés de alta nessa projeção, que agora foi reforçado por causa desse conflito.

Outro impacto do conflito, alertado por Imaizumi, é uma piora  no fluxo das cadeias globais de produção que já estavam com problemas por causa da pandemia. Segundo ele, esse quadro pode se agravar agora, com aumento de preços de fretes internacionais, por exemplo.

A economista Zeina Latif, consultora econômica, também avalia que o primeiro impacto do conflito aparece no canal comercial, com a subida de preços das commodities, dos fertilizantes, petróleo e derivados. Mas ela lembra que parte desse impacto já havia sido computado nos preços das matérias que já vinham em trajetória de alta.

No entanto, a economista ressalta que os impactos  do ponto de vista financeiro ainda são incertos. “Não estamos na região de conflito, onde o país pode ser diretamente afetado.” Zeina lembra que no passado, quando houve conflitos no Oriente Médio, o mercado sacudia alguns dias  e depois acalmava.

Ela pondera, no entanto,  que hoje  a configuração mundial é diferente. “Não sabemos  se esse confronto pode ser o prenúncio de algo mais preocupante, temos uma postura mais beligerante da Rússia e  da China.”

Na opinião de Zeina, desde que o conflito não atinja maiores proporções, ele só terá efeito de curto de prazo para o Brasil.

A economista da Tendências, Alessandra Ribeiro, lembra ainda de uma questão setorial importante que pode afetar a economia nacional, que é a importação de fertilizantes da Rússia. "Teremos de ver quão fácil será esse comércio diante do conflito", diz ela.  A Rússia é uma das principais exportadoras do insumo para o Brasil e, em janeiro, respondeu por 30,1% dos adubos e fertilizantes que entraram em território nacional, segundo informações do Ministério da Economia. 

Outro ponto, segundo Alessandra, é avaliar o impacto das sanções à Rússia na economia mundial. A restrição de venda de vários produtos vai ter impacto na atividade econômica, podendo reduzir o PIB mundial. Nessa situação, o Brasil - que já está com uma economia enfraquecida há algum tempo, também seria afetado. "Isso tudo dificulta o comércio, eleva os preços e reduz crescimento." 

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