Gabriela Biló/Estadão - 7/9/2021
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Laura Karpuska
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Há dúvidas se Bolsonaro tem capacidade de moderar sua atuação e respeitar a democracia

Em carta divulgada ontem, Bolsonaro revelou que está com medo. Ele percebeu que pode sair da cadeira presidencial talvez impedido, se não preso

Laura Karpuska*, O Estado de S.Paulo

10 de setembro de 2021 | 04h00

A democracia é preciosa porque ela carrega dentro do seu sistema político a ideia da sua própria imperfeição. Críticas, flutuações de poder, mudanças de prioridades e pesos e contrapesos são conceitos embebidos dentro da democracia. Desconhecemos um sistema político que seja melhor do ponto de vista de eficiência, bem-estar e dignidade humana.

A democracia é indesejável quando se acredita na figura de um ditador benevolente, aquele que faria o melhor pensando sempre em nós. Ou pensando em algum grupo específico, ignorando demais compatriotas. Esse pensamento é ingênuo. Primeiro porque o grupo ignorado pode ser sempre aquele a que pertencemos. Mas mais importante: a maior ferramenta que temos para alinhar os interesses de um político ao coletivo é a possibilidade de punição futura nas urnas, ou pelo sistema de pesos e contrapesos. Sem isso, a tirania é tentadora demais.

O ideal é que o sistema de pesos e contrapesos não seja usado, que ele funcione como uma ameaça crível que nos direcione para o caminho do bom equilíbrio. As urnas deveriam ser ameaça suficiente para que o incumbente se endireite caso saia dos trilhos. A maior parte do discurso de Bolsonaro é focada na figura dele. Ele fala sobre si próprio, sobre perseguições que supostamente sofre.

Mas e o povo? O povo e seus problemas ficaram de lado. A agenda do governo, que sempre foi fraca e construída com pouco zelo técnico e político, agora está tomada pela agenda pessoal do presidente.

O único momento que lembro de ter ouvido Bolsonaro falar de nós foi quando ele disse: “Vocês passaram momentos difíceis com a pandemia, mas pior que o vírus foram as ações de alguns governadores e alguns prefeitos que simplesmente ignoraram a nossa Constituição”. 

Além do já conhecido descaso com a vida humana, Bolsonaro não só inverte a verdade, como também revela não entender o momento pelo qual o País e o mundo estão passando. E, além disso, parece não entender seu papel nisso tudo. “Querem que eu faça o quê?”, disse certa vez. 

Cartas de repúdio, queda constante da popularidade – apesar de um grupo de apoiadores fiéis de 20% da população –, vergonhas internacionais, morte de quase 600 mil brasileiros, críticas de técnicos e da imprensa, nada disso freou o presidente. O medo de perder a reeleição parece reduzido, pois Bolsonaro disse que não vai aceitar perder na urna.

Nos seus discursos de 7 de Setembro, o presidente também disse que só sairá da Presidência “preso ou morto”. Em nenhum momento, o presidente trouxe ou tentou resgatar qualquer projeto para o País. Foi um grande desabafo, onde ele discursava sobre seus problemas e pedia aplausos de empatia ao seu sofrimento. Mas e o sofrimento do povo?

Estamos acostumados com o autocentrismo de figuras políticas. Muitas vezes, mesmo disfarçando, tentando mostrar que se importam conosco, elas deixam transparecer o foco único e exclusivo em dar continuidade a algum projeto de poder que, muitas vezes, é individualista. No caso de Bolsonaro, nem disfarce há. Todo seu discurso é autocentrado.

Na coluna de 18 de junho (Impeachment), escrevi que não sabia se o impedimento do presidente seria o melhor para o País, que o ideal seria nos livrarmos de Bolsonaro nas urnas. Mas Bolsonaro se mostra pouco propenso a aceitar o processo democrático. Como fazer a democracia funcionar quando o presidente da República diz que não aceita o sistema político que o elegeu e que o mantém no poder?

Políticos não têm mesmo o direito de “esticar a corda” a ponto de prejudicar o País e os brasileiros, como Bolsonaro escreveu em sua carta divulgada ontem à tarde depois de encontro com o ex-presidente Michel Temer. Na carta, ele reconhece que atentou contra a democracia, apesar de dizer que foi com “nenhuma intenção”. Bolsonaro revelou que está com medo. Ele percebeu que pode sair da cadeira presidencial talvez impedido, se não preso.

Há dúvidas se o presidente tem capacidade de moderar sua atuação, respeitando a ordem democrática. Mas também importante é que o próprio presidente é o principal motivador do extremismo da sua base eleitoral. Será que sua base vai aceitar sua moderação?

*PROFESSORA DO INSPER, PH.D. EM ECONOMIA PELA UNIVERSIDADE DE NOVA YORK EM STONY BROOK

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