PSR - 4/6/2019
Luiz Augusto Barroso; 'um preço do petróleo alto deixa algumas tecnologias verdes mais competitivas', afirma Barroso.  PSR - 4/6/2019

‘Hidrogênio como produto de exportação ficou mais concreto’, diz especialista

Para Luiz Augusto Barroso, conflito no leste europeu deve acelerar o desenvolvimento de tecnologias para substituir o uso do gás natural

Renée Pereira, O Estado de S.Paulo

26 de março de 2022 | 05h00

O diretor-presidente da consultoria especializada em energia PSR, Luiz Augusto Barroso, acredita que a guerra entre Rússia e Ucrânia vai acelerar o desenvolvimento de tecnologias para substituir o uso do gás natural. E uma de suas principais apostas é o hidrogênio verde. Mas ele também acredita que uma das mudanças para a transição energética resultante da guerra será a maior aceitação da energia nuclear.

A seguir, trechos da entrevista. 

Qual o efeito da guerra no processo de transição energética?

A Europa já era um dos continentes mais avançados na transição energética antes de a guerra começar. Esse processo pode se acelerar ainda mais, já que o imperativo geopolítico está alinhado e o ambiente atual pressiona ainda mais a redução da dependência dos combustíveis fósseis. Isso pode dar um impulso ao desenvolvimento de novas tecnologias necessárias para substituir alguns usos do gás natural na Europa, como o hidrogênio. Há poucos dias a Comissão Europeia apresentou uma meta de importar 10 milhões de toneladas de hidrogênio em 2030. Antes da guerra, a Rússia se apresentava como um dos principais exportadores do produto para a Europa, aproveitando a proximidade geográfica e a infraestrutura física existente de gás. Agora, a Rússia fica fora do que deve se tornar o principal mercado importador de hidrogênio. 

Mas alguns países já falam em reativar usinas a carvão e nucleares. Isso significa um retrocesso?

Na Europa, a reativação das usinas a carvão é uma decisão pragmática, mirando o curto prazo, num contexto de crise de energia elétrica. Por enquanto, isso não afetou os planos de redução do uso de carvão a médio e longo prazo, o que seria, sim, um retrocesso justificado apenas pela necessidade de independência energética. O caso da nuclear é diferente: é uma tecnologia praticamente sem emissões de gases de efeito estufa, que é social e politicamente aceita em alguns países, mas não em outros. Seu problema é basicamente econômico. A curto prazo, postergar o descomissionamento (retirada) das nucleares em alguns países, como a Alemanha, seria também uma decisão pragmática para reduzir a dependência do gás russo. Mas, até agora, apenas a Bélgica tomou uma decisão neste sentido. Talvez uma das grandes mudanças para a transição energética resultantes dessa guerra será a maior aceitação da energia nuclear.

Qual a sua aposta em termos de novas tecnologias? 

Um preço do petróleo alto deixa algumas tecnologias verdes mais competitivas. Por exemplo, quem dirige carro elétrico está menos exposto ao preço do petróleo, o que pode acelerar a entrada da mobilidade elétrica e a implantação da infraestrutura necessária. Em outros casos, onde as tecnologias não estão maduras ainda, um preço do petróleo mais alto pode acelerar o desenvolvimento e a demonstração de novas tecnologias, como o uso de combustíveis sintéticos para a aviação ou transporte marítimo. O negócio do hidrogênio como commodity de exportação ficou mais concreto. E, nesse contexto, o hidrogênio verde pode ganhar espaço. É também razoável apostar em um renascimento das nucleares e uma aceleração em tecnologias de captura e sequestro de carbono. O cenário atual também traz a importância das ações pelo lado da demanda, abrindo uma oportunidade para organizar a agenda da eficiência energética, onde há espaço para muito ganho no comércio e indústria. Devemos ter ações de transformação da forma como se consome a energia, desde a adoção da eletrificação até o estímulo pelo uso de outros energéticos. De nada adianta termos oferta de hidrogênio e eletricidade abundante, se a maior parte da demanda não funcionar a hidrogênio e eletricidade.

Como fica o Brasil nesse processo?

