Werther Santana | ESTADÃO CONTEÚDO
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‘Há risco de o IPCA voltar aos dois dígitos’

Economista já estima uma inflação de 8% neste ano, mas não descarta um resultado pior para o IPCA

Entrevista com

Nilson Teixeira, economista-chefe do banco Credit Suisse

Luiz Guilherme Gerbelli, O Estado de S.Paulo

31 de janeiro de 2016 | 03h00

Nas projeções do economista-chefe do banco Credit Suisse, Nilson Teixeira, a atividade econômica deve retrair cerca de 4% em 2015 e 2016. Em 2017, ele espera uma nova queda do Produto Interno Bruto (PIB). “Desde o fim do ano passado, já havia uma visão ainda mais desfavorável para o desempenho da economia brasileira”, afirma. Teixeira também não descarta que a inflação feche este ano acima de 10%, como ocorreu em 20105. Por ora, a previsão é de que o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) fique em 8%. A seguir trechos da entrevista concedida ao Estado.

Como o sr. analisa o momento atual da economia?

Desde o fim do ano passado, já havia uma visão ainda mais desfavorável para o desempenho da economia brasileira em 2016 e 2017. Hoje, parece razoável trabalhar num cenário em que a contração da atividade será próxima de 4% no ano passado e neste ano.

O sr. não enxerga nenhuma retomada até o fim do ano?

O nosso cenário assume que a contração trimestre após trimestre vai diminuir e chegará ao fim deste ano ou ao início de 2017 sem uma contração. Hoje, nós vemos para o ano que vem uma contração de 0,5% a 1%. É importante mencionar as condições do mercado de trabalho. Em 2015, a massa salarial, em termos reais, não diminuiu. Neste ano, nós veremos uma contração muito importante, com a população ocupada diminuindo e os salários reais também diminuindo.

Qual é projeção para a inflação, especialmente após mudança de tom do Banco Central?

A gente prevê 8% de inflação, mas o risco é de a inflação ser ainda maior do que isso. É importante ver que o governo e vários participantes do mercado parecem menosprezar o impacto de uma inflação muito alta para um período prolongado.

Em 2016, o sr. enxerga o risco de a inflação encerar o ano nos dois dígitos?

Há um risco, claro. Não é a nossa projeção central, mas trabalhamos com essa possibilidade.

Quais são os impactos para o País ao conviver com uma inflação acima do teto da meta?

Uma inflação acima do topo da meta fragiliza o regime de metas. E, na situação fiscal do País hoje, é preciso uma política monetária mais apertada. O risco é que as camadas mais pobres tenham dificuldade para se proteger. Dessa forma, não se pode afastar a possibilidade de parte das conquistas dessa camada serem perdidas.

O BC deveria ter elevado os juros na última reunião?

A nossa leitura até a reunião de novembro era que a decisão do BC seria por acomodar uma maior inflação no curto prazo e fazer uma convergência mais lenta. A partir da reunião de novembro, os sinais foram de que a autoridade monetária percebia a deterioração das expectativas de inflação para 2016 e 2017. Por isso, em um determinado momento, nós julgamos que nossa leitura de estabilidade da Selic estava equivocada e que a autoridade monetária subiria (os juros). Mas o discurso foi alterado para onde estávamos em novembro. Hoje, parece que o BC mantém a ideia de uma convergência mais lenta da inflação, embora sabendo do risco de a inflação ficar acima do que nós todos esperamos.

O sr. então não acredita na tese da dominância fiscal?

Discordamos da ideia de que aumentar os juros teria um impacto negativo. Nós até podemos argumentar que o impacto da política monetária na inflação tem diminuído recentemente por causa da política fiscal frouxa. Mas elevar os juros leva a inflação para baixo. O comportamento do mercado mostra isso. O BC, ao não levantar os juros, provocou um aumento da expectativa da inflação. Mas qual é a melhor resposta para controlar a inflação? Não há dúvida de que é reduzir de maneira muito forte os déficits fiscais.

Qual é a forma de se fazer isso?

É preciso ajustar o resultado primário. O déficit primário do Brasil é muito alto quando comparado com outros países e com a história do País. É fácil ajustar o fiscal? Não é. A carga tributária é maior do que a dos países emergentes. Qual é a solução que o governo vê? Sempre pelo lado da receita. Desde a década de 90, a carga tributária aumentou muito, mas as despesas cresceram de maneira muito significativa. Ao longo do processo, foi se criando cada vez mais rigidez nas despesas e houve concessões de benesses, que no momento em que o País crescia 4% ou 5% pareciam factíveis.

O que deveria ser feito?

O que é adequado, embora doloroso, seria reduzir os benefícios. É preciso reduzir não só os gastos discricionários, mas também os obrigatórios.

Qual gasto poderia ser reduzido? O sr. poderia exemplificar?

A primeira coisa que vem à mente é a reforma da Previdência. Estamos saindo de um déficit de 2% do PIB para um déficit de 5,5% do PIB daqui a dez anos. Ou seja, em dez anos, o déficit da Previdência vai aumentar 3,5 pontos porcentuais. Não é sustentável.

Na questão da Previdência, o PT tem se colocado contra. Precisa de força política para levar adiante a proposta...

Precisa de força política, precisa de liderança. E precisa de clareza para mostrar que não há alternativa. E não cabe discutir quais são as propostas dos ministros, do Conselho de Desenvolvimento (o Conselhão, que voltou a se reunir na semana passada). A proposta tem de partir da líder da País, que é a presidente da República. Cabe a ela comunicar de maneira clara e promover essas mudanças. O Conselho pode dar suporte, mas as medidas que precisam ser adotadas não são essas que foram anunciadas pelo governo na quinta-feira.

Quais seriam as outras medidas necessárias para o País?

Precisamos de reformas estruturais, microeconômicas, melhoria da regulação, redução da intervenção do Estado. O governo intervém muito em questões particulares. Está na hora de retomar de maneira mais organizada o processo de privatização. E, finalmente, há a questão do protecionismo. O Brasil é muito fechado e precisa se abrir.

Com esse quadro, o governo está distante da meta de superávit primário de 0,5% do PIB?

Só vemos uma alternativa de isso ocorrer: a receita advinda da repatriação de recursos ser muito maior do que se espera. Nós esperamos um número de R$ 10 bilhões. Ninguém tem capacidade de estimar esse valor. O que nós fizemos foi uma comparação com todas as experiências do mundo. O contexto do mercado hoje, porém, já está convergindo para a nossa previsão, que é de um déficit primário de 1,4% do PIB.

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