Há menos munição que em 2008, diz Lagarde

Enquanto a crise varre os mercados de ações e câmbio, líderes continuam buscando na reunião do FMI a cooperação perdida

ROLF KUNTZ, ENVIADO ESPECIAL / WASHINGTON, O Estado de S.Paulo

23 de setembro de 2011 | 03h05

A crise econômica virou espetáculo de TV, com apresentador famoso, auditório, convidados ilustres e, como atração principal, a diretora-gerente do FMI, Christine Lagarde, fazendo mais um apelo à cooperação de avançados e emergentes para consertar o mundo e manifestando, de novo, sua esperança no compromisso dos europeus com um destino comum.

O espetáculo, no amplo saguão do edifício mais novo do Fundo Monetário Internacional, foi comandado pelo apresentador Nik Rowing, da BBC. Mohamed El-Erian, estrela do setor financeiro e presidente da Pacific Investment Management Company (Pimco), um dos maiores fundos do mercado, voltou a advertir para o risco de uma nova recessão e chamou a atenção para um número assustador: o desemprego dos Estados Unidos sobe de 14% para 20% da mão de obra, se forem contados os trabalhadores fora do mercado ou em ocupações precárias.

Horas antes, numa entrevista coletiva, Lagarde havia advertido: o caminho de saída é hoje mais estreito do que há três anos, quando o mundo rico entrou em recessão e os governos têm menos munição para gastar na ajuda ao sistema financeiro.

A iniciativa da BBC de organizar um programa no saguão do Fundo, em Washington, é uma boa referência para se avaliar a intensidade da crise. Enquanto convidados e auditório debatiam o desastre, as bolsas iam ladeira abaixo em todo o mundo e a especulação varria os mercados de câmbio, levando o dólar para mais de R$ 1,90 no Brasil.

Primeira entrevista. Antes do programa, Lagarde concedeu sua primeira entrevista como diretora do FMI na semana de uma assembleia geral da instituição. A nova diretora fez questão de mencionar o número de países membros, 187, para indicar a extensão da nova crise: nenhuma região estará livre de contágio e, por isso, o problema é de todos. Ela tentou apresentar uma visão equilibrada, alternando pontos negativos e positivos.

Entre os positivos, as medidas já tomadas por vários governos europeus para arrumar suas finanças. Mas é preciso tempo para implementá-las, e essas medidas "não são muito reconhecidas pelos mercados".

Do lado negativo, muita coisa por fazer. Nos Estados Unidos, falta arrumar as finanças das famílias, endividadas e empobrecidas pela crise imobiliária. Também falta acordo político sobre como cuidar das finanças públicas. Os americanos, segundo Lagarde, poderiam fazer um ajuste prolongado e gastar um pouco mais, a curto prazo, para reativar a economia. Na Europa, os governos têm de enfrentar um problema combinado - a crise das dívidas soberanas e a necessidade de reforço dos bancos.

Emergentes. Também há um papel para os emergentes, mas, ao usar essa palavra, ela pareceu pensar só na China. Os "emergentes", segundo ela, "ainda não estão fazendo o suficiente para impulsionar seus mercados internos" para promover o reequilíbrio há muito tempo defendido pelo FMI. Essa descrição é imprópria para o caso do Brasil, onde a demanda interna tem crescido bem mais que a produção industrial e vem pressionando fortemente as importações.

O reequilíbrio mencionado por Lagarde é parte de um programa esboçado no começo da crise pelo G-20. Os países com déficit externo deveriam conter a demanda interna e exportar mais. Os superavitários deveriam estimular o mercado interno e depender menos da exportação. O uso dos plurais é meramente diplomático, porque o lado deficitário é representado principalmente pelos EUA e o lado oposto, pela China.

Lagarde mencionou também o problema da liderança -um tema amplamente explorado em artigos nas últimas semanas. Ninguém tem tido suficiente influência para coordenar as políticas dos países membros do G-20 e para promover um ataque conjunto aos problemas. Mas a diretora-gerente do FMI referiu-se à necessidade de "liderança coletiva", com a participação de todos os países interessados na solução da crise. A tarefa de comandar o show, segundo ela, não caberá a um ou dois países. Só faltou esclarecer como funciona ou para que serve uma liderança exercida por todos.

Se alguém esperava dos emergentes alguma solução para a crise ou pelo menos uma boa ideia sobre como desviar o mundo de um novo desastre, deve ter sofrido uma decepção. A reunião dos Brics - Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul - resultou num comunicado de oito parágrafos, uma página e meia e nenhum conteúdo.

Se alguma saída política para a crise mundial tiver de sair do FMI, nesta semana, terá de ser hoje ou amanhã. Até agora a colheita foi nula.

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