O Brasil tem uma posição privilegiada nesse processo. Apesar de importar GNL (Gás Natural Liquefeito), que deve ficar mais caro, o País exporta petróleo e pode se beneficiar da alta conjuntural dos preços. O Brasil tem a matriz de geração elétrica com mais renováveis entre as grandes economias mundiais, e o segundo maior uso de renováveis no transporte, vantagens estratégicas que o País pode aproveitar. As fontes limpas de produção de eletricidade já são as mais econômicas. O aumento da ambição nessa área faz sentido, trazendo novamente as hidrelétricas com reservatórios para o planejamento. A aceleração da transição europeia, que vai requerer combustíveis limpos importados, abre oportunidades para o Brasil exportar produtos energéticos e industriais verdes. A meta de importação de hidrogênio da Europa cria grandes oportunidades para o Brasil com o hidrogênio verde, quando o combustível entrar na equação. O valor do hidrogênio para o País pode ser alavancado pela produção de fertilizantes a partir da amônia.

Como a alta de preços de energia vem afetando os ambientes de mercado?

Na Europa o aumento dos preços de eletricidade e gás já vinha ocorrendo antes da guerra. Todos os governos buscaram maneiras de proteger, pelo menos em partes, os consumidores do repasse dos aumentos. Foram criadas operações de financiamento de aumentos tarifários muito parecidas com as que o Brasil fez na pandemia e na crise hídrica. A guerra na Ucrânia trouxe uma nova e maior escalada de preços e que pode se estender por mais de um ano. A Comissão Europeia discute interferir, em caráter emergencial, nos mercados de energia elétrica e gás. Várias são as medidas discutidas como subsídios para alívio nas contas de energia/gás e parcelamentos/postergação de prazos para pagar as faturas. Para financiar esses auxílios, estão na mesa propostas de uma taxa sobre lucros excessivos (“windfall profits”) de empresas do setor de energia, especialmente grupos com geração de energia, além do uso de fundos governamentais, como os obtidos com a taxação do carbono. Outra medida vislumbrada pela Comissão, e que tem ganhado apoio, é a adoção de preços-teto para o gás e para a geração de energia elétrica neste contexto de guerra. 

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Petróleo caro e isolamento da Rússia aceleram a busca por fontes alternativas de energia

Especialistas afirmam que, historicamente, conflitos têm potencial para provocar grandes transformações na sociedade; guerra na Ucrânia pode ser um impulso para a energia limpa, acelerando a transição energética

Renée Pereira, O Estado de S.Paulo

26 de março de 2022 | 05h00

A elevada dependência da Europa pela energia russa será o combustível para o mundo acelerar a transição energética nos próximos anos. Desde a invasão da Ucrânia pela Rússia, algumas medidas já apontam para mudanças significativas na geopolítica energética do mundo, a exemplo da parceria anunciada ontem entre Estados Unidos e União Europeia. O plano é exportar gás natural liquefeito (GNL) americano para suprir a demanda europeia e reduzir as compras da Rússia.

Especialistas afirmam que, historicamente, conflitos como o atual têm potencial para provocar grandes transformações na sociedade. Mas, desta vez, o movimento será mais complexo. Ao mesmo tempo que vários países já começam a acelerar novas tecnologias para substituir o petróleo e cumprir as metas de descarbonização, eles também estão recorrendo a fontes tradicionais, demonizadas no passado, como o carvão. Há também iniciativas para postergar o desligamento de unidades nucleares. No curto prazo, a ordem é garantir a segurança energética da população.  

 

Na avaliação de especialistas, a transição energética, que até então era um dos assuntos mais relevantes do mundo, não deixará de ser pauta. Mas esse processo terá muitos avanços e retrocessos. “A Europa, por exemplo, vai ter de reorganizar o fornecimento de energia no curto prazo, e não será com energia limpa”, diz George Almeida, sócio-diretor da consultoria Roland Berger. Neste momento, ela precisa de soluções rápidas, que já estão à mão.

Alternativas

No longo prazo, a corrida por novas tecnologias pode antecipar em quatro ou cinco anos a redução da dependência do combustível da Rússia. Nesse cenário, os veículos elétricos devem ganhar mais competitividade diante da volatilidade do petróleo, que chegou a bater US$ 140 dólares o barril no início do mês e continua com o preço elevado. A mobilidade elétrica pode aumentar sua participação no mundo, ganhar preços mais populares e acelerar a infraestrutura necessária para crescer.

