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Há de se observar a liturgia

Após debochar de vítimas da covid, Bolsonaro se engana ao imaginar que a empatia virá de uma foto sua composta para a mídia

Elena Landau*, O Estado de S.Paulo

23 de julho de 2021 | 04h00

Ao ver a foto do presidente de peito nu, não pude deixar de lembrar da frase do ex-ministro Marco Aurélio Mello: “Há de se observar a liturgia”. Foi usada para repreender uma advogada que se dirigiu aos membros da Corte por “vocês”.

Penso nela quando assisto nossos senadores na sessão da CPI da Covid. Abusam da liturgia. É um tal de “vossa senhoria” e “vossa excelência” para cá e para lá. Servem para se dirigir aos colegas e, também, às testemunhas, investigados, advogados ou assessores. Daqui a pouco, vale até para pedir cafezinho. Preferem errar por excesso. O pronome de tratamento não impede xingamentos, ameaças ou prisões, e vai perdendo sentido. Sempre dou risada quando sai: “Vossa excelência é um vagabundo”. Prontamente respondida por: “E vossa excelência, um picareta”.

Mario Henrique Simonsen dizia que tomou a decisão definitiva de sair do governo quando o general Figueiredo o recebeu de cuecas para discutir seu plano econômico. Lembro que vivi uma situação parecida. Fui convocada para uma reunião por meu chefe, que ainda se recuperava de uma cirurgia. No hospital, abro a porta do quarto e me deparo com a seguinte cena: ele fazendo mala, em pé de costas curvado com aquela camisolinha de hospital aberta atrás e nádegas de fora. Muita informação não requisitada. Há de se observar a liturgia.

Bolsonaro não é muito chegado às formalidades e ao decoro que o cargo exige. O tradutor de libras fica perdido com a escatologia verbal em suas lives e vai buscando gestos para acompanhar o presidente.

A sua imagem com a barriga de fora, cheio de eletrodos, calça de pijama e um cuidadoso crucifixo aparecendo no canto, é outro momento inesquecível. E ainda tinha uma sonda nasogástrica a compor a imagem. Ele a divulgou em sua conta oficial.

Outros presidentes já passaram por graves problemas de saúde. Temer teve problemas nas vias urinárias, mas nos poupou de fotos constrangedoras. Dilma, quando era ministra, e Lula, já fora do governo, tiveram câncer. Atravessaram dias difíceis com dignidade. Nenhum deles escondeu os efeitos do tratamento, mas não fizeram deles um espetáculo.

A família se reúne na hora do jantar e é presenteada pelo Jornal Nacional com desenhos do aparelho digestivo do presidente. Em lugar daquele colorido suave dos livros de ciência da escola, o realismo – desnecessário – das figuras traz um conteúdo marrom, enquanto uma alça do intestino incha, e a gente fica ali na torcida para que não exploda na nossa cara. Como se diz em inglês: too much information (muita informação).

Bolsonaro se engana ao imaginar que a empatia virá de uma foto composta para a mídia. Especialmente se o doente é alguém que jamais revelou um traço sequer de humanidade e solidariedade, que debochou do sufocamento que a covid causa no paciente, que fez piada da morte de mais de meio milhão de brasileiros e do luto de outros tantos mais, que sofreram a perda de parentes e amigos.

Quando Tancredo adoeceu, o País acompanhava com ansiedade notícias sobre a saúde do primeiro presidente da redemocratização. Não precisou de foto para receber as orações, promessas e torcida por sua recuperação. Todos se lembram de onde estavam quando sua morte foi anunciada. Choramos. Era a esperança de um futuro melhor.

Bolsonaro pode ficar tranquilo. Não se deseja mal a ele. Apenas que se recupere para enfrentar as consequências dos males que fez ao País. Melhor confiar na justiça dos homens, porque no Reino dos Céus não tem mesmo lugar para ele.

Reforma tributária 

Tenho o hábito de fotografar notícias de jornal sobre assuntos de economia. Fui fazer uma limpeza nas fotos e encontrei a agenda divulgada pelo ministro Guedes, em julho de 2019. Entre as promessas, está uma reforma tributária. Naquela altura, a PEC 45 já estava bem encaminhada. Mas o ministro só pensava na CPMF. Agora, apareceu uma nova reforma. Todo dia surgem novas ideias. Guedes deveria ouvir o podcast que Eduardo Guardia gravou para a Casa das Garças. Quem sabe aprenda a ser um ministro da Fazenda, em vez de ficar balançando o coqueiro. Guardia diz: “É importante ter uma agenda correta, comunicar bem à população e convencer o Congresso. Não há espaço para voluntarismo. Se achar que vai chegar sozinho e vai mudar tudo, não vai para lugar nenhum”.

*ECONOMISTA E ADVOGADA 

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