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Guilherme Boulos e a nova esquerda

Candidato do PSOL à prefeitura de São Paulo parece ter-se dado conta da nova direção dos ventos, mas por enquanto é voz isolada

Celso Ming, O Estado de S.Paulo

18 de novembro de 2020 | 14h59
Atualizado 18 de novembro de 2020 | 23h17

Já é um bom avanço entender que as esquerdas tradicionais perderam terreno nessas eleições e que seu espaço começa a ser ocupado por uma esquerda mais moderna e mais moderada, que tem como um dos seus líderes Guilherme Boulos, candidato a prefeito de São Paulo. Mas é preciso ir além. É preciso entender por que essa mudança está ocorrendo.

A esquerda que está sendo desidratada no Brasil é a que cresceu no sindicalismo tradicional, o que se baseava na defesa dos interesses do trabalhador da indústria de transformação. Batalhava por mais conquistas trabalhistas e pelo aumento dos salários dos que já desfrutavam de um contrato formal de trabalho, que ainda dava direito a outros benefícios, como plano de saúde, fundo de pensão e colônia de férias.

Essa esquerda e esse sindicalismo ajudaram a fortalecer a chamada elite do proletariado. Foram responsáveis também para que, em determinado período, ganhasse corpo certo acordo tácito pelo qual os trabalhadores da indústria de veículos obtivessem os melhores salários do mercado e a indústria pudesse repassar aumentos de custos para o preço dos seus produtos, sem ter sequer de divulgar balanços auditados. 

Esse velho sindicalismo não se importa muito com o desempregado nem com a situação precária dos já aposentados e dos que logo chegariam a essa condição. Em grande número de casos, os dirigentes desses sindicatos se perpetuavam no poder e tiravam proveito próprio do bolão do imposto sindical arrecadado com contribuições compulsórias dos associados, mamata que felizmente acabou.

Esse sindicalismo está sofrendo de Alzheimer não porque a reforma trabalhista o tenha abatido – como muita gente pensa –, mas porque o momento é de enorme transformação na natureza do trabalho. A nova arrumação do sistema produtivo, a automação e o largo emprego de tecnologia de informação não estão dispensando apenas instalações, máquinas e áreas de almoxarifado; estão dispensando mão de obra.

Todos os dias a gente se depara com informações de que grandes empresas estão promovendo planos de demissão voluntária e fechamento irreversível de fábricas, como aconteceu com a Ford em São Bernardo do Campo. E isso vale, também, para a área de serviços, mais de 70% do PIB. Basta conferir o que está acontecendo nos bancos, no comércio varejista e até mesmo na construção civil, setores conhecidos até recentemente como grandes empregadores de pessoal.

Não se farão mais greves e grandes concentrações como se viam nos anos 1970 e 1980 no Estádio da Vila Euclides, em São Caetano e em Osasco, movimentos que desembocaram na criação do PT.

Hoje as coisas estão mudadas. As greves se tornaram ocasião para que o patrão eventualmente atrasado no processo de modernização de sua empresa tome consciência de que precisa intensificar a automação, o emprego de aplicativos, a escalada para o estágio da indústria 4.0 e para participação nas cadeias globais de produção e distribuição. A pandemia, por sua vez, mostrou-lhe como pode cortar os custos de seus escritórios, por meio do trabalho em home office. Portanto, o empresário está sendo empurrado para operar com menos funcionários.

A principal mudança na natureza do trabalho é a perda de importância relativa do emprego celetista e aumento da importância das atividades por conta própria (autônomas). Para o bem e para o mal, ficou mais difícil distinguir trabalho informal de trabalho autônomo, situação que começa a se tornar cada vez mais normal.

A esquerda convencional já vinha enfrentando rápido processo de esclerose. Na política, passou a disputar o poder, não como meio para defender mais adequadamente o interesse público, mas para disputar o poder pelo poder. O candidato do PT em São Paulo, Jilmar Tatto, não foi escolhido porque tinha a melhor plataforma em benefício do trabalhador paulistano, mas porque dominou a máquina do partido, por meio da qual arrancou sua indicação, que ninguém reverteu, mesmo depois que se viu que sua candidatura não tinha densidade eleitoral.

Boulos parece ter-se dado conta da nova direção dos ventos. Mas, por enquanto, é apenas voz isolada, acolhido em partido fraco. Corre o risco de ser engolido pela burocracia e pelo mesmismo, contra o qual diz lutar. Ou, pior, de ser engolfado pelo radicalismo. Mas já mostrou que as esquerdas têm novo caminho a percorrer.

*CELSO MING É COMENTARISTA DE ECONOMIA

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