O hidrogênio verde, produzido por meio da eletrólise da água, que separa o hidrogênio do oxigênio, também vai ganhar novo impulso diante do agravamento do conflito. Chamadas mundiais para criar núcleos de produção de hidrogênio já começam a pipocar na Europa, diz a professora do Departamento de Química da Universidade Federal de São Carlos Lucia Helena Mascaro, que trabalha no desenvolvimento de catalisadores para reduzir o consumo de energia no processo de separação do hidrogênio do oxigênio.

Antes de o conflito ter início, já havia quase 360 projetos para a produção de hidrogênio verde em grande escala no mundo, o que somava US$ 150 bilhões (R$ 753 bilhões, pelo dólar de ontem) em investimentos, segundo a consultoria McKinsey. Se o número já era considerado o começo de uma revolução, o montante esperado para agora tem potencial para tornar esse combustível mais competitivo e viável.

Lucia explica que os investimentos envolvem sobretudo soluções para destravar dois grandes gargalos do mercado de hidrogênio. O uso intensivo da energia é um deles. Uma planta de eletrólise de 90 megawatts (MW), por exemplo, produz 11.100 toneladas de hidrogênio. É pouco diante de uma demanda de milhões de toneladas. Só a Alemanha quer comprar inicialmente 5 milhões de toneladas. Ou seja, encontrar soluções que reduzam o consumo de energia elétrica é primordial para a expansão do combustível no mundo.

Logística

Outro desafio é encontrar alternativas de transporte do hidrogênio. Um dos métodos avaliados pelo mercado é transformar o hidrogênio em amônia e transportá-la em navios por grandes distâncias. No destino, a amônia verde pode ser usada diretamente na indústria, como na fabricação de fertilizantes, ou transformada novamente em hidrogênio. O produto também pode ser transportado na forma de gás comprimido ou liquefeito. 

Encontrar a solução para essas questões significa baratear o custo. Hoje o preço do quilo do hidrogênio cinza (produzido com energia poluente) é US$ 2. O verde, feito com energia limpa, está entre US$ 5 e US$ 8. O objetivo é que, até 2040, esteja abaixo de US$ 1. 

“Esse processo será acelerado porque os países vão investir nesse combustível. Para sair do oligopólio do petróleo e gás, vão fazer mais leilões de energia eólica e solar (consideradas as principais fontes no processo do hidrogênio verde)”, diz o coordenador do Grupo de Estudos do Setor Elétrico (Gesel/UFRJ), Nivalde de Castro. O Brasil, por causa do potencial nas duas fontes elétricas, pode se tornar um grande fornecedor de hidrogênio para o mundo – calcula-se que, para se aproveitar desse mercado, seria necessário dobrar a capacidade atual da matriz elétrica brasileira, de cerca de 180 gigawatts, só com energia limpa. 

Mas a transição energética não vai ocorrer apenas com energias renováveis. A polêmica energia nuclear também deve ganhar espaço nessa nova realidade. “As empresas não falavam muito sobre essa fonte, mas ela nunca deixou de estar nos planos, pois tem capacidade para gerar muita energia”, diz o sócio da KPMG Anderson Dutra. Além disso, diz ele, pode ser considerada energia limpa, que não emite gases de efeito estufa.

Na avaliação dele, no Brasil, a situação é um pouco diferente. Como a matriz já é sustentável (48% da matriz energética e 80% da matriz elétrica), o pré-sal deve ser ainda bastante explorado. O gás natural, afirma o executivo, deve ser a base dessa transição. Além de garantir segurança, por não ser intermitente como eólica e solar, é menos poluente. 

O gás e as energias eólica e solar vão receber muitos investimentos, afirma Dutra. “O conflito fortalece a corrida pelas renováveis e pela segurança energética. Muitos entenderam que ter produção interna é questão de soberania nacional”, diz a presidente da Associação Brasileira de Energia Eólica (Abeeólica), Elbia Gannoum. “Mas temos de ter em mente que essa é uma pauta de longo prazo.”  

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