Ministério das Relações Exteriores
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'Há claramente decisão política de priorizar o mercado dos EUA', diz novo chefe da Apex

Após crise na Agência Brasileira de Promoção de Exportações, governo escolheu diplomata de carreira que já foi embaixador na Alemanha, Portugal e Chile

Entrevista com

Mário Vilalva, presidente da Agência Brasileira de Promoção de Exportações

Lorenna Rodrigues, O Estado de S.Paulo

15 de janeiro de 2019 | 18h42

BRASÍLIA - Depois da crise aberta na Agência Brasileira de Promoção de Exportações (Apex) com a nomeação de um presidente que ficou apenas uma semana no cargo, o novo presidente, Mário Vilalva, assumiu com a missão de concentrar esforços nos mercados eleitos pela nova política externa brasileira.

Em entrevista ao Estadão/Broadcast, Vilalva afirma que claramente já há uma decisão política de olhar com mais prioridade para o mercado norte-americano. "O que estamos interessados é em vender mais para os EUA, não em tomar partido. A linguagem comercial é algo que eles entendem", diz.

Em relação à China, maior parceiro comercial do Brasil, ele afirma que esperará uma definição do presidente Jair Bolsonaro e do ministro das Relações Exteriores para formular ações especificas. "Tudo será feito sem excluir outros mercados. É simplesmente olhar mercados que nos últimos tempos não foram vistos.", completou.

Na semana passada, o primeiro indicado por Bolsonaro para a presidência da Apex, Alex Carreiro, foi demitido do cargo sob acusações de ter um currículo fraco - ele não fala inglês - e de tentar aparelhar a agência. Ele chegou a se recusar a deixar o cargo mesmo depois do anúncio público de sua demissão pelo chanceler brasileiro.

O governo então apostou no embaixador Vilalva, que é diplomata de carreira desde 1976 e foi embaixador do Brasil na Alemanha, Portugal e Chile. "Acompanhei o processo todo, o ministro Ernesto Araújo agiu com extrema lisura. Acho que ele até engoliu alguns comentários que foram feitos em relação a ele", conclui. Veja os principais pontos da entrevista:

O senhor assumiu a agência depois de uma crise aberta com a nomeação de um presidente que ficou uma semana no cargo e se recusou a sair mesmo depois de sua demissão ser anunciada publicamente pelo ministro Ernesto Araújo (Relações Exteriores)

Olha, eu normalmente não gosto de falar do que ficou para trás, sou uma pessoa que olho para frente. Acompanhei o processo todo, o ministro Ernesto Araújo agiu com extrema lisura, em momento algum houve atitude antiética, nada disso. Acho que ele até engoliu alguns comentários que foram feitos em relação a ele sem tomar atitudes que não sejam corretas. A imprensa talvez não tenha todas as informações, mas posso garantir que ele agiu com total lisura, total ética, não houve nenhum tipo de atitude que não tenha sido correta.

A escolha do nome anterior (Alex Carreiro) foi criticada pela falta de experiência na área. Por que o senhor foi escolhido agora?

Sou colega do chanceler no Itamaraty, ele me conhece, fez uma escolha com base no meu currículo. Tenho uma longa trajetória nessa área, fui chefe do Departamento de Promoção Comercial do Itamaraty durante seis anos. Foi uma escolha técnica como tem sido a regra no atual governo.

O presidente Bolsonaro fez algum pedido para a sua gestão na Apex? E o ministro Araújo?

A ideia do presidente é que a Apex seja mais moderna, eficiente e que valorize concursados, diminua os cargos de livre nomeações. O ministro Araújo é presidente do conselho da Apex e nessa condição as primeiras instruções foram claras: promover o enxugamento da agência, atualizar métodos de trabalho, ter maior contato com o setor privado e o setor produtivo, mais sintonia com os setores exportadores. E manter sintonia com a política externa brasileira que vai assinalar prioridades.

A ordem é priorizar os países elogiados por Bolsonaro, com os quais o presidente quer estreitar relações?

Talvez ainda seja cedo falar em termos de regiões e países, mas a ideia é dar maior ênfase à relação bilateral. Nos últimos tempos, houve preponderância do multilateralismo em detrimento do bilateralismo. Não quer dizer que vamos deixar de olhar esse ou aquele mercado. Vamos olhar todos os mercados, mas podemos desenhar programas especiais para determinados mercados de acordo com o que o ministro e o presidente da República apontarem.

O mercado norte-americano será priorizado? E Israel?

Claramente já há uma decisão política de olhar com mais prioridade o mercado norte-americano, o que faz sentido. Nos últimos tempos, não foi dada tanta prioridade e vamos voltar a dar atenção a esse mercado. Eles também têm interesse em um retorno do Brasil ao mercado norte-americano, vamos analisar e formular programas. Posso também mencionar a Alemanha (onde era embaixador) que é um país importante. Israel também, vamos olhar com mais atenção, e tudo isso será feito sem excluir outros. É simplesmente olhar mercados que nos últimos tempos não foram vistos.

Essa aproximação com os norte-americanos não é tomar um lado na guerra comercial entre EUA e China?

Essa é uma questão que está fora da minha competência, mas acho que não. O que estamos interessados é em vender mais para os EUA, não em tomar partido em nada. A linguagem comercial é algo que eles entendem. Na Apex, o que queremos é que o produto brasileiro tenha mais espaço.

Como fica a atuação com a China, que é o maior parceiro comercial do Brasil, nesse novo contexto?

Vamos esperar uma definição, que será feita pelo presidente e o ministro, e aí vamos formular ações especificas. Não queremos excluir nenhum mercado.

Uma das ações da Apex era promover a participação brasileira na feira de Xangai. Ela será mantida?

Não vejo porque não ser mantida. Onde houver feira que produz resultados, estaremos presentes. O importante é saber se a feira produz resultados, é o que vamos avaliar. Seremos pragmáticos.

O senhor pretende rever as demissões e nomeações do ex-presidente Alex Carreiro:

Temos uma recomendação que vem do Tribunal de Contas da União (TCU) de que, no médio prazo, privilegiemos concursados. As pessoas que foram demitidas seriam eventualmente demitidas em algum momento para atender a essa recomendação porque eram cargos de livre nomeação. Também houve promoção de pessoas concursadas. Vamos olhar para frente.

Em quais setores da economia brasileira o senhor pretende focar o trabalho da agência?

Isso é o que eu quero olhar com calma, ainda é cedo para falar de setores. Preciso me atualizar das demanda dos setores exportadores e trabalhar para eles. Vamos atuar a partir daí, tendo em mente a sintonia com a política externa brasileira.

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