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Dan Kawa: Separar o ruído do sinal é a única forma de investir corretamente daqui para a frente

‘Há certo desencanto do investidor estrangeiro com o Brasil’, diz economista do Goldman Sachs

Anos de crescimento baixo, problemas políticos e agora questão ambiental comprometem reputação do País; Alberto Ramos participou da série de lives 'Economia na Quarentena', do 'Estadão'

Entrevista com

Alberto Ramos, chefe da área de pesquisas econômicas sobre América Latina do banco Goldman Sachs

Fernando Scheller e Mônica Scaramuzzo, O Estado de S.Paulo

22 de julho de 2020 | 10h00

A pandemia de coronavírus veio para complicar o cenário econômico brasileiro, que já era complexo: depois de anos de crescimento baixo, combinado com ruídos políticos e sociais, o País se tornou virou alvo de forte desconfiança internacional. A perda de investimentos estrangeiros, que já era realidade nos últimos anos, dependerá de um difícil equilíbrio: a sinalização de uma política fiscal mais responsável em meio a uma realidade de aumento de gastos para conter os efeitos da covid-19 na economia.

Segundo Alberto Ramos, chefe da área de pesquisas econômicas sobre a América Latina do banco americano Goldman Sachs, além da letargia econômica – o PIB brasileiro não cresce mais do que 2% desde 2013 –, há outros desafios: brigas políticas, a queda dos juros (que espanta o capital de risco) e, mais recentemente, críticas à política ambiental. “Há um certo desencanto (do investidor estrangeiro) com o Brasil”, disse Ramos, que participou nesta terça-feira, 21, da série de entrevistas ao vivo Economia na Quarentena, do Estadão.

Nesse sentido, diz o economista, a agenda de reformas continua a ser peça fundamental da recuperação da imagem brasileira lá fora: “Todo mundo entende que o governo não tinha como não fazer uma expansão fiscal por causa da pandemia. Mas agora é a hora de redobrar o esforço pelas reformas fiscais, para dar uma sinalização de médio e longo prazos.”

Leia, a seguir, os principais trechos da entrevista:

Como está a imagem do Brasil perante o investidor internacional atualmente?

A imagem do Brasil já passou por melhores dias, há um certo desencanto com o Brasil. O Brasil já vinha enfrentando dificuldades para apresentar um crescimento razoável (há tempos). A última vez que o PIB do Brasil cresceu mais de 2% foi em 2013. Já se vão sete anos. É um país hoje com uma taxa de juros muito baixa, pouco atrativo para fluxos de capital procurando retorno maior. Há uma razão boa e outra ruim para o juro estar tão baixa: a boa é o fato de a inflação estar controlada e a âncora monetária ser crível; a ruim é o mercado de trabalho debilitado, que mantém a inflação baixa. Há o persistente ruído político, com fricção entre os diferentes Poderes. Começou lá atrás, na reeleição apertada da Dilma Rousseff, e se mantém até hoje. Tivemos dois ministros da Saúde saindo, um ministro da Justiça (Sérgio Moro) bastante popular que também saiu do governo. E por último tem a questão ambiental, cujo foco aumentou muito recentemente. A visão do investidor é de pouco interesse no curto prazo.

O quanto a agenda ambiental equivocada, na prática, pode afetar a economia?

Pode atrapalhar, mas também pode ser uma oportunidade,  atrair volumes significativos de capital. Se isso não ocorrer, o Brasil pode ser penalizado. O grande investidor institucional tem preocupação ambiental. E o Brasil, como guardião da Amazônia, pode se prejudicar caso não tome as medidas percebidas como necessárias para a preservação. É uma agenda doméstica, também. Diria que o risco ambiental não é um custo enorme no curto prazo, mas no futuro pode ser. É mais um fator, em uma lista bastante longa, que atrapalha o Brasil.

O FMI chegou a prever queda de 9% para o PIB brasileiro em 2020. Agora, porém, bancos começaram a melhorar as previsões. Qual é sua visão?

Sem dúvida que os dados mais recentes têm superado um pouco as expectativas. Mas houve uma queda violenta da atividade em março e abril. Será que os dados de junho e julho são sustentáveis? Uma recuperação mais rápida, em “v”, não é o mais provável. Não é tão extraordinário que, após o fim do distanciamento social, a economia gerar números bem mais positivos. Mas estamos bem longe do nível de atividade pré-covid-19. Esse programa de R$ 600 está levando uma transferência de renda de quase R$ 50 bilhões por mês, o que é quase um Bolsa Família e meio anual. Isso ajuda a amortecer a queda. Mas o País não pode financiar essa generosidade por muito tempo. Infelizmente a gente não faz o que quer, faz o que pode.

