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Roberto Pereira/Estadão
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Há gente que quer só comida

É a solidariedade que marca a nossa civilização e a falta dela nos conduz à barbárie

Luís Eduardo Assis, O Estado de S. Paulo

24 de maio de 2021 | 05h00

O Brasil não conhece o Brasil. É comum nos atribuirmos, generosamente, atributos e qualidades que se contradizem com os fatos. Há quem, com saudades das aulas de geografia, se orgulhe puerilmente, por exemplo, da extensão de nosso litoral. Mas a costa brasileira é menor que a da Itália ou do Reino Unido e muito, muito menor que a costa do Canadá (a maior do mundo, mais de 25 vezes mais extensa que a costa do Brasil).

Também há quem pense que somos ricos. Não é bem assim. Pelos dados do Banco Mundial, o PIB per capita brasileiro, ajustado pela paridade do poder de compra e medido em dólares correntes, era o 89.º do mundo em 2019, logo abaixo do Gabão e 14% abaixo da média mundial.

Também faz parte do nosso autoengano coletivo a crença de que podemos até não ser ricos, mas somos generosos. Menos, menos. A Charities Aid Foundation (CAF) publica um ranking que classifica 143 países de acordo com a generosidade de seus cidadãos a partir de pesquisas primárias do Gallup. No agregado dos últimos dez anos dessa pesquisa, o Brasil ocupa a 74.ª posição. Não, a caridade não é uma de nossas qualidades.

A generosidade pode complementar ações de políticas públicas, mas não as substitui. E aqui temos muito com o que nos preocupar. É na inação do Estado que reside o problema.

Em 2014, o Brasil foi retirado do Mapa da Fome, uma lista preparada pela ONU com países onde mais de 5% da população ingere menos calorias que o recomendável. A Pesquisa de Orçamentos Familiares, do IBGE, detectou que a insegurança alimentar já tinha piorado bastante em 2017/2018. O governo Bolsonaro logo deixou claro seu desprezo pela segurança alimentar. Já no primeiro dia de mandato extinguiu o Consea, Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional, órgão de aconselhamento ligado diretamente à Presidência da República.

A pandemia agravou o quadro. A pesquisa Efeitos da pandemia na alimentação e na situação de segurança alimentar no Brasil, publicada em 2021 por Eryka Galindo e outros pesquisadores ligados à Universidade Livre de Berlim, identificou que quase 60% dos domicílios entrevistados apresentavam algum grau de insegurança alimentar. Nada menos que 15,8% dos pesquisados declararam que, nos três meses anteriores, passaram fome pelo menos uma vez porque não havia dinheiro para comprar comida. Não há por que esperar alguma melhoria em 2021. Não só o auxílio emergencial minguou como a taxa de desemprego supera 14% e o salário mínimo, quando deflacionado pelo custo da alimentação no domicílio, caiu 8,5% entre abril de 2020 e abril de 2021. 

Tolice esperar algum plano de ação do governo federal. Não há preocupação, não há diagnóstico, não há sequer iniciativas equivocadas. A fome grassa e poderá ser o flagelo de um contingente cada vez maior de brasileiros. A ação pública ignora o que lemos todos os dias nos cartazes de papelão que são mostrados nos semáforos das principais cidades.

A historiadora Margaret Mead disse certa vez que o marco inicial da civilização humana se deu há 15 mil anos. Essa é a data estimada de um fêmur fraturado achado em um sítio arqueológico. Esse osso quebrado estava consolidado, o que só foi possível porque aquele ser humano foi cuidado e protegido por outras pessoas. Ele não sobreviveria o tempo necessário para a fratura se regenerar sem ajuda. É a solidariedade que marca a nossa civilização e nos diferencia de outros animais. A falta dela nos conduz à barbárie.

A ausência de um plano concreto para enfrentar a fome nos apequena e representa um retrocesso civilizatório. A gente não quer só comida, diziam os Titãs. Mas no Brasil de hoje, graças à incúria do governo federal, há gente que só quer comida. Aqui chegamos.

*ECONOMISTA, FOI DIRETOR DE POLÍTICA MONETÁRIA DO BANCO CENTRAL E PROFESSOR DE ECONOMIA DA PUC-SP E FGV-SP. E-MAIL : LUISEDUARDOASSIS@GMAIL.COM 

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