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Tão simples quanto 1, 2, 3

A jornada da web, parte do dia-a-dia de bilhões de pessoas, pode estar prestes a sofrer mais uma inflexão

Guy Perelmuter*, O Estado de S.Paulo

03 de março de 2022 | 04h00

Conforme já vimos, de forma simplificada podemos dizer que o metaverso é o “ambiente” onde ocorrem transações virtuais com impactos no mundo real ou virtual, que o blockchain é responsável pela segurança e integridade dos dados, que as criptomoedas são a "moeda" de compra e venda (podendo ser convertida para moedas tradicionais) e que os NFTs certificam a posse e a originalidade de um ativo digital, usualmente implementados através dos chamados contratos inteligentes

Agora, chegou a vez de falarmos da web3 — que, juntamente com o metaverso e as NFTs, tornou-se um dos termos mais mencionados no universo de tecnologia nos últimos meses. Novamente, é importante ressaltar que o entendimento destes três conceitos irá ajudar a separar o que pode realmente adquirir relevância econômica e estratégica versus aquilo que pode ser apenas uma onda passageira.

Um bom ponto de partida para entender do que se trata a web3 é diferenciá-la de suas duas predecessoras: a Web 1.0 e a Web 2.0.

O surgimento dos navegadores — em inglês, browsers — foi o momento no qual a Internet começou a demonstrar seu potencial transformacional, com a possibilidade de alcançar qualquer usuário. Até então, o acesso à rede era feito utilizando-se comandos de texto, onde era exigido do usuário um mínimo de proficiência no uso de computadores. Mais do que isso, praticamente todos os computadores conectados estavam ou em instalações militares ou em universidades e centros de pesquisa.

Foi justamente em um centro de pesquisa — mais precisamente no CERN (Conseil Européen pour la Recherche Nucléaire, ou Conselho Europeu para Pesquisa Nuclear) — que o cientista de computação britânico Tim Berners-Lee desenvolveu, em 1989, o conceito que está por trás da forma como o texto desta coluna está chegando até você: um protocolo de hipertexto, com links que conectam diversas páginas entre si. Quase imediatamente após isso, os primeiros navegadores (browsers) surgiram, dando início a uma verdadeira guerra pela dominância do espaço: Mosaic, Internet Explorer, Netscape, Firefox, Opera, Safari, Chrome e Edge são apenas alguns dos mais conhecidos.

A Web 1.0 é o período de aproximadamente 15 anos que vai do surgimento dos primeiros navegadores até 2004. Trata-se de um modelo relativamente simples: usuários basicamente consomem as informações disponibilizadas pelos editores, que eram os únicos com alguma (limitada) capacidade de monetização. Era uma web para leitura apenas.

A Web 2.0 — a Internet que utilizamos em nosso dia-a-dia — tornou-se interativa: ao mesmo tempo em que consumimos o conteúdo apresentado, também fornecemos informações para os provedores. Essas informações manifestam-se de múltiplas maneiras: através de nossas buscas, likes, blogs, postagens, vídeos assistidos e produzidos, compras, e assim por diante. Essa dinâmica permitiu que os principais agentes da Web 2.0 — que posteriormente seriam conhecidos como Big Techs — utilizassem os dados que nós, seus usuários, fornecem diariamente para melhorar seus algoritmos, aperfeiçoando seus serviços e por consequência aumentando sua base de clientes e negócios. Mas isso não foi tudo que eles fizeram.

Uma parte significativa dos serviços oferecidos aos usuários por essas empresas é gratuita, de forma que esses nomes sobrevivem em larga medida através de receitas de propaganda: em 2021, por exemplo, mais de 80% da receita de quase US$ 260 bilhões da Google veio deste segmento. Essas propagandas, ao longo do tempo, tornaram-se “personalizadas”. Se você fizer, por exemplo, uma busca para descobrir os melhores locais do mundo para realizar um salto de pára-quedas, é quase certo que em pouco tempo você irá encontrar em seu computador ou smartphone propagandas com ofertas de passagens aéreas para aquele local, ou lojas especializadas em equipamentos de paraquedismo. Estima-se que, atualmente, Google, Meta e Amazon representam 75% do mercado mundial de propaganda digital. 

Um dos principais conceitos por trás da web3 é tentar transferir o controle da rede e da remuneração econômica para os usuários — no limite, eliminando o modelo tradicional de gestão e utilizando as chamadas DAOs (Decentralized Autonomous Organizations, ou Organizações Autônomas Descentralizadas). Iremos falar sobre isso e sobre seus potenciais impactos no mundo dos negócios em nossa próxima coluna. Até lá.

*FUNDADOR DA GRIDS CAPITAL E AUTOR DO LIVRO "FUTURO PRESENTE - O MUNDO MOVIDO À TECNOLOGIA", VENCEDOR DO PRÊMIO JABUTI 2020 NA CATEGORIA CIÊNCIAS. É ENGENHEIRO DE COMPUTAÇÃO E MESTRE EM INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL

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