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Da sua tela para sua casa

As múltiplas etapas do comércio eletrônico, levando ao limite as cadeias logísticas

Guy Perelmuter*, O Estado de S.Paulo

02 de junho de 2022 | 04h00

Uma sofisticada rede que envolve pessoas, computadores, robôs, caminhões, aviões e navios é acionada a cada compra que realizamos, milhões de vezes por dia. De acordo com a eMarketer, uma empresa de pesquisa de mercado que apresenta tendências relacionadas a marketing digital, mídia e comércio, até o final de 2023 mais de 20% das compras realizadas no varejo serão online, totalizando mais de US $6,5 trilhões. Este valor é quase o triplo daquele observado em 2017. 

Conforme discutimos na coluna passada, toda complexidade logística necessária para atender os nossos desejos como consumidores foi abstraída com um simples botão — e às vezes nem isso. Na véspera do Natal de 2013, a Amazon registrou a patente US 8.615.473: “Método e sistema para envio antecipado de pacotes” (Method and system for anticipatory package shipping), indicando seus planos para enviar artigos de consumo para seus clientes antes mesmo deles realizarem o pedido. É a combinação do uso dos dados com algoritmos inteligentes que permitem que a empresa seja capaz de prever, com algum grau de sucesso, qual será nossa próxima demanda — geralmente, produtos de uso contínuo como sabonete, pasta de dente, comida para cachorro e afins. 

Ao longo dos últimos dois anos, a relativa fragilidade desta cadeia de distribuição ficou exposta devido a três eventos bem definidos: o incidente com o cargueiro Ever Given (que também discutimos na coluna passada), a covid-19 e a invasão russa na Ucrânia.   

Uma vez que o custo unitário da vasta maioria dos produtos consumidos regularmente é relativamente baixo, torna-se crítico para os fabricantes reduzirem ao máximo seus gastos com manufatura. Isso é possível graças a uma combinação de mão-de-obra barata com custos de transporte reduzidos — algo que foi obtido a partir da padronização dos contêineres (cujo uso se popularizou a partir de meados da década de 1950) e do estabelecimento de frotas de navios cargueiros operando ininterruptamente ao redor do mundo. Independentemente do local da produção, tornou-se economicamente viável mover o produto para qualquer lugar do mundo, onde quer que os consumidores estivessem. 

Em seu livro Arriving Today: From Factory to Front Door — Why Everything Has Changed About How and What We Buy (algo como “Chegando hoje: da fábrica à porta da frente — por que tudo mudou sobre como e o que compramos”), o jornalista Christopher Mims, do Wall Street Journal, discute em detalhes a jornada de um produto adquirido online, da tela do computador até a porta da casa de um morador dos EUA: a jornada começa em uma fábrica no Vietnã para uma barca que navega até um porto, onde é iniciada uma viagem em um navio cargueiro (com capacidade para dez mil contêineres ou mais) que cruza o oceano Pacífico ao longo de um mês até chegar ao porto de Los Angeles ou de Long Beach (que, juntos, representam nada menos que 40% do total de produtos importados pelos Estados Unidos e 30% do total de produtos exportados). 

Uma vez que o navio esteja atracado, os contêineres são descarregados (em um processo que pode levar de três a quinze dias) e organizados em uma área específica do porto para serem coletados por caminhoneiros, responsáveis por levar cada container para centros de distribuição (CDs) pré-determinados. Alguns destes locais ocupam mais de 70.000 m2  — o equivalente a cerca de oito campos de futebol — e são precisamente nestes CDs que é possível observar a fusão do trabalho de seres humanos e robôs (que efetivamente acabam por ditar o ritmo das operações). Sua missão é selecionar, embalar e despachar, entre os milhares de itens recebidos e armazenados, exatamente aqueles que fazem parte do pedido realizado por determinado consumidor. É por isso que, em inglês, essas estruturas são chamadas de fulfillment centers: são os “centros de preenchimento” ou “atendimento”.

A etapa final envolve a transferência, usualmente por caminhões ou vans, dos pacotes devidamente organizados com o pedido original para que estes sejam entregues até seu destino final. Nos Estados Unidos, a “última milha” da jornada do produto da tela do consumidor para sua casa era usualmente realizada por entidades como os correios, DHL, FedEx e afins. Entretanto, em mais um efeito direto da nova economia sobre o mercado de trabalho, centenas de pessoas usam seus próprios carros (ou vans alugadas pelo próprio e-commerce) para realizar as entregas em troca de um pagamento pré-determinado.

Com a jornada do produto completa, podemos analisar de forma objetiva os impactos que essa nova forma de relacionamento entre consumidores e seus bens vão provocar em múltiplos setores da economia: a logística, os gargalos, a necessidade de automação e os efeitos no mercado de trabalho, entre outros. Este será o tema da próxima coluna — até lá.

*FUNDADOR DA GRIDS CAPITAL E AUTOR DO LIVRO "FUTURO PRESENTE - O MUNDO MOVIDO À TECNOLOGIA", VENCEDOR DO PRÊMIO JABUTI 2020 NA CATEGORIA CIÊNCIAS. É ENGENHEIRO DE COMPUTAÇÃO E MESTRE EM INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL

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