Como conciliar uma agenda de ajuste fiscal e a necessidade de irrigar a economia?

A economia vai se reconstruir quando a restrição viral for removida. Esse problema só se resolve com um tratamento efetivo ou uma vacina. Vai ser uma recessão muito profunda, mas relativamente curta. O Brasil já tinha um problema fiscal muito sério. O Brasil já tem déficit primário há seis anos consecutivos. Para estabilizar a dívida, vamos ter de chegar em algum momento a um superávit. Com o covid, o governo teve de gastar muito mais. Estamos trabalhando com um déficit fiscal primário de 10% a 15% do PIB e com endividamento público de 95% a 100% do PIB. E como conciliar a agenda pró-crescimento com algumas medidas fiscais? Com as reformas, que se tornaram ainda mais urgentes. Todo mundo entende que o governo não tinha como não fazer uma expansão fiscal por causa da pandemia. Mas agora é a hora de redobrar o esforço pelas reformas, para dar uma sinalização de médio e longo prazos. 

O governo entregou ontem o texto da reforma tributária ao Congresso. Como o sr. vê esse texto neste momento?

Todo mundo concorda que é necessário fazer a reforma tributária. Primeiro porque a carga tributária é muito pesada comparada com países emergentes. E uma simplificação tributária, mesmo sem receitas extras, seria muito bem-vinda. Mas passamos da noção da reforma tributária neutra em termos de arrecadação para uma que tem alguns elementos de aumento da carga tributária, visando a financiar o aumento do gasto. A equipe econômica tem debatido a criação do Renda Brasil. O Brasil já tributava muito, gastava muito e investia pouco. Outra agenda importante é aumentar a eficiência do gasto (do dinheiro dos impostos), que hoje é muito baixa.

O auxílio emergencial deve virar permanente? O País precisa continuar com a distribuição de renda?

Sem dúvida é necessário o País continuar com a distribuição de renda. É uma das funções fundamentais do governo. É por isso que o sistema cobra mais impostos de quem tem mais dinheiro. Mas o grande instrumento de progressão social é o crescimento econômico. Se você redistribuir a renda, mas inibir o crescimento, o tamanho do bolo para distribuir diminui. Não se pode minar o investimento e a poupança.

Esperava-se, por causa do juro baixo, uma explosão de aberturas de capital na Bolsa brasileira. Ainda é possível que haja uma retomada desse movimento?

O covid gera muita incerteza, e claramente o mercado de capitais fica mais retraído. O ambiente juro muito baixo é muito bom para IPOs. Isso já estava acontecendo em 2018 e 2019. Esperava-se uma aceleração em 2020, que foi frustrada. O investidor estrangeiro tem até participado de IPOs e follow-ons, o pouco dinheiro tem chegado por aí. Mas tudo depende de crescimento. Se o crescimento voltar, o investimento também volta. 

A América Latina é uma região vista como pouco atraente em relação a outras áreas. O que aconteceu?

A América Latina já tinha problemas, especialmente de crescimento. O avanço médio dos últimos sete anos foi de 0,8% ao ano. A renda per capita já vinha declinando. A gente viu movimentos sociais no Chile, no Equador e até no Brasil, alguns anos atrás. Na Argentina isso é recorrente. A pandemia não ajudou, pois tornou um quadro bastante feio ainda mais complicado. Muitos países fizeram investimento em termos de contenção – como Argentina, Colômbia e Peru – e não conseguiram controlar o vírus de uma maneira efetiva. Pagaram o custo da atividade e impacto na renda sem ter o benefício da saúde pública. 

A partir da distribuição da vacina, a recuperação geral da economia pode ser muito mais rápida?

Pode, sem dúvida. Há um problema logístico e industrial. Vamos ter de produzir bilhões de doses. E nem todo mundo vai ter acesso imediatamente. É uma questão de quem pega a vacina primeiro. Mas a mudança do sentimento seria clara. Mostraria que identificou-se uma solução por problema em uma questão de meses. Determinados tipos de serviço – como viagens, eventos e turismo – só vão se recuperar mesmo depois de uma vacina ou um tratamento efetivo.

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